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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Padre Antônio achou que as perguntas de Macário revelavam pouca fé. Não chegara ninguém, não havia notícias da igarité, mas tinham a montaria do pescador que, calafetada como se achava, serviria perfeitamente para duas pessoas. Víveres não faltavam. A dona do sítio fornecer-lhes-ia anzóis e linhas de pesca, com isso ninguém morria de fome no Brasil. Em vez da boa farinha-d'água que os tapuios haviam furtado, comeriam o seu peixe com bananas verdes assadas, petisco delicioso, capaz de despertar a gula dum santo. De resto bananas não faltavam no sitio e já cortadas. A tia Teresa ceder-lhes-ia facilmente dois magníficos cachos que estavam pendurados no teto da cozinha. E enquanto a remeiros, que falta faziam João e Pedro, se estavam eles ali, Antônio e Macário, dois rapazes vigorosos, capazes de manejar um remo? Tinham uma boa lasca de pirarucu seco, sal, bananas e anzóis, que lhes faltava? E, por fim, quanto maiores fossem os sacrifícios, tanto mais mereceriam do Senhor, em cuja vinha trabalhavam e maiores seriam a glória e o renome de que infalivelmente gozariam. E terminou com intimativa:

— Vamos, Macário, não me seja mole, mexa esse corpanzil, deixe-se de preguiça. Hei-de seguir a viagem. Se for preciso partirei sozinho, aconteça o que acontecer.

Macário viu nos olhos ardentes do padre uma resolução inabalável, embora sem calma, misturada com a agitação da impaciência, como se o amor-próprio forcejasse por esconder uma vaga desconfiança de si mesmo, ansiando por sepultála sob o peso do fato consumado. Partir sozinho, loucura! Exigir que Macário partisse também, que falta de caridade evangélica! Nada o demoveria desse propósito insensato? Que mal viria à catequese dos mundurucus da paciência empregada em esperar uma condução mais segura e cômoda do que a reles montaria, inabilmente calafetada por S. Rev.ma? A nada atendia, nada podia acalmar-lhe uma impaciência inexplicável S. Rev.ma era bem capaz de partir sozinho? E que diria Silves? Não faltaria ali quem acusasse o Macário de tê-lo abandonado, e quem sabe mesmo de que horrores seriam capazes as línguas viperinas de José do Lago e do afilhado do Valadão!

Macário resistia e cedia ao mesmo tempo. Não se sentia com forças para aquele sacrifício, mas não tinha a energia precisa para dizer não. Ainda se a missão se fizesse a bordo do Cristóforo! Mas qual! era numa canoinha de criança, numa casca de noz, que podia fazer água por todos os lados! O Cristóforo ainda não estava feito, e quem sabe se se faria! Se algum dia o senhor bispo levasse a efeito a sua execução, não lhe aproveitaria mais, ao triste Macário de Miranda Vale! Enchiase de ciúmes da fácil glória dos sacristães vindouros. Esses viajariam no Cristóforo, a ele, a ele sozinho cabia a infelicidade de missionar numa montaria de pesca, abandonada pelo próprio dono. Entretanto os outros, os que tinham de gozar as comodidades do navio-igreja, seriam elogiados, gratificados, canonizados talvez!

A atitude severa e o silêncio resoluto do vigário, dominavam-no. Obedecia, resistindo sempre, resmungando, andando pelo quarto, preparando-se para a viagem, parando subitamente, decidido a ficar, num grande esforço de vontade, e logo, apenas o feria o olhar frio e penetrante do padre, continuando a arrumar as coisas necessárias, ora com maneiras bruscas de revoltado, ora com submissão resignada de vitima, já derramando uma fonte de lágrimas que enxugava raivosamente na manga da camisa, já ativando febrilmente os preparativos, como se a obediência desesperada protestasse contra a violência que se lhe fazia. Padre Antônio cruzara os braços, não proferia palavra, não fazia um gesto, mas o seu olhar implacável seguia todos os movimentos do Macário, causava-lhe impaciências nervosas, quando o sacristão o sentia espetar-lhe a epiderme, forçando-o a levantarse, a pôr-se em andamento, a engolir frases cheias de justa indignação, que o engasgavam e lhe teriam valido a vitória se ele as pudesse proferir claramente, se a maldita garganta não as retivesse, se a endiabrada língua não se gelasse na boca sob a ação daquele olhar dominador, que o abatia como a uma criança medrosa. No meio dos arranjos, quando tudo parecia pronto, o sacristão sentiu voltar a liberdade da fala e dos lábios lhe saiu como um protesto solene:

— Saberá V. Rev.ma que havemos de remar com as mãos.

Padre Antônio saiu do mutismo que guardava para responder sorrindo:

— Sossegue, Macário, a tapuia vendeu-me dois remos novos.

— Não é isso, tornou Macário, vitorioso, o breu está muito fresco, o sol o derreterá e teremos de ir a nado para o porto dos Mundurucus!

Era um dia que se ganhava, e nesse espaço de tempo, o mundo dava muitas voltas... pensou o sacristão em desespero de causa.

CAPITULO VIII

(continua...)

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