Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
BRAZ – Inviolável e sagrada: vive abençoando com ambas as mãos a odalisca, e tem um primo, doutor em medicina, que receita ao velho marido passeios freqüentes e distrações fora de casa.
VIOLANTE – Que língua envenenada!
CENA III
VIOLANTE, BRAZ, CLEMÊNCIA e AUGUSTO
CLEMÊNCIA – A titia já viu o peixe boi?
VIOLANTE – Ainda não: vens apresentar-mo?
CLEMÊNCIA – O sr. Braz pode encarregar-se disso: agora vou ao terraço ver o mar.
AUGUSTO – O mar?... é a imagem da inconstância: não se espelhe no mar. (Vão-
se.)
CENA IV
VIOLANTE e BRAZ
VIOLANTE – E por fim de contas Casimiro como abandona assim a filha?...
BRAZ – Casimiro não abandona, confia a filha; ele tem mais que fazer, e nós também; reparou que Clemência trazia na mão um ramalhetinho de violetas?
VIOLANTE – Reparei...
BRAZ – Pois agora é o dr. Augusto que o traz ao peito.
VIOLANTE – É escandaloso! de dia tão claro!... no meu tempo não era assim.
BRAZ – Já sei: no seu tempo era de noite que se davam os ramalhetes; mas daqui a pouco darei ao dr. Augusto informações da madrinha; creio que logo depois um passeio pelo braço desse cavalheiro lhe fará bem, e... se a madrinha não for peca, o ramalhetinho de violetas será seu.
VIOLANTE – Isso tenta... Braz, penso que começas a desmoralizar-me.
BRAZ – Será uma vitória digna dos seus óculos e da sua touca.
VIOLANTE – Do meu dinheiro, queres dizer.
BRAZ – A palavra tem o seu pudor, disse Lamartine; eu respeito as conveniências. (Vendo passar uma moça.) Olá! temos revolução no jardim! aí vai a Acrobata.
VIOLANTE – Que é a Acrobata?
BRAZ – Uma das vinte desmentidoras da moléstia da época; uma das vinte pestes que dão público testemunho da saúde perfeita da situação econômica. Brada-se por toda parte: “não há dinheiro!” oh! se há! e sobra tanto que as mãos cheias se atira no lenteiro.
VIOLANTE – Como é isso?
BRAZ – Como esta mais dezenove no galarim; carros com parelhas magníficas, cada dia novo e riquíssimo vestido, pérolas, brilhantes, cinqüenta contos por ano multiplicados por vinte mil contos dados ao culto do vício torpe, afora as ceias e orgias, afora a milenária escala da lubricidade, que vai descendo até a ralé da infâmia. E não há dinheiro! mentira; prova da mentira: a Acrobata pela vigésima parte.
VIOLANTE – Então... essa desgraçada criatura...
BRAZ – Delírio de solteiros e casados, de rapazes e de velhos; a Acrobata é o tipo da unidade, porque bebe, come, sonha, deseja e exige sempre uma coisa única – dinheiro; dá caridade, porque ama sem exceção e com perfeita indiferença a todos que lhe dão – dinheiro. A Acrobata é um prodígio; madrinha, subamos à varanda, acompanhemos a Acrobata.
CENA V
VIOLANTE, BRAZ, LEOPOLDO e TIMÓTEO
TIMÓTEO (A Leopoldo) – O peixe boi saiu do lago para conversar com o Braz de Souza.
LEOPOLDO (A Timóteo) – Com efeito, é a velha mais horrível que tenho visto; é uma coruja monumental promovida pelo demônio a velha criatura humana. BRAZ – Preclaríssimos amigos! (Cumprimentam-se.) TIMÓTEO – Sr. Braz! minha senhora!
LEOPOLDO – Minha senhora! (A Braz) Como passou de ontem? adivinha-se... perfeitamente ditoso.
BRAZ (Apresentando) – A sra. dª. Violante, irmã do nosso amigo Casimiro. TIMÓTEO – Oh! minha senhora... tenho muita honra... (Fala a Violante.) LEOPOLDO (A Braz) – Mas... é um dragão de feia!
BRAZ (A Leopoldo) – Não me desanimes... estou apaixonado-me; onde a vês, é solteira ainda, e herdou há quatro meses de um tio e padrinho a insignificância de quinhentos contos de réis.
LEOPOLDO (A Braz) – Um! meio milhão! (Olhando) reparando-se bem, não é tão feia, como à primeira vista me pareceu; os óculos e a touca dão-lhe até certa graça...
VIOLANTE – Vamos, Braz. (Cumprimenta aos dois.)
BRAZ (Aos dois) – Até logo. (Indo-se com Violante.) Já deixei um iscado.
VIOLANTE (A Braz) – Quem?
BRAZ (A Violante) – O de pince-nez: é dos três designados por Clemência. (
Vai-se com Violante.)
CENA VI
TIMÓTEO e LEOPOLDO
TIMÓTEO – Ainda não vi a tua bela Clemência; mas a horrorosa tia nos garante o feliz encontro; a tia é a noite que precede a aurora.
LEOPOLDO – A noite... eu gosto da frescura da noite... porém a aurora não tarda a aparecer, e é bela como os amores...
TIMÓTEO – E leviana, inconstante, como as borboletas; olha, há mais namorados de Clemência do que candidatos ao trono de Espanha. Eu não me casava com ela.
LEOPOLDO – Nem eu; quem pensa em casamento! com uns cinqüenta contos de réis de dote seria ouro sobre azul; mas pobre, como é, afigura-se-me um banco de emissão sem fundo de reserva metálico.
TIMÓTEO – E neste maldito tempo, em que andam todos à bolina, furtando o vento.
LEOPOLDO – É verdade, não há casa sólida; a minha começou, que era a quem mais caía com o mel! mas a estagnação do comércio! os sustos e as concentrações do Banco do Brasil, que dantes consolava a gente! a casa ainda vai bem, vai muito bem; mas se eu ajeitasse uma noiva que me enchesse os olhos com o dote, eim?
TIMÓTEO – Para que então perdes o teu tempo com Clemência?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Romance de uma Velha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2160 . Acesso em: 6 jan. 2026.