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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Descansa, que eu sei o que estou fazendo... acrescentou a outra, terminando o sobrescrito.

E tratou de remeter a carta ao seu destino.

XXVIII

DIABÓLICA ESTRATÉGIA

As palavras do Médico Misterioso a respeito de Laura traziam ultimamente o pai desta em constante preocupação.

Por que seria que o Dr. Gaspar tanto receava da convivência de D. Ambrosina... matutava o bom homem. Está claro que ela não era nenhum favo de inocência, mas também não seria tão malvada, que só por gosto, lhe fosse agora perder a filha. Em todo o caso, convinha estar de alcatéia, porque lá dizia o outro: "Mais vale prevenido no mar, que desprevenido em terra!"

Ora, D. Ambrosina, considerava ainda o cocheiro; o defeito que tinha era ser um tanto doida; por mau coração não havia que lhe dizer, coitada! que ele sabia de atos de caridade praticados por ela. Lá o fato de achar­se unida ao Gabriel, isso nada punha, porque a moça afinal precisava do auxílio de algum homem... E por que razão se achava ela hospedada ao lado de Laura? Seria por cálculo ou por maldade?... Não decerto; era puramente à força de circunstâncias.

E Jorge concluía com esta frase:

— Aquela, mais dia menos dia, é vítima do demônio do doido!

Quando lhe constou a visita de Gabriel, o homem ficou mais tranqüilo, na esperança de vê­los brevemente juntos e longe da pequena. Resolveu deixar que as cousas Corressem por si. Que pressa havia agora em afastar a pobre de Cristo, se o seu moço já se havia entendido com ela, e em breve a levaria consigo? Quanto à burla da gravidez, ele nada sabia.

A visita do Melo Rosa efetuou­se no mesmo dia em que Ambrosina lhe escrevera. Haviam os dois muito antes combinado o plano de larapiar de Gabriel uma boa quantia, fugindo ambos em seguida. O amante traído pagaria à sua custa os meios da traição.

Mas o cocheiro, que andava de orelha em pé, bispou de qualquer modo os projetos de Ambrosina e, revoltado na sua surpresa, tratou de destruí­los.

A sua primeira idéia foi de contar tudo a Gaspar, hesitou, porém. — Quem sabia lá se aquela revelação não iria dar motivo a qualquer fato lastimável?... Contudo, não lhe podia sofrer a paciência que o velhaco do Melo abusasse, assim sem mais nem menos, da boa­fé do pobre Gabriel, a quem Jorge deveras apreciava.

— Nada! concluiu ele. Quero que um raio me parta, se eu não desmanchar esta pouca vergonha!

E foi à procura do patrão, com o desassombro de quem vai resolvido a cumprir o seu dever.

Gaspar não estava em casa, e Jorge não queria entender­se diretamente com Gabriel; este, porém, com tal ansiedade lhe falou de Ambrosina, tão impaciente se mostrou pelas notícias delas, que o pobre do homem, depois de coçar a cabeça, torcer o chapéu entre as mãos e limpar o suor da testa, exclamou:

— Com todos os diabos! A verdade diz­se!

Gabriel assustou­se.

— É que não posso ver ninguém iludido! despejou o cocheiro. Sei que vossemecê projeta uma viagem com D. Ambrosina, e sei também que o Melo Rosa anda a desencabeçar a moça para não ir!

— O Melo Rosa?... Mas que diabo pretende esse tipo?

— Ora, o que há de ser? Quer que a Sra. D. Ambrosina, em vez de acompanhar a vossemecê, fique na companhia dele! Aí está!

— E Ambrosina o que diz?...

— Isso lá é que não sei! Tola será ela, se largar um moço formado, bem parecido, bom e rico, como vossemecê, por um troca­tintas daquela força! — Tu não sabes o que são as mulheres, Jorge!

— O que lhe afianço é que faz tudo, o tratante, para seduzi­la. Tenha a bondade de ler esta carta...

Gabriel leu no papel que lhe passou o cocheiro:

"D. Ambrosina.

Apesar de me haver a senhora proibido falar­lhe sobre qualquer assunto; apesar de ter confessado que me aborrece, eu não desisto das minhas esperanças, e venho ainda uma vez pedir­lhe, de joelhos, que não acompanhe o G*** e siga comigo para onde melhor lhe parecer em toda e qualquer parte do mundo. Os recursos pecuniários para a viagem não faltarão, porque, como saberá, acabo de ser largamente premiado pela loteria. E estará à sua disposição, desde que a senhora assim o decrete com uma simples palavra.

Espero a sua resposta até depois de amanhã. — Melo Rosa".

— Esse "depois de amanhã" é hoje, disse Jorge, porque esta carta chegou anteontem.

Gabriel ficou pensativo, mas no íntimo sentiu­se feliz com aquelas palavras; provavam­lhe elas que a requestada repelia o Melo.

Entretanto, tudo era arranjado pela própria Ambrosina; foi ela quem imaginou a carta, quem a escreveu e quem a pôs ao alcance do cocheiro, calculando que este desconfiado como andava, a iria mostrar logo ao patrão, e o patrão ao enteado.

Gabriel resolveu ir dali mesmo à Praia do Russell.

— Olhe, Doutor, disse­lhe Jorge; pode vossemecê contar comigo para o que der e vier! Se for preciso que o velhaco do tal Melo não importune, é só mo dizer porque eu me encarrego de tudo!...

— Como assim?

(continua...)

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