Por Martins Pena (1845)
JÚLIO – Não, minha senhora.
CLARA – E esta? Há uma hora que sumiu-se lá de dentro e não aparece. (Durante este diálogo, vê-se, pela janela da casinha, João muito aflito.)
JÚLIO – Sem dúvida está dando algumas ordens lá por fora.
CLARA – Ordens a estas horas? Deixar as visitas na sala, e desaparecer!
JÚLIO – Não se inquiete, minha senhora.
CLARA – Tenho muita razão de me inquietar. Velho como é, não pára. Ah, Sr. João? Sô João?
JÚLIO, à parte – Em que talas não se vê ele! Está em meu poder. (Júlio diz estas palavras enquanto Clara chama pelo marido; volta para sair pelo fundo, e em meio da cena encontra-se com Luís. Júlio, para Luís:) Ainda teima?
LUÍS – Ainda.
JÚLIO – Veremos.
LUÍS – Veremos. (Júlio sai pelo fundo.)
CENA XIII
Luís e Clara.
LUÍS – Ó tiazinha!
CLARA – Quem é?
LUÍS – Tiazinha, tenho um favor que pedir-lhe...
CLARA – Viste teu tio?
LUÍS – Não senhora. É um favor pelo qual lhe ficarei eternamente agradecido. Sei que a ocasião não é das mais oportunas. Este passo parece imprudente...
CLARA – Que parece não; que é.
LUÍS – Por quê, tia?
CLARA – É falta de atenção.
LUÍS – Oh, a tia decerto está zombando. Se ainda não sabe...
CLARA – Sei, sei que ele está metido por aí, em algum lugar suspeito.
LUÍS – Como suspeito? De quem fala?
CLARA – De teu tio.
LUÍS – Ora, não é dele que eu falo.
CLARA – Pois então vai-te embora.
LUÍS – Escute, tia. A minha bela priminha...
CLARA – Aonde estará?
LUÍS – Lá dentro na alcova.
CLARA – Lá dentro na alcova? E o que está fazendo?
LUÍS – Conversando com suas amigas.
CLARA – Com suas amigas? Pois também tem amigas? Bravo!
LUÍS – Oh, que linguagem é esta! Pois não foi a tia quem as convidou?
CLARA – Fui sim, mas não sabia que as convidava para desinquietarem um homem casado.
LUÍS – Um homem casado?
CLARA – Um pai de família que se devia fazer respeitar pela sua idade.
LUÍS – Ai, que eu continuo a falar da prima, e ela do tio.
CLARA – Vou botá-los pela porta a fora.
LUÍS – Espere, tia, há engano entre nós. A tia fala do tio, e eu...
CLARA – E tenho muita razão de falar.
LUÍS – Não digo menos disso. O que eu pretendia dizer-lhe era...
CLARA – Já sei o que é. Quer desculpá-lo! Não vê que também é homem? Lá se entendem.
LUÍS – Continuamos no mesmo. Tia, atenda-me somente por alguns instantes, e depois eu lhe ajudarei a procurar o tio.
CLARA – Pois fala depressa.
LUÍS – Todos conhecem-me por namorador. Uns dizem que isto em mim é sistema, outros, que é devido ao meu gênio folgazão e alegre. Seja o que for, estou resolvido a acabar com todos esses namoros e casar-me. A resolução é extrema e de botar a perder um homem, mas a sorte está lançada.
CLARA, preocupada – Eu hei-de indagar isto.
LUÍS – Pode indagar. Falo de boa fé. E em quem poderia recair a minha escolha, senão na minha bela priminha?
CLARA – Não posso consentir.
LUÍS – Não? E por que motivo?
CLARA – Na sua idade?
LUÍS – Perdoe-me a tia; está em muito boa idade.
CLARA – Boa idade! Sessenta e cinco anos!
LUÍS – Adeus, tia, que não estou mais para jogar os disparates. (Vai para esquerda da cena e Clara vai para sair pelo fundo.)
CLARA, caminhando – Ah, Sr. João? Sr. João? Eu hei-de dar com ele! (Vai-se pelo fundo.)
CENA XIV
Luís só.
LUÍS – Quando os ciúmes metem-se na cabeça de uma mulher é isto. E se é velha como esta... Mau agouro para mim. Ora. Sr. Luís, é então verdade que o senhor está resolvido a casar-se? Já se não lembra do que dizia do casamento e dos grandes inconvenientes que lhe achava? Quer deixar a sua bela vida de namorador? O que é isto? Que resolução foi a sua? Que dirá a Ritinha, a Joaninha, a viuvinha, a Joaquinhinha, a Emília, a Henriqueta, a Cocota, a Quitinha, a Lulu, a Leopoldina, a Deolinda e as outras namoradas? Responde, Sr. Luís. Os diabos me levem se eu sei responder. (Assenta-se no banco de relva. Ouve-se dentro de casa a voz de Júlio, que canta uma modinha, acompanhado por piano. [N.B.:] A modinha fica a escolha do autor. Logo que a tiver acabado de cantar, dão palmas. Tudo isto, porém, não interromperá a continuação das cenas.) Lá está cantando modinhas! Se estivesse como eu, não havia de ter vontade de cantar. Então? O caso não me tem feito impressão. (Aqui aparece no fundo, caminhando para a frente da cena, Clementina.) Ainda não sei o que farei. Creio que mesmo depois dos pregões corridos sou capaz de mandar tudo à tabua. Mas o meu capricho? Estou arranjado!
CENA XV
Clementina e Luís.
CLEMENTINA, sem ver Luís – Estou com curiosidade de ver como estará o ovo... (Vai para ver o copo e Luís levanta-se.)
LUÍS – Priminha?
CLEMENTINA – Ai!
LUÍS – Não se assuste.
CLEMENTINA – Não gosto destes brinquedos. Que susto! Eu vinha ver o ovo.
LUÍS – Encontraste com um amante; é o mesmo. O amante é como o ovo, que muitas vezes gora.
CLEMENTINA – Fala de si? (Rindo-se.)
LUÍS – Antigamente assim fui, mas agora, priminha da minha alma, estou mudado. A noite de S. João fez um milagre. Ai, ai! (Suspira ruidosamente.)
CLEMENTINA – Bravo! Por quem é esse suspiro tão puxado?
LUÍS, caindo de joelhos – Por ti, minha priminha.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)PENA, Martins. O Namorador ou a Noite de São João. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1992 . Acesso em: 29 jan. 2026.