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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Entretanto, o assunto de que me ocupo nesta obra é, sem questão, interessante e útil, e somente pode ter sido amesquinhado pela minha inabilidade de escritor.

Essa inabilidade sou o primeiro a confessar; mas devo e quero desculpar-me de dois defeitos principais que além de outros muitos se encontram nos meus passeios.

Creio que alguém já censurou este trabalho, porque o tenho escrito quase sempre em tom brincalhão e às vezes epigramático, e porque misturo em um ou outro ponto a verdade histórica com tradições inaceitáveis, e em alguns casos com ligeiros romances e lendas imaginadas.

Darei a razão do que fiz e porque assim continuarei a fazer.

Há dezenove anos que escrevo e ouço publicar os meus pobres escritos, e até hoje, graças a Deus, ainda não tive a vaidade de tentar escrever para aproveitar aos eruditos e aos sábios. Não me pesa esse pecado na consciência.

Os eruditos e os sábios rir-se-iam de mim.

Até hoje só tenho escrito com a idéia de aproveitar ao povo e àqueles que pouco sabem.

Ora, escrevendo eu também para o povo esta obra, cuja matéria é árida e fatigante, não quis expô-la ao risco de não ser lida pelo povo, que prefere os livros amenos e romanescos às obras graves e profundas.

Que fiz eu? Procurei amenizar a história, escrevendo-a com esse tom brincalhão e às vezes epigramático que, segundo dizem, não lhe assenta bem, mas de que o povo gosta; juntei à história verdadeira os tais ligeiros romances, tradições inaceitáveis e lendas inventadas para falar à imaginação e excitar a curiosidade do povo que lê, e que eu desejo que leia os meus Passeios; mas nem uma só vez deixei de declarar muito positivamente qual o ponto onde a intenção se mistura com a verdade.

Acertei ou errei, procedendo assim?

Decida o público, que é o meu juiz, e qualquer que seja a sua decisão quer me absolva, quer me condene,

..........Fico contente,

Que a minha pátria amei, e a minha gente.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

INTRODUÇÃO

CREIO que não digo uma grande novidade, asseverando que nós os brasileiros conhecemos muito pouco a nossa terra, e que não nos esforçamos bastante por conhecê-la, como aliás é preciso.

Não pensem que me refiro a essas vastas províncias centrais, e ainda mesmo a algumas das que são banhadas pelo Atlântico, e que estão apenas um pouco menos conhecidas do que o Celeste Império.

Deus me livre de lamentar a falta em que nos achamos a respeito delas. Deus me livre!

Tenho bem de memória que em 1859, quando pela primeira vez apareceu a idéia de se mandar uma comissão científica brasileira explorar essas províncias do Império, fez-se disso objeto de escárnio e de sarcasmo, e a pobre comissão, que partiu no ano seguinte da nossa capital, levando consigo quantas pragas e maus agouros puderam lançar sobre ela os homens práticos e sabichões do Estado e do próprio governo, que já não pouco havia despendido para fazê-la encetar os seus trabalhos, ficou em breve tão desestimada que até às vezes achou-se sem recursos para prosseguir nas explorações; e por fim de contas, foi obrigada a parar em meio da obra, porque era inevitável que se apagasse a lâmpada, quando não lhe puseram mais azeite.

Dizem, e eu creio, que a nossa comissão científica, ao tempo em que suspenderam a subvenção, já se achava quase a ponto de desorganizar-se por si mesma, e sustentam que os seus trabalhos não corresponderam às despesas feitas; parece-me, porém, que em tal caso o mais acertado seria procurar remover os embaraços que a amesquinhavam, dar-lhe mais seguras condições de harmonia e de vigor, e fazê-la continuar em zeloso labor, mesmo porque as mais avultadas despesas estavam feitas, e a verdadeira economia aconselhava aproveitar o dinheiro empregado e a experiência do noviciado dos exploradores.

Mas entendeu-se que isso de comissão científica era peta, e acabou-se a história.

Devemos contentar-nos com as comissões dessa natureza que têm sido e hão de ser mandadas ao Brasil por nações estrangeiras; nós não temos a menor necessidade de conhecer a nossa própria casa: basta que os estranhos nos ensinem o que ela é e o que temos dentro dela.

(continua...)

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