Por Manuel Antônio de Almeida (1852)
Partiram pois as três para a casa do major, que morava então na rua da Misericórdia, uma das mais antigas da cidade. O major recebeu-as de rodaque de chita e tamancos, não tendo a princípio suposto o quilate da visita; apenas porém reconheceu as três, correu apressado à camarinha vizinha, e envergou o mais depressa que pôde a farda; como o tempo urgia, e era uma incivilidade deixar sós as senhoras, não completou o uniforme, e voltou de novo à sala de farda, calças de enfiar, tamancos, e um lenço de Alcobaça sobre o ombro, segundo seu uso. A comadre, ao vê-lo assim, apesar da aflição em que se achava, mal pôde conter uma risada que lhe veio aos lábios. Os cumprimentos da recepção passaram sem novidade. Na atropelação em que entrara o major a comadre enxergou logo um bom agouro para o resultado do seu negócio. Acrescia ainda em seu favor que o major guardava na sua velhice doces recordações da mocidade, e apenas se via cercado por mulheres, se não era um lugar público e em circunstâncias em que a disciplina pudesse ficar lesada, tornava-se um babão, como só se poderia encontrar segundo no velho Leonardo. Se estas lhe davam então no fraco, se lhe faziam um elogio, se lhe faziam uma carícia por mais estupidamente fingida que fosse, arrancavam dele tudo quanto queriam; ele próprio espontaneamente se oferecia para o que podiam desejar, e ainda em cima ficava muito obrigado. Contudo, posto que a comadre soubesse já desta circunstância com antecipação, ou a pressentisse pelas aparências, a gravidade do negócio de que se tratava era tal, que nem isso bastou para tranqüilizá-la. Dispôs-se para o ataque, ajudada por suas companheiras, que, apesar de mais estranhas à sorte do Leonardo, nem por isso se ligavam menos à sua causa. Houve um momento de perplexidade para decidir-se quem seria o orador da comissão. O major percebeu isto, e teve um lampejo de orgulho por ver assim três mulheres confundidas e atrapalhadas diante de sua alta pessoa; fez um movimento como para animá-las, arrastando sem querer os tamancos.
— Oh! de tamancos e farda não está má... Senhoras donas, coisas de velho; no meu tempo não fazia eu destas...
— D. Maria que o diga, acudiu logo a comadre referindo-se a Maria-Regalada, e querendo fazer brecha fosse por onde fosse: mas não importa; o negócio é outro...
— É verdade, Sr. major, o bom tempo já lá foi.
— E Deus perdoe a quem dele tem saudades, retorquiu o major rindo-se com um riso rugoso de velha sensualidade...
— Sim, sim, tornou a Maria-Regalada; mas deixe essas coisas todas para logo...
— Ai criatura, acudiu D. Maria, que até então estivera calada, cansada talvez do número prodigioso de mesuras que fizera ao entrar; deixai cada um lembrar-se do seu tempo, isto consola; eu cá gosto bem quando acho...
— É como eu, respondeu o major; em se me tocando cá nas feridas antigas...
— Pois é mesmo por me lembrar destas feridas antigas, atalhou a Maria-Regalada, que venho aqui com estas senhoras donas, que o Sr. Major bem conhece; e se não foram elas cá não viera, pois o negócio é sério...
A comadre achou a ocasião bem apanhada, e fez com a cabeça um sinal de aprovação.
— Vamos lá ver o que é o tal negócio sério, respondeu o major atinando, pela presença da comadre, pouco mais ou menos com o que era, e pelo que fez um sinal duvidoso com a cabeça, ou para fazer-se de bom, ou porque realmente não quisesse abrir largas esperanças.
A interlocutora prosseguiu:
— O seu granadeiro Leonardo é um bom rapaz.
O major arqueou franzindo as sobrancelhas, e repuxou os beiços, como quem não concordava in totum com aquilo...
— Não me comece já com coisas, Sr. major. Pois é, sim, senhor, muito bom rapaz, e não há razão para ser castigado, por causa de uma coisa nenhuma que fez... isso Não é razão, não, senhor, para se mandar tocar de chibata um moço que não é nenhum valdevinos; pois o Sr. major bem sabe que o padrinho quando morreu deixou-lhe alguma coisa, que bem lhe podia estar já nas mãos, e ele por isso livre da maldita farda, a quem sempre tive zanga (menos de uma que bem se sabe), se o pai que tem... mas deixemos o pai que não vem nada ao caso...
— Já sei de tudo, já sei de tudo, atalhou o major.
— Ainda não Sr. major, observou a comadre, ainda não sabe do melhor, e é que o que ele praticou naquela ocasião quase que não estava nas suas mãos. Bem sabe que um filho na casa de seu pai...
— Mas um filho quando é soldado, retorquiu o major com toda a gravidade disciplinar...
— Nem por isso deixa de ser filho, tornou D. Maria.
— Bem sei, mas a lei?
— Ora, a lei... o que é a lei, se o Sr. major quiser?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16987 . Acesso em: 8 mar. 2026.