Por José de Alencar (1857)
Jorge às vezes esforçava-se por sorrir; mas esse sorriso não iludia sua noiva, cujo olhar inquieto se fitava no seu semblante.
Entretanto a alegria de D. Maria era tão expansiva; o velho militar contava anedotas tão desengraçadas e tão chilras, que todos eram obrigados a rir e a se mostrar satisfeitos.
Jorge, mesmo à força de vontade, conseguiu dar ao seu rosto uma expressão alegre, que desvaneceu em parte a inquietação de Carolina.
Contudo havia nessa reunião uma pessoa a quem o moço não podia esconder o que se passava na sua alma, e que lia, no seu rosto como um livro aberto.
Era o senhor Almeida, que às vezes se tornava pensativo como se combinasse alguma idéia que começava, a esclarecer-lhe o espírito; sabia que a sua presença era naquele momento uma tortura para Jorge, mas não se resolvia a retirar-se.
Deram dez horas, termo sacramental das visitas de família ; passar além, só é permitido aos amigos íntimos; é verdade que os namorados, os maçantes e os jogadores de voltarete costumam usurpar este direito.
Todas as pessoas levantaram-se, pois, e dispuseram-se a retirar-se. O negociante, tomando Jorge pelo braço, afastou-se um pouco.
— Estimei, disse ele, que a nossa conversa de ontem não influísse sobre a sua resolução.
O moço estremeceu.
— Era uma coisa a que estava obrigada a minha honra, mas...
O senhor Almeida esperou a palavra, que não caiu dos lábios de Jorge. O moço tinha empalidecido.
— Mas?... insistiu ele.
— Queria dizer que não sou tão culpado como o senhor pensa; talvez breve tenha a prova.
O negociante sorriu.
— Boa noite, senhor Jorge.
O moço cumprimentou-o friamente.
As outras visitas tinham saído e D. Maria, sorrindo à sua filha, retirou-se com ela.
CAPÍTULO VII
Eram onze horas da noite.
Toda a casa estava em silêncio.
Algumas luzes esclareciam ainda uma das salas interiores, que fazia parte do aposento que D. Maria destinara a seus dois filhos.
Jorge, em pé no meio desta sala, de braços cruzados, fitava um olhar de profunda angústia em uma porta envidraçada através da qual se viam suavemente esclarecidas as alvas sanefas da cortina.
Era a porta do quarto de sua noiva.
Duas ou três vezes dera um passo para dirigir-se àquela porta e hesitara; temia profanar o santuário da virgindade; julgava-se indigno de penetrar naquele templo sagrado de um amor puro e casto.
Finalmente tentou um esforço supremo; revestiu-se de toda a sua coragem e atravessou a sala com um passo firme, mas lento e surdo.
A porta estava apenas cerrada; tocando-a com a sua mão trêmula, o moço abriu uma fresta e correu o olhar pelo aposento.
Era um elegante gabinete forrado com um lindo papel de cor azul-celeste, tapeçado de lã de cores mortas; das janelas pendiam alvas bambinelas de cassa, suspensas às lanças douradas.
A mobília era tão simples e tão elegante como o aposento: dois consolos de mármore, uma conversadeira, algumas cadeiras e o leito nupcial, que se envolvia nas longas e alvas cortinas, como uma virgem no seu véu de castidade.
Era, pois, um ninho de amor este gabinete, em que o bom gosto, a elegância e a singeleza tinham imprimido um cunho de graça e distinção que bem revelava que a mão do artista fora dirigida pela inspiração de uma mulher.
Carolina estava sentada a um canto da conversadeira, a alguns passos do leito, no vão das duas janelas; tinha a cabeça descansada sobre o recosto e os olhos fitos na porta da sala.
A menina trajava apenas um alvo roupão de cambraia atacado por alamares feitos de laços de fita cor de palha; o talhe do vestido, abrindo-se desde a cintura, deixava-se entrever o seio delicado, mal encoberto por um ligeiro véu de renda finíssima.
A indolente posição que tomara fazia sobressair toda a graça do seu corpo e desenhava as voluptuosas ondulações dessas formas encantadoras, cuja mimosa carnação percebia-se sob a transparência da cambraia.
Seus longos cabelos castanhos de reflexos dourados, presos negligentemente, deixavam cair alguns anéis que se espreguiçavam languidamente sobre o colo aveludado, como se sentissem o êxtase desse contato lascivo.
Descansava sobre uma almofada de veludo a ponta de um pezinho delicado, que rocegando a orla do seu roupão, deixava admirar a curva graciosa que se perdia na sombra.
Um sorriso, ou antes um enlevo, frisava os lábios entreabertos; os olhos fixos na porta vendavam-se às vezes com os seus longos cílios de seda, que, cerrando-se, davam uma expressão ainda mais lânguida ao seu rosto.
Foi em um desses momentos que Jorge entreabriu a porta e olhou: nunca vira a sua noiva tão bela, tão cheia de encanto e de sedução.
E entretanto ele, seu marido, seu amante, que ela esperava, ele, que tinha a felicidade ali, junto de si, sorriu amargamente como se lhe houvessem enterrado um punhal no coração.
Abriu a porta e entrou.
A moça teve um leve sobressalto; e, dando com os olhos no seu amante, ergueu-se um pouco sobre a conversadeira, tanto quanto bastou para tomar-lhe as mãos e engolfar-se nos seus olhares.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. A Viuvinha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16674 . Acesso em: 09 jan. 2026.