Por Aluísio Azevedo (1884)
O Liceu, que bom! — Oh! Aí não havia castigos, não havia as pequenas misérias aterradoras da escola!Não poderia faltar às aulas , é certo! mas, em todo o caso, estudaria quando bem entendesse e, lá uma vez por outra, havia de “fazer a sua parede”.
E, só com pensar nisso, só com se lembrar de que já não estava ao alcance das garras do maldito Pires, o coração lhe saltava por dentro, tomado de uma alegria nervosa.
* * *
O Vasconcelos quis festejar o exame do filho, com um jantar oferecido aos senhores examinadores e aos velhos amigos da família.
À noite houve dança. Amâncio convidou os companheiros do ano compareceram somente os pobres, — os que não tinham em casa também a sua festa.
O pai, por instâncias de Ângela, fizera-lhe presente de um relógio com a competente cadeia tudo de ouro. A avó, que se abalara da fazenda pra assistir ao regozijo do seu querido mimalho, trouxera-lhe um moleque , o Sabino.
Amâncio, todo cheio de si, a rever-se na sua corrente e a consultar as horas de vez em quando, foi nesse dia o alvo de mil felicitações, de mil brindes e de mil abraços.
Alguns amigo do pai profetizavam nele uma glória da pátria e diziam que o João Lisboa, o Galvão e outros não tinham tido melhor princípio.
Lembraram-se todas as partidas engraçadas de Amâncio, vieram à baila os repentes felizes que o diabrete tivera até aí. Na cozinha, a mãe preta , a ama, contava às parceiras as travessuras do menino e, com olhos embaciados de ternura, com uma espécie de orgulho amoroso, referia sorrindo os trabalhos que lhe dera ele, as noites que ela desvelara.
— Já em pequeno, diziam — era muito sabido, muito esperto!enganava os mais velhos; tinha lábias, como ninguém, para conseguir as coisas, e sabia empregar mil artimanhas para obter o que desejava! — Não! definitivamente não havia outro!
Ângela, a um canto da varanda, assentada entre as suas visitas, seguia o filho com um olhar temperado de mágoa e doçura.
— O que lhe estaria reservado?...o que o esperaria no futuro?...cismava a boa senhora, meneando tristemente a cabeça — Oh! Às vezes cria-se um filho com tanto amor, com tantas lágrima, para depois vê-lo andar por aí aos trambolhões, nesse mundo de Cristo!...E a idéia de que, talvez, nem sempre o teria perto de si, que nem sempre o poderia obrigar a mudar a camisa, quando estivesse suado; obrigá-lo a tomar o remédio, quando estivesse doente; obrigá-lo a comer, a dormir com regularidade; a evitar, enfim tudo que pudesse-lhe prejudicar a saúde; oh! a idéia de tudo isso lhe ent6rava no coração, como um sopro gelado, e fazia tremer a pobre mãe.
— Ai! ai! disse ela.
— Que suspiros são esses, D. Ângela? perguntou o Dr. Silveira, que estava ao seu lado. Homem íntimo da casa e figura conhecida na política da terra.
— Malucando cá comigo, respondeu a senhora .E como o outro estranhasse a resposta:— Quem tem filho, tem cuidados ,senhor doutor!...
— Oh! Oh! Exclamou este, com um gesto autorizado, abrindo muito a boca e os olhos. — A quem o diz, Sra. D. Ângela, a quem o diz!...Só eu sei o que me custam esses quatro pecados que aí tenho!...
E para provar que dizia a verdade, teria falado nos seus cabelos brancos, se não os pintasse.
— Quando Ângela se afligia daquele modo, sendo rica ;quanto mais ele— pobre jurisconsulto, com pequenos vencimentos e uma família enorme!... — Ah! Os tempos vão muito maus...
Puseram-se logo a falar na ruindade dos tempos. “ Estava tudo pela hora da morte! — Comia-se dinheiro! “
Mas o Silveira voltara-se rapidamente, para dar atenção a Amâncio, que acabava de aproximar-se, em silêncio, com ar presumido de quem tinha consciência de que toda aquela festa lhe pertencia.
— Então, meu estudante! — disse o jurisconsulto, empinando a cabeça — Já escolheu a carreira que deseja seguir?
— Marinha, respondeu Amâncio secamente.
A farda seduzia-o. Nada conhecia “tão bonito” como um oficial de marinha.
A mãe riu-se com aquela resposta, e olhou em torno de si, chamando a atenção dos mais para o desembaraço do filho.
À meia-noite foram todos de novo para a mesa. O Vasconcelos era muito rigoroso quando recebia gente em casa ;queria que houvesse toda a fartura de vinhos e comida. Os brindes reapareceram. Abriram-se as garrafas de Moscato d’Asti, Chateau Yquem e Champagne.
Conversou-se a respeito dos vinhos de Vasconcelos. “O Maranhão era incontestavelmente uma das províncias onde melhor se bebia!” Do meio para o fim da ceia, Amâncio sentiu-se outro.
Em uma ocasião, que o pai se afastara da mesa, ele pediu um brinde e cumprimentou as “pessoas presentes”.
Este fato causou delírios. O próprio pai não se pôde conter e disse entredentes, a rir :
— Ora o rapaz saiu-me vivo!
Ângela abraçou o filho, chorando de comovida.
— Que lhe disse eu?...resmungou delicadamente o Silveira ao ouvido dela — Este menino promete! Dêem-lhe asas e hão de ver ...dêem-lhe asas!...
Amâncio foi coberto de ovações. Batiam-lhe no copo, faziam-lhe saúdes. Ele a todos respondia, rindo e bebendo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.