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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

EDUARDO - Não se agonie, minha mãe, eu mandarei fazer uma pequena divisão no quintal. Deste lado Carlotinha terá o seu jardim; do outro V.Mce. mandará preparar a sua horta. D. MARIA - Estimo muito, meu filho! É por vocês que eu tomo este trabalho.

EDUARDO - E nós não o sabemos? Todo o nosso amor não paga esses pequenos cuidados, essas atenções delicadas de uma mãe que só vive para seus filhos.

D. MARIA - O único amor que não pede recompensa, Eduardo, é o amor de mãe; mas se eu a. desejasse, que melhor podia ter do que o orgulho de ver-te em uma bonita posição, admirado pelos teus amigos e estimado mesmo pelos que não te conhecem?

CARLOTINHA - Não o deite a perder, mamãe; depois fica todo cheio de si!

EDUARDO - Por ter uma irmã como tu, não é?

CARLOTINHA - Não se trata de mim.

D. MARIA - Vocês ficam? A tarde está bastante fresca!

EDUARDO - Já vamos, minha mãe.

CENA II

EDUARDO, CARLOTINHA

CARLOTINHA - Ora, enfim! Podemos conversar, mano!

EDUARDO - Sim! Estou ansioso por saber o que ela te disse! Com que fim veio ver-te! Naturalmente foi para dar-me mais uma prova de indiferença, participando-te o seu casamento!

CARLOTINHA - Foi para vê-lo uma última vez! Ah! você não se lembra, então, do que se passou! Fala de indiferença? É ela que se queixa da sua frieza, do seu desdém!

EDUARDO - Ela queixa-se... E de mim!... Estava zombando?

CARLOTINHA - Zomba-se com as lágrimas nos olhos e com a voz cortada pelos soluços?

EDUARDO - Que dizes? Ela chorava!...

CARLOTINHA - Sobre o meu seio; e eu não sabia como a consolasse.

EDUARDO - Não compreendo!

CARLOTINHA - Por quê?

EDUARDO - Eu te direi depois. Conta-me o que ela te disse.

CARLOTINHA - Foi tanta coisa!... Sim; disse-me que todos os dias lhe via da casa dela, de manhã e à tarde, na janela do seu quarto.

EDUARDO - É verdade.

CARLOTINHA - Mas que uma tarde, vindo aqui, mano não lhe deu uma palavra.

EDUARDO - E a razão disto não declarou?

CARLOTINHA - Ela ignora!

EDUARDO - Como!

CARLOTINHA - Procurou recordar-se das suas menores ações para ver se poderia ter dado causa à sua mudança; e não achou nada que devesse servir nem mesmo de pretexto.

EDUARDO - Com efeito! o fingimento chega a esse ponto!!

CARLOTINHA - É injusto, mano; aquele amor não se finge. Quando ela me recitou os versos que você lhe mandou...

EDUARDO - Eu... versos?

CARLOTINHA - Sim; uns versos em que a chamava de namoradeira, em que a ridicularizava.

EDUARDO - Mas não há tal, nunca lhe mandei versos!

CARLOTINHA - Ela os recebeu de Pedro; eu os vi, escritos por sua letra.

EDUARDO - Não é possível!

CARLOTINHA - Há nisto algum engano. Deixe-me acabar, depois verá.

EDUARDO - Eu te escuto.

CARLOTINHA - Os seus versos... 

EDUARDO - Meus, não.

CARLOTINHA - Pois bem, os versos causaram-lhe uma dor mortal; conheceu que o mano escarnecia dela, e desde então passava as noites a chorar, e o dia a olhar entre as cortinas para ao menos ter o consolo de avistá-lo de longe e de relance. Mas você conservava fechada a única janela na qual ela podia vê-lo.

EDUARDO - Não sabes por quê? Um dia mandou-me dizer por Pedro que a minha curiosidade a incomodava. Desde então privei-me do prazer de olhá-la...

CARLOTINHA - É inexplicável!... Mas como lhe dizia, passaram-se dois meses; ela perdeu a esperança; seu pai tratou de casá-la. Desde que não podia lhe pertencer, pouco lhe importava o homem a quem a destinavam. Consentiu em tudo, mas antes de dar a sua promessa definitiva, quis vê-lo pela última vez.

EDUARDO - Para quê?

CARLOTINHA - Para quê?... O noivo foi hoje jantar em sua casa; aí às três horas devia decidirse tudo... Pois bem, antes de dizer sim, ela veio e jurou-me, por sua mãe, que se encontrasse mano em casa, se mano a olhasse docemente, sem aquele olhar severo de outrora...

EDUARDO - Que faria?

CARLOTINHA - Não se casaria e viveria com essa única esperança de que um dia mano compreenderia o seu amor!

EDUARDO - Assim, como não me encontrou...

CARLOTINHA - Como você hão quis vê-la...

EDUARDO - Eu não quis?... É verdade!

CARLOTINHA - Quando o chamei, ela nos esperava toda trêmula.

EDUARDO - Podia eu saber? Podia conceber semelhante cousa à vista do que se passou!

(Refletindo.) Não; não acredito.

CARLOTINHA - O quê?

EDUARDO - Que Pedro tenha maquinado semelhante coisa.

CARLOTINHA - E eu acredito.

EDUARDO - Vou saber disto! Porém, dize-me! Depois?

CARLOTINHA - Você saiu. Eu esperei muito tempo no seu quarto para ver se voltava. Tardou tanto, que por fim vi-me obrigada a desenganá-la.

EDUARDO - Então, ela voltou...

CARLOTINHA - Com o coração partido...

EDUARDO - E foi dar esse consentimento, que seu pai esperava. A esta hora é noiva de um homem que faz dela um objeto de especulação. (Passeia.)

CENA III

Os mesmos, PEDRO

PEDRO - Sinhá velha está chamando nhanhã Carlotinha lá na sala.

CARLOTINHA - Para quê?

PEDRO - Para ver moleque de realejo que está passando. (A meia voz) Mentira só!

CARLOTINHA - O quê?

PEDRO - Boneco de realejo que está dançando!

CARLOTINHA - Ora, não estou para isso.

PEDRO - Umm!... menina está reinando. Nhanhá não vai?

(continua...)

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