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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Porque não, seu Coelho? Vosmecê não conhece ainda este cabra com quem está falfando. Ora escute: Nesta mesma viagem, de que acabo de chegar, mandaram-me, quando eu ia, da fortaleza de Itamaracá um chuveiro de balas, que a outro que não fora o Bartolomeu teria feito perder a tramontana. Mas eu peguei na cana-do-leme da Borboleta e fiz com ela tais cortes e recortes por cima das ondas que nem uma tainha seria capaz de a ganhar. Eram balas de uma banda e da outra, pela popa e pela proa; mas dentro só o que caia eram as escumas dos mares que ela atravessava como jangadinha do alto.

Pois bem, Bartolomeu, disse Coelho a cabo de alguns minutos de silencio em que, ao parecer, estivera meditando sobre grave assunto. Fica assentado que dormirás hoje a bordo da Borboleta, e de lá não virás à terra senão por ordem minha. Vai ver tua mulher e teus filhos, que deves estar impaciente por abraçá-los. Às nove horas recolhe-te à embarcação. acharás já ai todas as provisões e munições necessárias para a viagem.

- Mal tinha o negociante terminado estas palavras quando se fez ouvir do lado de fora descomunal ruído de povo, retinir de armas, rumor de passos de cavalo. Quase no mesmo instante as portas da loja se fecharam com estrondo, e logo após os caixeiros de Coelho corriam pelas escadas acima amedrontados e confusos. Que é isto? Que quer dizer isto? Inquiriu o negociante, vencendo sua surpresa, ao que primeiro penetrou na sala.

- A casa está cercada, e ai vem o juiz ordinário com ordenanças e oficiais do seu juízo.

No mesmo instante uma voz que soou aos ouvidos de Coelho como eco das gemonias infernais, fez ouvir a seguinte intimação:

- Da parte d’el-rei, componde a casa, que vimos fazer uma diligencia.

A esse tempo Cosme Bezerra assomava na porta da sala.

Trajava calções e casaca preta, meias de seda amarela, sapatos com fivelas douro. Trazia chapéu com pluma branca, e espada pendente do talim.

XXIV

Coelho foi ao encontro de Cosme Bezerra, e com irritante altivez que as circunstâncias atuais até certo ponto justificavam, rompeu o silencio que se seguira à intimação:

Da parte d’el-rei, que quereis em minha casa ao lusco-fusco e com este aparato de força, senhor juiz?

Usais de um direito que pertence à justiça – o de interrogar – respondeu Cosme Bezerra com afetada serenidade que lhe era muito custosa de manter. Mandais distribuir armas e dinheiro pelo povo a fim de derrubar as autoridades legais, e vos admirais de ter a justiça em vossa porta.

- O que se diz é o contrario, retorquiu Coelho, sem diminuir sua arrogância. Diz-se que nós os portugueses, e os que nos acompanham, nós os fiéis súditos d’el-rei nosso senhor, não temos nem dinheiro nem armas com que rebater a rebelião da nobreza.

- Pouco importa às justiças saberem se tendes dinheiro. Falei-vos em dinheiro, porque em dinheiro se fala pelas ruas da vila, Sr. negociante.

- Chamai-me mascate, já que não quereis chamar-me sargento-mór, título que não podeis tirar-me. - Título que a nós deveis.

- Devo-o a el-rei, não a vós.

Não vim a praticar convosco. Vim a saber se de feito tendes armas defesas que destinais aos populares por vós comprados para executores ostensivos de vossos tenebrosos desígnios.

Se tenho armas! Exclamou Coelho. Se eu armas tivesse, não as deixaria passar senão depois de morto, das minhas para as vossas mãos. De armas precisamos nós para defender a verdadeira autoridade, vilamente ultrajada por uma nobreza que na rebeldia supõe consistir a sua maior força e o seu primeiro brasão.

Em nome da lei, mascate! Gritou Cosme em tom de quem impunha silencio. Sois apontado como perturbador da ordem, protetor de rebeldes, e um deles. À frente de todos os motins que há dois meses perturbam o sossego desta vila, todos vos vêem comprando os venais, desencabeçando os ignorantes, encaminhando para o mal, que é o vosso alvo, os desordeiros por habito e condição. Os homens bons estão já cansados de aturar as vossas provocações, a autoridade de ser desrespeitada, as famílias fracas de receber insultos e violências dos malfeitores a que estendeis a mão cheia de ouro. É tempo de espezinhar a cascavel que tanta peçonha mortal tem vazado de sua boca imunda; e como o melhor meio de aniquilar a cobra é atacá-la em seu próprio covil, pareceu à autoridade competente que a vossa casa seja corrida, e de vosso crime se tire a devassa, se chegar à certeza de que sois criminoso.

O direito, que vos arrogais, de violar o meu asilo domestico, nem o achais na lei, nem eu o reconheço senão como filho do vosso violento natural, de todos conhecido. O testemunho de que não sou criminoso está em sujeitar-me ao vosso desatino. Outro fora eu, que já me teríeis pago a vossa ousada. Correi, correi à minha casa. Este procedimento condiz com a fidalguia de que rezam os vossos encardidos pergaminhos. Quanto a dizerdes que sou rebelde e amotinador, cego seja para sempre aquele que ousar afirmar que primeiro se insurgiram contra a legalidade os mascates que os nobres.

(continua...)

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