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#Comédias#Literatura Brasileira

O Judas em sábado de aleluia

Por Martins Pena (1844)

Capitão — É o diabo! É preciso cautela. Vamos á casa do sargento. que lá temos que conversar. Uma demissão me faria desarranjo. Vamos. Pimenta — Sim senhor, Sr. Capitão. (Saem)

CENA IX

Faustino. só. Logo que os dous saem, Faustino os vai espreitar à porta por onde saíram, e adianta-se um pouco.

Faustino — Ah, com que o senhor Capitão assusta-se, porque podem saber que mais de metade dos guardas da companhia pagam para a música!... E quer mandarme para os Provisórios! Com que escreve cartas, desinquietando a uma filha-família, e quer atrapalhar-me com serviço? Muito bem! Cá tomarei nota. E o que direi da menina? É de se tirar o barrete! Está doutorada! Anda a dous carrinhos! Obrigado! Acha que eu tenho pernas de enchova morta, e olhos de arco de pipa? Ah, quem soubera! Mas ainda é tempo; tu me pagarás, e... Ouço pisadas... A postos! (Toma o seu lugar)

CENA X

Chiquinha e Faustino.

Chiquinha (entra e senta-se é costura) — Deixe-me ver se posso acabar este vestido para vesti-lo amanhã, que é Domingo de Páscoa. (Cose) Eu é que sou a vadia, como meu pai disse. Tudo anda assim. Ai, ai! (Suspirando) Há gente bem feliz; alcançam tudo quanto desejam e dizem tudo quanto pensam: só eu nada alcanço e nada digo. Em quem estará ele pensando! Na mana, sem dúvida. Ah,

Faustino, Faustino, se tu soubesses!...

Faustino (à parte) — Fala em mim! (Aproxima-se de Chiquinha pé ante pé)

Chiquinha — A mana, que não sente por ti o que eu sinto, tem coragem para te falar e enganar, enquanto eu, que tanto te amo, não ouso levantar os olhos para ti. Assim vai o mundo! Nunca terei valor para fazer-lhe a confissão deste amor, que me faz tão desgraçada; nunca, que morreria de vergonha! Ele nem em mim pensa. Casar-me com ele seria a maior das felicidades. (Faustino, que durante o tempo que Chiquinha fala vem aproximando-se e ouvindo com prazer quanto ela diz, cai a seus pés)

Faustino — Anjo do céu! (Chiquinha dá um grito, assustada, levanta-se rapidamente para fugir e Faustino a retém pelo vestido) Espera!

Chiquinha, gritando — Ai, quem me acode?

Faustino — Não te assustes, é o teu amante, o teu noivo... o ditoso Faustino!

Chiquinha (force ando para fugir) — Deixe-me!

Faustino (tirando o chapéu) — Não me conheces? É o teu Faustino!

Chiquinha (reconhecendo-o) — Sr. Faustino!

Faustino (sempre de joelhos) — Ele mesmo, encantadora criatura! Ele mesmo, que tudo ouviu.

Chiquinha (escondendo o rosto nas mãos) — Meu Deus!

Faustino — Não te envergonhes. (Levanta-se) E não te admires de ver-me tão ridiculamente vestido para um amante adorado.

Chiquinha — Deixe-me ir para dentro.

Faustino — Oh. não! Ouvir-me-ás primeiro. Por causa de tua irmã eu estava escondido nestes trajas: mas prouve a Deus que eles me servissem para descobrir a sua perfídia e ouvir a tua ingênua confissão, tanto mais preciosa, quanto inesperada.

Eu te amo, eu te amo!

Chiquinha — A mana pode ouvi-lo!

Faustino — A mana! Que venha ouvir-me! Quero dizer-lhe nas bochechas o que penso. Se eu tivesse adivinhado em ti tanta candura e amor, não teria passado por tantos dissabores e desgostos, e não teria visto com meus próprios olhos a maior das patifarias! Tua mana e... Enfim, eu cá sei o que ela é, e basta. Deixemo-la, falemos só no nosso amor! Não olhes para minhas botas... Tuas palavras acenderam em meu peito uma paixão vulcânico-piramidal e delirante. Há um momento que nasceu, mas já está grande como o universo. Conquistaste-me! Terás o pago de tanto amor! Não duvides; amanhã virei pedir-te a teu pai.

Chiquinha (involuntariamente) — Será possível?!

Faustino — Mais que possível, possibilíssimo!

Chiquinha — Oh! está me enganando... E o seu amor por Maricota?

Faustino (declamando) — Maricota trouxe o inferno para minha alma, se é que não levou minha alma para o inferno! O meu amor por ela foi-se, voou, extinguiu-se como um foguete de lágrimas!

Chiquinha — Seria crueldade se zombasse de mim! De mim, que ocultava a todos o meu segredo.

Faustino — Zombar de ti! Seria mais fácil zombar do meu ministro! Mas, silêncio, que parece-me que sobem as escadas.

Chiquinha, assustada — Será meu pai?

Faustino — Nada digas do que ouviste: é preciso que ninguém saiba que eu estou aqui incógnito. Do segredo depende a nossa dita.

Pimenta (dentro) — Diga-lhe que não pode ser.

Faustino — É teu pai!

Chiquinha — É meu pai!

Ambos — Adeus (Chiquinha entra correndo e Faustino põe o chapéu na cabeça, e toma o seu lugar)

CENA XI

Pimenta e depois Antônio Domingos.

Pimenta — é boa! Querem todos ser dispensados das paradas! Agora é que o sargento anda passeando. Lá ficou o capitão à espera. Ficou espantado com o que eu lhe disse a respeito da música. Tem razão, que se souberem, podem-lhe dar com a demissão pelas ventas. (Aqui batem palmas dentro) Quem é?

Antônio (dentro) — Um seu criado. Dá licença?

Pimenta — Entre quem é. (Entra Antônio Domingos) Ah, é o Sr. Antônio Domingos!

Seja bem aparecido; como vai isso?

Antônio — A seu dispor.

(continua...)

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