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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— Até ali era preciso respeitar a vontade do comendador Ferreira; agora não havia razão para aturá-lo!

O comendador, sabendo do fato, ficou furioso e chamou o rapaz para sua companhia.

— Havemos de arranjá-lo, prometeu ele; mas enquanto não aparecer emprego, ficará ao meu serviço. O senhor terá um ordenado, casa e comida.

Portela mudou-se logo para a casa do comendador. De muito pouco serviço dispunha este para lhe dar a fazer; não passava todo ele das contas de suas propriedades alugadas e uma ou outra carta comercial exigida pelas pendências com a praça. Compreende-se, por conseguinte, que o rapaz tinha folga e grande folga.

Trabalhava no próprio escritório do patrão, ao lado da biblioteca, perto da sala de jantar, onde Teresinha costurava. Às vezes o Portela punha de lado a pena, fechava a sua costaneira e ia dar dois dedos de palestra à patroa. Ela o tratava com muita deferência.

Um dia, seriam duas horas da tarde e o comendador não estava em casa. Teresinha parecia entretida de todo com a sua máquina de costura, e Olímpia passeava na rua do Ouvidor com as amigas.

Fazia muito calor: outubro nunca estivera tão insuportável e tão cheio de moscas.

O ar morno e pesado produzia quebrantes no corpo e convidava a gente a estender-se no chão, sobre a esteira, e deixar-se ficar de olhos fechados em plena preguiça. Quase que se não podia respirar. As cortinas da janela tinham uma imobilidade de pedra.

O comendador morava já em Botafogo, na mesma casa donde mais tarde o arrancou Olímpia para dar com ele na Avenida Estrela e depois no modesto chalezinho da Tijuca. Via-se da sala de jantar a baía defronte reverberar aos raios do sol: o Pão de Açúcar, completamente nu de nuvens, se refletia por inteiro no ardente espelho das águas, e o céu, descoberto e brilhante, parecia feito de porcelana azul!

Teresinha largara o trabalho para resfolegar e refrescar as faces com a palma de sua mão gorda e macia. Portela apareceu à porta do gabinete e fez uma exclamação sobre o calor, despregando com os dedos abertos o seu rico cabelo, preto e anelado, que o suor grudava ao casco da cabeça.

— É! respondeu ela; está horrível!

— Não se pode trabalhar, considerou Portela, soprando afrontado. E foi assentar-se perto de Teresa.

— Então, como passou desde ontem dos seus incômodos nervosos?

perguntou a mulher do comendador, referindo-se a uma conversa da véspera.

— Ah! ainda se lembra disso?... — O senhor queixou-se tanto!...

— Qual! Eram manhas; o meu mal é outro. Não sei se mais difícil ou mais fácil de curar!... E, depois de fazer um gesto de convicção, acrescentou: Nasci para ser casado; não me serve a vida de solteiro...

— Não caia nessa asneira!... aconselhou Teresinha, fazendo-se muito séria.

— Mas asneira, por quê?...

— Ora! É uma desilusão! Eu preferia estar ainda hoje solteira e vivendo como dantes em casa de minha madrasta...

— Todavia a senhora não tem razão de queixa...

Teresinha respondeu dando um grande suspiro.

— Não vive então satisfeita?... perguntou ele, pondo na voz uma extrema doçura.

— Ai, ai! Mudemos antes de conversa...

E passou abruptamente a falar sobre uma bela tartaruga do amazonas, que o comendador, dias antes, recebera de presente.

— Era um bicho esquisito, muito grande, fazia aflição olhar para ele! Uma verdadeira raridade!

Portela mostrou desejo de ver o animal, e os dois desceram à chácara.

Levaram algum tempo à borda do tanque, ao lado um do outro, acompanhando os movimentos preguiçosos do anfíbio. Portela declarou que de cara o achava parecido com o João Figueiredo, e esta rancorosa comparação fez rir à senhora.

— Ali sempre era melhor de estar que lá em cima, considerou depois o rapaz.

— É mais fresco, disse Teresinha, dirigindo-se para uma rua de bambus que costeava a casa e ia dar afinal a um agrupamento de árvores no fundo da chácara. Portela acompanhou-a, oferecendo-lhe o braço. Ela aceitou, e puseram-se ambos a passear muito vagarosamente por entre a rumorosa sombra da alameda.

Ouviam-se estalar as folhas secas debaixo de seus pés. Teresinha não dava uma palavra, toda segura ao braço do rapaz caminhava vergada para ele, como se prestasse atenção a uma conversa de muito interesse. A certa altura pararam; e ela parecia fatigada, a julgar pela dificuldade com que respirava. os dois olhares se encontraram, mas ao mesmo tempo se fugiram, porque cada um compreendeu de relance o que se passava no pensamento do outro.

E tornaram a caminhar, sempre em silêncio, mas desta vez Portela tinha entre as suas uma das mãos de Teresinha. Chegados ao fundo da chácara, sentaram-se juntos debaixo de uma mangueira, sobre um banco que aí havia. A senhora, de olhos baixos, fitava com insistência um ponto no chão, e suspirava de vez em quando, como se um pensamento doloroso a torturasse.

Portela chegou-se mais para ela, passou-lhe meigamente um braço sobre o ombro e perguntou-lhe com muito carinho o que a fazia assim tão triste.

— Não era nada!... segredos de sua pobre vida!... Coisas que não poderiam interessar a ninguém...

(continua...)

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