Por Bernardo Guimarães (1883)
Juro pelo nosso amor, minha Adelaide. Adelaide pareceo convencida e tranquillisada com as palavras do marido, e os dois esposos reconciliados se abraçarão em mutua effusão de ternura. Mas o ciume é como um cancro; quando uma vez se agarra ao coração nunca mais se pôde extirpar completamente ; por mais habil que seja a mão do operador, lá ficão raizes e filamentos imperceptiveis, dos quaes renasce e se alimenta a chaga devoradora. Moraes na persuasão de ter illudido sua mulher e dissipado completamente suas desconfianças, abandonou-se dahi em diante com mais desembaraço ainda ás expansões de sua louca paixão pela formosa escrava, e redobrou de ardis, seducções, promessas e ameaças para rendel-a a seus impudicos desejos.
A' proporção porém de seus esforços, com grande desesperação sua mais recrescia a reluctancia da honesta e innocente menina. Mac o ciume não dorme, tem vista aguda e ouvido delicadíssimo. Adelaide a despeito dos protestos do marido que a tranquiÍlizárão momentaneamente, não deixava dc espiar seus passos com disfarce e fina sagacidade, e á vista do que ia observando, não podia convencer-se de que a affeição, que elle consagrava Rozaura, fosse amor puro e innocente, que procurava apparentar, Receando, porém, quc o ciume lhe estivesse allucinando algum tanto o espirito. fazendo-lhe dar grandes proporções a cousaà insignificantes, decidio-se a interrogar a propria Rozaura sobre esse particular para acabar de uma vez com tão cruciantes incertezas.
Como se póde imaginar, foi um passo beni difficil e penivel para ella entabolar conversaçao a esse respeito com uma escrava, e com uma quasi creança ; mas era forçoso para descobrimento da verdade e socego de seu coração.
— Rozaura, — disse ella um dia á escrava ; os meninos estavão ausentes e Rozaura sentada a seus pés sobre um tapete se occupava em trabalhos de agulha ; — parece que o senhor Moraes te persegue e atormenta com caricias excessivas. Vejo-te ás vezes correr delle assustada, como lebre que foge ao cão. Que te quer elle ? não me dirás, Rozaura
Fazendo estas perguntas Adelaide procurava em vão disfarçar o amargor de suas palavras com certo tom de gracejo.
Não sei, minha senhora ; — respondeo a escrava corando muito e com visivel perturbagão; — elle gosta muito de brincar commigo ; mas eu tenho muido medo e respeito d'elle, e por isso fujo para perto de minha senhora.
— Fazes bem, Rozaura ; mas tudo isso não passará de mero brinquedo . estàs bem certa disso?
— Eu acho que não passa de brinquedo : quer brincar commingo, como brinca com sinhá Estellinha.
— E elle não te diz nada não te declara cousa alguma ? . . .
— Eu mesmo não sei o que elfe diz ; não escuto nada, e vou correndo para longe, por que tenho muito respeito, e. . .
A pobre escravinha queria ainda dizer muita cousa, mas dc embaraçada não sabendo explicar-se, nada mais poudc dizer c parou na reticencia, esperando mais alguma pergunta. Adelaide porém não quiz insistir mais ; uma sinistra desconfiança lhe havia atravessado o espirito ; a boa e simples Rozaura não quiz declarar á sua senhora toda a verdade, porque apezar de sua pouca edade era assisada e discreta, e não queria atear o facho da discordia no seio da familia com suas hesitações, porém com suas respostas timidas e evasivas teve a infelicidade de produzir um effeito mil vezes peor do que aquelle que desejava evitar. Notando as phrases indecisas, a perturbação e enleio de Rozaura, entrou pelo espirito de Adelaide a suspeita de que Rozaura era cumplico na deslealdade de seu marido, ou que pelo menos acceitava sem repugnancia seus affagos, e por isso procurava encobrir-lhe a verdade. Julgou-se duplamente ultrajada em seu pundonor de esposa, e em sua qualidade de senhora, e tomou dahi cm diante tal indisposição contre a pobre escrava, que começou
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.