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#Elegias#Literatura Brasileira

Canto da Solidão

Por Bernardo Guimarães (1865)

Planetas, que em cadências harmoniosa

No éter cristalino ides boiando,

Dizei-me - onde está Deus? - sabeis se existe

Um ente, cuja mão eterna e sábia

Vos esparziu pela extensão do vácuo,

Ou do seio do caos desbrochastes

Por insondável lei do cego acaso?

Conheceis esse rei, que rege e guia

No espaço infindo vosso errante curso?

Eia, dizei-me, em que regiões ignotas

Se eleva o trono seu inacessível?

Mas em vão enterrogo os céus e os astros,

Em vão do espaço a imensidão percorro

Do pensamento as asas fatigando!

Em vão - todo o universo imóvel, mudo,

Sorrir parece de meu vão desejo!

Dúvida - eis a palavra que eu encontro

Escrita em toda a parte - ela na terra,

E no livro dos céus vejo gravada,

É ela que a harmonia das esferas

Entoa sem cessar a meus ouvidos!

Vinde, ó sábios, alâmpadas brilhantes,

Que ardestes sobre as aras da ciência,

Agora desdobrai ante meus olhos

Essas páginas, onde meditando

Em profundo cismar cair deixastes

De vosso gênio as vívidas centelhas:

Dai-me o fio subtil, que me conduza

Pelo vosso intricado labirinto:

Rasgai-me a venda, que me enubla os olhos,

Guiai meus passos, que embrenhar-me quero

Do raciocínio das regiões sombrias,

E surpreender no seio de atrás nuvens

O escondido segredo...

Oh! louco intento!...

Em mil vigílias palejou-me a fronte,

E amorteceu-se o lume de seus olhos

A sondar esse abismo tenebroso,

Vasto e profundo, em que as mil hipóteses,

Os erros mil, os engenhosos sonhos,

Os confusos sistemas se debatem,

Se confundem, se roçam, se abalroam,

Em um caos sem fim turbilhonando:

Atento a lhe escrutar o seio lôbrego

Em vão cansei-me; nesse afã penoso

Uma negra vertigem pouco e pouco

Me enubla a mente, e a deixa desvairada

No escuro abismo flutuando incerta!

................................................................

Filosofia, dom mesquinho e frágil,

Farol enganador de escasso lume,

Tu só geras um pálido crepúsculo,

Onde giram fantasmas nebulosos,

Dúbias visões, que o espírito desvairam

Num caos de intermináveis conjeturas.

Despedaça essas páginas inúteis,

Triste apanágio da fraqueza humana,

Em vez de luz, amontoando sombras

No santuário augusto da verdade.

Um palavra só talvez bastara

Pra saciar de luz meu pensamento;

Essa ninguém a sabe sobre a terra!...

Só tu, meu Deus, só tu dissipar podes

A, que os olhos me cerca, escura treva!

Ó tu, que és pai de amor e de piedade,

Que não negas o orvalho à flor do campo,

Nem o tênue sustento ao vil inseto,

Que de infinda bondade almos tesouros

Com profusão derramas pela terra,

Ó meu Deus, por que negas à minha alma

A luz que é seu alento, e seuu conforto?

Por que exilaste a tua criatura

Longe do sólio teu, cá neste vale

De eterna escuridão? - Acaso o homem,

Que é pura emanação da essência tua,

É que se diz criado à tua imagem,

De adorar-te em ti mesmo não é digno,

De contemplar, gozar tua presença,

De tua glória no esplendor perene?

Oh! meu Deus, por que cinges o teu trono

Da impenetrável sombra do mistério?

Quando da esfera os eixos abalando

Passa no céu entre abrasadas nuvens

Da tempestade o carro fragoroso,

Senhor, é tua cólera tremenda

Que brada no trovão, e chove em raios?

E o íris, essa faixa cambiante,

Que cinge o manto azul do firmamento,

Como um laço que prende aos céus a terra,

É de tua clemência anúncio meigo?

É tua imensa glória que resplende

No disco flamejante, que derrama

Luz e calor por toda a natureza?

Dize, ó Senhor, por que a mão ocultas,

Que a flux esparge tantas maravilhas?

Dize, ó Senhor, que para mim não mudas

As páginas do livro do universo!...

Mas, ai! que o invoco em vão! ele se esconde

Nos abismos de sua eternidade.

...............................................................

Um eco só da profundez do vácuo

Pavoroso retumba, e diz - dúvida!....

Virá a morte com as mãos geladas

Quebrar um dia esse terrível selo,

Que a meus olhos esconde tanto arcanos?

...............................................................

Ó campa! - atra barreira inexorável

Entre a vida e a morte levantada!

Ó campa, que mistérios insondáveis

Em teu escuro seio muda encerras?

És tu acaso o pórtico do Elísio,

Que nos franqueias as regiões sublimes

Que a luz da verdade eterna brilha?

Ou és do nada a fauce tenebrosa,

Onde a morte pra sempre nos arroja

Em um sono sem fim adormecidos!

Oh! quem pudera levantar afouto

Um canto ao menos desse véu tremendo

Que encobre a enternidade...

Mas debalde

Interrogo o sepulcro - e o debruçado

Sobre a voragem tétrica e profunda,

Onde as extintas gerações baqueiam,

Inclino o ouvido, a ver se um eco ao menos

Das margens do infinito me responde!

Mas o silêncio que nas campas reina,

É como o nada - fúnebre e profundo...

...............................................................

Se ao menos eu soubesse que co'a vida

Terminariam tantas incertezas,

Embora os olhos meus além da campa,

Em vez de abrir-se para a luz perene,

Fossem na eterna escuridão do nada

Para sempre apagar-se... - mas quem sabe?

Quem sabe se depois desta existência

Renascerei - pra duvidar ainda?!...

Desalento

Nestes mares sem bonança,

Boiando sem esperança,

Meu baixel em vão se cansa

Por ganhar o amigo porto;

Em sinistro negro véu

Minha estrela se escondeu;

(continua...)

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