Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
E para se fazer a farinha destas raízes se lavam primeiro muito bem, e depois, desfeitas a mão, se espremem no tapeti, cuja água não faz mal; depois de bem espremidas desmancham esta massa sobre uma urupema, que é como joeira, por onde se coa o melhor, e ficam os caroços em cima e o pó que se coou lançam-no em um alguidar que está sôbre o fogo, aonde se enxuga e coze da maneira que fica dito, e fica como cuscuz, a qual em quente e em fria é muito boa e assim no sabor como em ser sadia e de boa digestão. Os índios usam destas raízes tão curtidas que ficam denegridas e a farinha, azeda. Os portugueses não a querem curtida mais que até dar a casca, à qual mandam misturar algumas raízes de mandioca crua, com o que fica a farinha mais alva e doce; e desta maneira se aproveitam da mandioca, a qual farinha fresca dura sem se danar cinco a seis dias, mas faz-se seca; e quem é bem servido em sua casa, come-a sempre fresca e quente.
Estas raízes da mandioca curtida têm grande virtude para curar postemas, as quais se pisam muito bem sem se espremerem; e, feito da massa um emplasto, posto sobre a postema a molefica de maneira que a faz arrebentar por si, se a não querem furar.
C A P Í T U L O XLI
Que trata do muito para que prestam, as raízes da carimã.
Muito é para notar que de uma mesma coisa saia peçonha e contrapeçonha, como da mandioca, cuja água é cruelíssima peçonha, e a mesma raiz seca é contrapeçonha, a qual se chama carimã, que se faz desta maneira. Depois que as raízes da mandioca estão curtidas na água, se põe a enxugar sobre o fogo em cima de umas varas, alevantadas três e quatro palmos do chão, e como estão bem secas, ficam muito duras, as quais raízes servem para mil coisas, e têm outras tantas virtudes; a principal serve de contrapeçonha para os mordidos de cobra, e que comem bichos peçonhentos, e para os que comem a mesma mandioca por curtir assada, cuidando que são outras raízes, que chamam aipins, bons de comer, que se parecem com ela, a qual carimã se dá desta feição: tomam estas raízes sêcas, e rapam-lhe o defumado da parte de fora e ficam alvíssimas e pisam-nas muito bem, e depois peneiram-nas e fica o pó delas tão delgado e mimoso como de farinha muito boa; e tomada uma pouca dessa farinha e delida em água fria, que fique como amendoada, e dada a beber ao tocado da peçonha, faz-lhe arremessar quanto tem no bucho, com o que a peçonha que tem no corpo não vai por diante. E também serve esta carimã para os, meninos que têm lombrigas, aos quais se dá a beber desfeita na água, como fica dito, e mata-lhes as lombrigas todas; e uma coisa e outra está muito experimentada, assim pelos índios, como pelos portugueses.
Da mesma farinha da carimã se faz uma massa que posta sobre feridas velhas que têm carne podre lha come toda, até que deixe a ferida limpa; e como os índios estão doentes, a sua dieta é fazerem deste pó de carimã uns caldinhos no fogo (como os de poejos) que bebem, com que se acham mui bem por ser muito leve, e o mesmo usam os brancos no mato, lançando-lhe mel ou açúcar, com o que se acham bem; e outras muitas coisas de comer que se fazem desta carimã que se apontam no capítulo que se segue.
C A P Í T U L O XLII
Em que se declara que coisa é farinha-de-guerra, e como se jaz da carimã, e outras coisas.
Farinha-de-guerra se diz, porque o gentio do Brasil costuma chamar-lhe assim pela sua língua, porque quando determinam de a ir fazer a seus contrários algumas jornadas fora de sua casa, se provêm desta farinha, que levam às costas ensacada em uns fardos de folhas que para isso fazem, da feição de uns de couro, em que da Índia trazem especiaria e arroz; mas são muito mais pequenos, onde levam esta farinha muito calcada e enfolhada, de maneira que, ainda que lhe caia num rio, e que lhe chova em cima, não se molha. Para se fazer esta farinha se faz prestes muita soma de carimã, a qual, depois de rapada, a pisam num pilão que para isso têm, e como é bem pisada a peneiram muito bem, como no capítulo antes fica dito. E como têm esta carimã prestes, tomam as raízes da mandioca por curtir, e ralam como convém uma soma delas, e, depois de espremidas, como se faz à primeira farinha que dissemos atrás, lançam uma pouca desta massa num alguidar que está sôbre o fogo, e por cima dela uma pouca de farinha da carimã e, embrulhada uma com outra, a vão mexendo sobre o fogo, e assim como se vai cozendo lhe vão lançando do pó da carimã, e trazem-na sobre o fogo, até que fica muito enxuta e torrada, que a tiram fora.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.