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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

— A coisa não é como se diz, seu Guedes, a verdade é esta, que eu lhe confio, porque sei que você é meu amigo: a menina está no Cocó, mas ainda não teve a criança...

— Ah!

— Sim, quero dizer, você bem sabe o que eu quero dizer...

O Guedes era todo ouvidos.

Luziam-lhe os bugalhos no fundo das órbitas, parados, imóveis, caindo sobre o amanuense com a fixidez de clarabóias de vidro. Sentia um prazer especial, uma comoçãozinha esquisita, um extraordinário bem-estar ao ouvir a história, a verdadeira história do escândalo, narrada por João da Mata, pela própria boca do padrinho da rapariga, gente de casa, testemunha ocular.

Encolhia-se todo de gozo, ante aquelas maravilhosas palavras do amanuense.

— E o pai?

— Que pai? O pai morreu no Pará...

— Não, homem, o pai da criança...

— Sim... o pai da criança, o Zuza? Pois não se foi embora para o Recife? Aquilo é um infame, um biltre.... Eu cá previa tudo quando proibi formalmente que a pequena lhe mostrasse o nariz, logo a princípio, mas que querem? encontravam-se na Escola Normal, no Passeio Público, e, afinal, foi o que resultou...

Soaram doze badaladas graves e dormentes na Sé. João contou uma a uma.

— Meia-noite, seu compadre, vou-me embora, adeus. Perdi hoje tanto como dez pintos.

E separaram-se friamente, como dois desconhecidos.

Perto de casa o amanuense esbarrou com um vulto que se movia no escuro — era um burro, o pobre animal babujava a rama da coxia, solitário e mudo. Uma vez senhor do segredo, o Guedes não se conteve, disse-o ao ouvido do Perneta e com pouco ninguém ignorava na cidade “que a normalista do Trilho fora desembuchar, ao Cocó, um filho do Zuza”.

— Do Zuza!? exclamou o José Pereira ao saber a novidade na redação da Província, pela manhã.

— Sim, do Zuza, confirmou o Castrinho pousando a pena atrás da orelha. É o que diz o público, Vox populi... — E esta!

José Pereira arrepanhou as abas da sobrecasaca, e, passeando o olhar sobre a banca de trabalho, onde destacavam dois grandes dicionários de Aulete, sentouse vagarosamente, voltando para o poeta.

— Admira-se você, tornou este. Oh! homem, pois um fato que toda a gente previa!...

O outro recomendou que falasse mais baixo por causa dos tipógrafos...

E o Castrinho, à meia voz, estrangulado por uns colarinhos extraordinariamente altos:

— Qual! O fato está no domínio público, não há por aí quem não o saiba. Dizem que o velho Souza Nunes só falta perder a cabeça.

Em todo caso sempre era prudente guardar certo sigilo, negar mesmo, se possível fosse, uma vez que se tratava da reputação do Zuza...

Meninos de bolsa a tiracolo questionavam com o agente da folha, do outro lado do tabique que dividia a sala da redação e onde se viam empilhamentos de jornais sobre uma velha mesa gasta.

Daí a pouco entrou o Elesbão, outro redator, um sujeito lúgubre, muito pálido, faces encovadas, olhar triste, tossindo devagar. Foi perguntando, numa voz sumida e lenta, de que se tratava.

O Castrinho disse, impertigando-se na cadeira, que se tratava “dos brios da sociedade cearense”. O outro arregalou os olhos com ar de espanto. — Como assim? E explicou: Tinha estado fora, na Guaíuba, a leites, não sabia as novidades. — Um fato muito natural, disse José Pereira, nada mais que a reprodução de fatos velhos... Não valia a pena tocar na ferida...

Mas o Elesbão estranhou que “os colegas” tivessem segredos para ele. E depois de saber “o mistério”:

— Magnífico assunto para folhetim realista, hein?

Escrevia folhetins realistas para o rodapé da Província e trabalhava num livro de fôlego, os Mistérios de Arronches, com que, dizia, pretendia fundar uma escola

“mais consentânea com o estado atual da ciência”.

A sua opinião sobre o novo escândalo que preocupava agora a população cearense era que “nós ainda não tínhamos compreendido o importante papel da mulher na civilização”.

— A educação feminina, acrescentou com cansaços na voz, a educação feminina é um mito ainda não compreendido pelos corifeus da moderna pedagogia. Queríamos introduzir no Ceará os dissolventes costumes parisienses, a forciori, mas não eram essas as tendências do nosso povo essencialmente católico e essencialmente crédulo. Não admitia a teocracia tal como aceitavam os padres — “essa corja de especuladores” — mas era preciso respeitar as crenças populares, o verdadeiro sentimento religioso, sem hipocrisia, sem preconceitos.

De quando em quando a tosse o interrompia, uma tossezinha seca e pigarreada; levava a mão ao peito e expectorava. — “Diabo de catarro não o deixava em paz!”

E, continuando:

— O que é a Escola Normal, não me dirão? Uma escola sem mestres, um estabelecimento anacrônico, onde as moças vão tagarelar, vão passar o tempo a ler romances e a maldizer o próximo, como vocês sabem melhor que eu...

José Pereira contestou, lembrando o Berredo, “uma ilustração invejável”, o padre Lima, “um excelente educador em cujas aulas as raparigas aprendiam ao mesmo tempo a ciência e a religião”.

(continua...)

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