Por Domingos Olímpio (1903)
Não era a missa um pretexto para sair; mas, ao profundo sentimento religioso se aliava a casquilhice inocente de exibir os belos vestidos, as últimas fantasias da arte decorativa da mulher, importadas do Recife, uns trajes vaporosos de renda e cambraia, feitos com requintes convencidos de elegância, com raro gosto, pelas adoráveis criaturas que os vestiam. Nada havia de censurável em que as moças da cidade, metidas durante toda a semana em casa, ocupadas em trabalhos sedentários de renda e labirinto, se desforrassem desse retraimento nas festas religiosas, celebradas, sempre, com extraordinário esplendor. Imitando à gente rica, Luzia, além do intuito de cumprir um piedoso dever, nutria a esperança de encontrar Teresinha ou Alexandre, obter notícias deles, ou, pelo menos, encurtar a distância que os separava.
Ao passar pela rua do Menino Deus, ela esmoreceu a marcha; aproximou-se do armazém da Comissão e olhou atentamente para dentro, erguendo-se nas pontas dos pés, para ver, através da multidão de indigentes, aglomerados à porta, a criatura querida.
Quando avistou a cadeia, cujas grades negras estavam cheias de presos amaciados e lívidos, sentiu-se a moca cortada de terror. Crapiúna estava ali dentro, como fera cativa, devorando-a, talvez, naquele momento, com os olhos injetados por uma congestão de cobiça e raiva impotente.
— Moça, ó! moça! – disse um menino que se aproximou dela correndo. – Ali tem um preso que quer falar com vosmecê.
Luzia repeliu, com um gesto enérgico de negação, o esperto pequeno, que insistia no chamado, e apressou o passo para distanciar-se da sinistra prisão, onde uma voz rouca e vibrante, como um rugido, a voz de Crapiúna, bradava suplicante, e amaldiçoava:
— Luzia, Luzia!... Meu coração, meu amor da minha alma, tem pena de mim! Perdoa-me pelo amor de Deus! Vem! É um instantinho... Não te farei mal. Vem! Só duas palavras!... Ah! Não me ouves; não queres saber de mim!... Mulher do diabo!... Deixa estar, safada, amaldiçoada, que não ficarei preso toda a vida... Nem que tu vás para o inferno...
O soldado gritava, estorcia-se delirante, agarrado às enormes barras de ferro do portão, brandindo-as, abalando-as com inútil esforço para quebrá-las, arrancá-las dos gonzos chumbados ao portal de granito.
Perseguida pelo eco dos brados de insânia desesperada, ela penetrou no templo, como num abrigo inexpugnável, defeso à maldade humana, à curiosidade vexatória daquela gente que, lá fora, a considerava criatura impassível de coração, e se apiedava do prisioneiro, cuja dor feroz lembrava a simpatia dos grandes infortúnios.
A imensa nave da matriz desbordava de fiéis, amontoados, em confusa massa inquieta, alumiada pelos jorros de crua luz, que se projetavam das arcadas laterais, recentemente rasgadas nas formidáveis paredes de pedra e cal, sobre os mantos alvíssimos das mulheres ajoelhadas. No fundo resplendia a capela-mor, o tabernáculo, esculpido pelo cinzel do mestre João Francisco, o entalhador, com duas séries de elegantes colunas coríntias, enleadas de parreira, a vinha do Senhor, e rematadas de folhas de acanto, todas brancas, de figos doirados e sustendo a arquitrave e a curva do arco que emoldurava a grande tela de Bindsay, a Assunção de Nossa Senhora. Mais abaixo, dominando a banquete de prata maciça e os bustos dos Apóstolos, emergia, dentre palmas, dentre flores, a imagem da Virgem da Conceição, a padroeira da cidade, coroada de oiro, de palrarias, quase escondida no amplo manto de veludo azul, marchetado de estrelas, bordado com carinho pelas órfãs da Casa de Caridade. As chamas dos círios esmoreciam na suntuosa claridade da manhã, como pálidas placas, dissolvendo-se em tênues fios de fumo, a sumiremse no ambiente saturado de incenso e de um odor agro de cera derretida.
Luzia, sobressaltada pela imprecação minaz do soldado, cujas palavras brutais lhe contundiam o cérebro, pensara encontrar na casa de Deus, aos pés da Mãe Santíssima, refúgio e conforto à sua alma atribulada. Mas, ali mesmo a perseguia a protérvia da multidão. De pé, hesitante na escolha do lugar para ajoelhar-se, era alvo de olhares, que a lapidavam, trocados entre as mulheres, que desembuchavam a malícia atroz dos ruins sarcasmos. Uma crispação de surpresa, de curiosidade assanhada agitou a onda viva que a cercava. Raparigas e meninas, matronas e velhas, fitaram-na com insistência, imobilizadas de pasmo, e de boca em boca perpassou ininterrupto murmúrio, cochichado de todos os lados:
— É a Luzia!... A Luzia-Homem!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.