Por Machado de Assis (1876)
D. CARLOTA — Adeus; aí vem mamãe.
Cena XIII
Os mesmos, d. Leocádia
D. LEOCÁDIA — Que é isto, doutor? Então o senhor quer só um ano de China? Vieram pedir-me que reduzisse a sua ausência.
CAVALCANTE — D. Carlota lhe dirá o que eu desejo.
D. LEOCÁDIA — O doutor veio saber se mamãe conhece algum cardeal em Roma.
CAVALCANTE — A princípio era um cardeal; agora basta um vigário.
D. CARLOTA — Um vigário? Para quê?
CAVALCANTE — Não posso dizer.
D. LEOCÁDIA, a Carlota — Deixa-nos sós, Carlota; o doutor quer fazer-me uma confidência.
CAVALCANTE — Não, não, ao contrário... D. Carlota pode ficar. O que eu quero dizer é que um vigário basta para casar.
D. LEOCÁDIA — Casar a quem?
CAVALCANTE — Não é já; falta-me ainda a noiva.
D. LEOCÁDIA — Mas quem é que me está falando?
CAVALCANTE — Sou eu, d. Leocádia.
D. LEOCÁDIA — O senhor! O senhor! O senhor!
CAVALCANTE — Eu mesmo. Pedi licença a alguém...
D. LEOCÁDIA — Para casar?
Cena XIV
Os mesmos, Magalhães, d. Adelaide7
MAGALHÃES — Consentiu, titia?
D. LEOCÁDIA — Em reduzir a China a um ano? Mas ele agora quer a vida inteira.
MAGALHÃES — Estás doido?
D. LEOCÁDIA — Sim, a vida inteira, mas é para casar. (d. Carlota fala baixo a d. Adelaide.) Você entende, Magalhães?
CAVALCANTE — Eu, que devia entender, não entendo.
D. ADELAIDE ( que ouviu d. Carlota) — Entendo eu. O dr. Cavalcante contou as suas tristezas a Carlota, e Carlota, meia curada do seu próprio mal, expôs sem querer o que tinha sentido. Entenderam-se e casam-se.
D. LEOCÁDIA, a Carlota — Deveras? (d. Carlota baixa os olhos.) Bem; como é para a saúde dos dois, concedo; são mais duas curas!
MAGALHÃES — Perdão; estas fizeram-se pela receita de um provérbio grego que está aqui neste livro. (Abre o livro.) “Não consultes médico; consulta alguém que tenha estado doente.”
FIM
7 Na primeira edição, este personagem surge erroneamente assinalado como Leocádia.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Não consultes médico. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1876.