Por Machado de Assis (1886)
Enquanto eu estava nesse estado inteiramente de rapaz apaixonado, compreende-se facilmente uma fantasia de momento. Então, como viu, fizemos ambos mútuas promessas.
Mas, não há como o mar para dissuadir os homens, ainda os mais apaixonados, de algumas idéias extravagantes que tenham em sua vida.
O mar fez-me bem.
Quando cá cheguei tinha o espírito mais lúcido e o coração mais calmo. Reparei que se lá fico mais tempo destruía dois princípios de minha vida.
O primeiro é o de nunca olhar para baixo; o segundo é o de não sacrificar a minha liberdade a ninguém, de baixo ou de cima.
Este sacrifício era inevitável se eu realizasse o casamento com D. Emília, pessoa a quem, aliás, tributo a maior veneração.
Mal me achei aqui e reconheci esta situação pensei logo em dizer a V. Sa. quais eram as minhas intenções; mas era cedo, e talvez isso produzisse maus resultados no, tocante à sensibilidade de D. Emília.
Por isso escrevi-lhe aquela carta, única que lhe escrevi, e na qual eu lhe dizia mil tolices tendentes a provar que ainda amava a filha de V. Sa.
Depois que recebi uma carta que V. Sa. me contava umas coisas realmente enfadonhas é que eu senti tê-las provocado. Mas, uma vez convertido ao bom senso, fora tolice voltar atrás; calei-me à espera de que passas-se mais tempo.
Hoje creio que já as dores terão passado, e salvo ainda a ocasião para dizer-lhe todos estes meus pensamentos com aquela franqueza própria de um cavalheiro como eu. Não será de falta de franqueza que V. Sa. me acusa.
Portanto, e visto o mais dos autos, instituo a V. Sa. a palavra que me deu de dar-me sua filha por esposa, presente este que eu aceitava com as mãos abertas a não sem os supraditos princípios que eu enunciei e que são e serão sempre a norma de minha vida. Resta-me informar a V. Sa. dos motivos que me trouxeram de lá para cá. Não foi nenhum motivo de missão ministerial, nem coisa que com isso se pareça. Os motivos foram dois: o primeiro, certo pressentimento de que eu estava fom dos eixos tentando casar com D. Emília; o segundo, ir receber a herança daquela célebre tia de quem eu lhe falei algumas vezes e que acabava de morrer.
Ha de convir que não podia tê-los mais poderosos.
Terminarei com um aviso salutar.
Naturalmente ao receber esta carta V. Sa. prorrompe contra mim e vai derramar em uma folha de papel todo o ódio que me votar.
Declaro que será trabalho inútil. E outro princípio meu: não responder a cartas inúteis. Dito isto não o enfado mais. Valentim.
A insolência desta carta produziu em Vicente um efeito doloroso. Não era só a fé de uma moça que fora iludida; era também a dignidade de pai e de ancião que o inconsiderado moço ultrajava, no velho pai de Emília.
Vicente, quando acabou de ler a carta, amarrotou-a com furor e levantou-se da cadeira pálido e trêmulo.
Nesse momento apareceu Emília, e vendo o pai naquele estado de agitação, correu para ele:
— Que tem, meu pai?
— Que tenho? É esta carta...
— Esta carta!?
E Emília procurava ler as folhas amarrotadas que Vicente lhe mostrava sem as largar das mãos.
— Que diz esta carta, meu pai? perguntou Emília levantando os olhos para Vicente. Vicente olhou para ela, atirou a carta para uma gaveta, fechou-a, e foi sentar-se em um sofá.
— Que dizia aquela carta?
— Minha filha... tens coragem?...
— Tenho... mas...
— Escute bem.
Emília ajoelhou-se aos pés de Vicente e com a cabeça nos joelhos deste escutou.
— O que te vou dizer é grave, continuou Vicente; prepara-te. Para que enganar-te mais tempo? Melhor é que te desengane de uma vez. Emília, Valentim não te ama, não volta cá, dispensa-te da fé que lhe juraste.
— Ah!
Foi um grito, um só, mas que parecia saído do fundo do coração e que devia ir ecoar na estância da eterna justiça.
Emília caiu sem sentidos.
Vicente enganara-se.
Uma tranqüilidade mais aparente que real fizera-lhe supor que Emília podia suportar o golpe daquela revelação.
Isto foi o que o animou a falar.
O grito de Emília teve um eco em Vicente. O velho soltou um grito igual quando viu a filha a seus pés sem dar acordo de si.
Ao princípio supô-la morta.
— Minha filha! Morta! Morta!
Prestaram-se a Emília os primeiros cuidados.
O infeliz pai, quando teve conhecimento de que a filha ainda vivia, respirou de alívio. Depois mandou chamar o médico.
O médico veio, e depois de examinar a moça disse que respondia pela vida dela.
— Sr. doutor, disse Vicente ao médico à porta da rua, a morte desta menina é a minha morte. Salve-a!
— Pode ficar descansado, respondeu o médico.
Então começou para Vicente uma vida de dedicação. Como exatamente nas vésperas tivesse recebido o decreto de aposentação, achou-se ele livre da obrigação de freqüentar a secretaria. Podia ser todo para a filha. Dias e noites passou-as ao pé do leito de Emília, consolando-a, animando-a, pedindo-lhe que achasse na própria enormidade do crime de Valentim razão para desprezá-lo. A ciência e os conselhos animadores de Vicente obraram de comum no restabelecimento de Emília. No fim de um mês, a moça estava de pé.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O pai. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.