Por Aluísio Azevedo (1881)
— Anda pra cá, Angelina! gritou o roceiro. Pareces um bicho do mato! Nunca viste gente, rapariga?!
Foi ter com ela e obrigou-a a sair do esconderijo.
— Ora vamos! direito! Não estejas a esconder o rosto, que não tens de que o esconder!... Vamos!
Angelina apareceu, com muito acanhamento, e foi cumprimentada.
— Então! ralhou o pai. É com a cabeça que se responde?... Ah, que estas cada vez mais matuta!... Que mal te fez este pobre cabeção para o maltratares desse modo?... Olha que o rompes, estonteada!
Angelina, muito contrafeita, abaixara o seu rosto moreno, agora mais corado sob o frouxo do riso da encalistração que a dominava.
— Então, de que tanto ris, sua feiosa?...
Esta última palavra era uma injustiça que o Cancela fazia à filha; Raimundo, ao apertar-lhe a mão, desenvolta e maltratada, compreendeu logo que estava defronte de uma bonita e toleirona sertaneja, inocente e forte como um animal do campo. Era mulher de dezoito anos; mulher, porque tinha já o corpo em plena formatura - ombros fartos, colo cheio e braços desenvolvidos no trabalho ao ar livre: “Boa mulher para procriar!...” pensou ele.
— Isto que você está vendo aqui, meu amigo, é uma sonsa!... disse o Cancela, satisfeito com o ar lisonjeiro de Raimundo. Capaz é ela de virar esta casa de pernas pro ar! e parece que não quebra um prato! Olhe se a tonta já me tomou a bênção depois da reza!... Parece que empanemou com as visitas!... Anda daí bicho brabo!
A rapariga foi beijar lhe a mão, e ele ferrou-lhe depois uma palmada na rija almofada do quadril. — Esta disfarçada! Vá lá! Deus te faça branca!
Por esse tempo, Manuel conversava com a esposa do Cancela; brasileira pequenina, socada, cheia de vida, dentes magníficos, morena e de cabelos crespos. Respirava de toda ela um ar modesto de quem gosta de fazer bem; estava sempre à procura de alguma coisa para arrumar, muito ativa. muito asseada e muito trabalhadeira. Na cozinha dava sota e ás a mais pintada; sabia lavar como ninguém e assistia à roça dos pretos sem cair doente. “Era p'r'um tudo!” diziam dela os escravos. Chamava-se Josefa, e só fora duas vezes à cidade.
— Então! reclamou o fazendeiro, vem ou não vem essa merenda?... olhem que os homens devem trazer o estômago na espinha, e eu não lhes quero dar trela sem havermos manducado!
A mulher ouviu o fim da reclamação já na cozinha.
— Por que não despiu você essas tafularias? perguntou o dono da casa a Raimundo. Por cá ninguém olha para elas! Se quer, ponha-se a gosto! — Obrigado, bem sei, estou à vontade.
E conversavam, enquanto Angelina punha a mesa. Cancela sentia-se satisfeito, loquaz; gostava de dar à língua e, quando pilhava hóspedes que o aturassem ninguém podia com a vida dele.
Entretanto, Josefa trazia já as iguanas e os homens dispunham-se a comer com apetite. À luz de um antigo candeeiro de querosene, reverberava uma toalha de linho claro, onde a louça reluzia escaldada de fresco; as garrafas brancas, cheias de vinho de caju, espalhavam em tomo de si reflexos de ouro; uma torta de camarões estalava sua crosta de ovos; um frangão assado tinha a imobilidade resignada de um paciente; uma cuia de farinha seca simetrizava com outra de farinha d'agua; no centro, o travessão do arroz, solto, alvo, erguia-se em pirâmide, enchendo o ar com o seu vapor cheiroso.
Sentia-se a gente bem ali, com aquele asseio e com aquela franqueza rude do Cancela.
— Olé! gritou este, destapando uma fumegante terrina de mundubés e fidalgos, temos peixe de escabeche?! Bravo! — E passando a examinar o que mais havia: — Bravo, bravo! moquecas de sururus! Peixe mosqueado! Olhem que este não é do rio e por isso não se pilha por cá todos os dias! Tem escamas, seu Manuel!
E enchiam-se os pratos.
— Famoso! está famoso! repetia, levando à boca grandes colheradas.
— Então as senhoras não nos fazem companhia?... disse Raimundo, voltando-se para as duas.
— Qual! apressou-se o fazendeiro a responder. Não estão acostumadas com pessoas de fora... Deixei-as lá! deixe-as lá, que ao depois se arranjarão mais à vontade! Olhe, ali a minha Eva diz que não aprecia o seu peixinho, senão comido com a mão. Coisas de mulher! Deixe-as lá!
Contudo, Josefa veio presidir à mesa, ao lado do marido, e informava-se do êxito dos seus quitutes.
— Não os deixe sem provarem daquela torta de sururus, que está de encher o papo!
— Lá chegaremos! lá chegaremos! Vai apanhar mais pimentas!
— Ó amigo entorne, sem receio! Não tenha medo que o vinhito é fraco! - Seu — Manuel! seu Mundico! topemos à memória do velho amigo José da Silva!
Os três beberam, e Cancela, depois de pousar o copo vazio, acrescentou com respeito, limpando a boca nas costas da mão:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.