Por Aluísio Azevedo (1895)
Toda esta conversa foi a noite desse mesmo dia relatada minuciosamente a Teobaldo por Branca, que se encontrou com ele em casa de uma família conhecida de ambos. - Estás disposta a casar comigo? perguntou-lhe o rapaz.
- Bem sabes que sim.
- Mesmo sem a autorização de teu pai?
- Sim, mas exijo que lhe faças o pedido.
- E se ele negar!
- Insistiremos.
- E se ele insistir também na recusa?
- Esperaremos.
- E se ele nunca mudar de idéia?
- Não sei... Havemos de ver...
- E se ele quiser casar-te à força com teu primo?
- Oh! isso não consinto.
- Pois fica sabendo que é essa a sua intenção!
- Não creio!
- E, se for, estás disposta a reagir?
- Estou.
- E sabes qual é o único meio que há para isso?
- Qual é?
- Fugindo.
Branca teve um sobressalto e repetiu quase que mentalmente:
- Fugindo?...
- Sim, e desde já preciso saber se devo ou não contar contigo; nestes casos não há meias medidas a tomar: se estás disposta a ser minha esposa, arrostaremos tudo; se não estás, desaparecerei para sempre de teus olhos. Decide!
- Sim, mas tu hás de falar primeiro a papai...
- Está claro e só me servirei do rapto no caso que este me recuse a tua mão.- Talvez não recuse.
- E se recusar?
Ela abaixou os olhos.
- Responde! disse ele.
- Irei para onde me levares...
- Bem. Estamos entendidos.
E Teobaldo afastou-se disfarçadamente.
Quando tornou a casa, foi direito ao Coruja, a quem por último confiava as suas esperanças de casamento, e disse-lhe sem mais preâmbulos:
- Sabes?! O Aguiar está me fazendo uma guerra terrível! intrigou-me com o comendador! Creio que vou ter muito vento contrário pela proa! Ah! mas comigo aquele miserável perde o seu tempo porque estou resolvido a raptar a menina!
- Não sei se farás bem com isso... observou o outro; esses meios violentos provam quase sempre muito mal... Eu, no teu caso, me entenderia com o pai.
- Ah! está bem visto que lhe farei o pedido! faço, que dúvida! mas já sei que vou levar um formidável "não" pelas ventas! O bruto nega-ma com certeza!.
- Quem sabe lá, homem! Experimenta...
- Pois se o demônio do Aguiar não faz senão desmoralizar-me aos olhos do velho !.
- Pois desmente-o, provando com a tua conduta o contrário do que ele disser. Olha! Queres ver o meio de chegar mais depressa a esse resultado? Procura trabalho. Emprega-te!
- Mas onde?
- Em casa do próprio pai da menina...
- Em casa do comendador? Tem graça.
- Não sei porque...
- Pois eu sirvo lá para o comércio!...
- Procura servir.
- Ele não tomaria a sério o meu pedido.
- Nesse caso a culpa já não seria tua; e o bom cumprimento do teu dever, procurando trabalho, seria já argumento que ficava de pé contra as intrigas do Aguiar.
- Tens razão. Amanhã mesmo vou falar ao velho; talvez consiga alguma coisa...
- Hás de conseguir, pelo menos, provar que desejas ganhar a vida.
Teobaldo ficou pasmado quando, no dia seguinte, às suas primeiras palavras com o pai de Branca, este disse sem o menor constrangimento:
- Ó meu caro senhor, por que não me falou há mais tempo?... Tenho muito prazer em serlhe útil; diga quais são as suas habilitações e pode ser que entremos em algum acordo.
Teobaldo viu-se deveras embaraçado para responder a semelhante pergunta. Ele, coitado, não tinha habilitações; tinha dotes, sentia-se com jeito para tudo em geral, mas imperfeito e inepto para qualquer especialidade.
O comendador foi em auxílio dele, perguntando-lhe se sabia o francês e o inglês.
- Perfeitamente, apressou-se a responder o interrogado. - Falo e escrevo com muita facilidade qualquer dessas línguas.
- Pois então trabalhará na correspondência. Tem boa letra?
- Sofrível; quer ver?
E, tomando a pena que o negociante havia deposto em cima da carteira, escreveu primorosamente sobre uma folha de papel as seguintes palavras:
"Convencido de que a ociosidade é a mãe de todos os vícios e de todos os males, desejo evitá-lo, dedicando-me a um trabalho honesto e proveitoso."
- Muito bem! disse o comendador, olhando por cima dos óculos para o que estava escrito. Pode amanhã mesmo apresentar-se aqui; meu guarda-livros se entenderá com o senhor. - Devo vir a que horas?
- Aí pelas sete da manhã.
Teobaldo correu a contar ao amigo o resultado da sua conferencia com o pai de Branca. - Então? Que te dizia eu?... exclamou Coruja, nadando em júbilo. Vês?! Tudo se pode arranjar por bons meios! Não dou muito tempo para que o comendador morra de amores por ti e esteja disposto a proteger-te mais do que protegeria a um próprio filho! Assim tenhas tu cabeça e saibas te agüentar no emprego!
- Vamos a ver.
– Olha, meu caro, ali tens um futuro, sabes? Talvez não ganhes muito ao princípio, mas pouco a pouco o comendador te aumentará o ordenado e, quando deres por ti, estarás com a tua vida independente e garantida. Então, sim, pede a menina e casa-te, antes disso - é asneira!
XX
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.