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#Ensaios#Literatura Brasileira

À Margem da História

Por Euclides da Cunha (1909)

Vai-se de um a outro século na inaturável mesmice de renitentes tentativas abortadas. As impressões dos mais lúcidos observadores não se alteram, perpetuamente desenfluídas pelo espetáculo de um presente lastimável contraposto à ilusão de um passado grandioso.

Tenreiro Aranha em 1852, ao erigir-se a província do Amazonas, assumiu a sua direção, e numa resenha retrospectiva diz-nos do extraordinário progresso que se perdera, referindo-se a "manufaturas primorosas", a uma indústria extinta em que "o algodão, o anil, a mandioca e o café tiveram cultura tal que dava para o consumo sobrando para a exportação; e assim as fábricas de anil, as cordoarias de piassaba, de fiação, tecidos e redes de algodão, de palhinha ou de penas; as telhas e alvenaria; as de construção civil e naval, com hábeis artistas, fazendo aparecer templos, palácios, ou possantes embarcações..."

Recua-se, porém, exatamente um século, a buscar o período decantado - e num grande desapontamento observa-se, à luz do relatório feito em 1752 por outro insigne governador, o Capitão-General Furtado de Mendonça, que a "capitania estava reduzida à última ruína..." Assim se desconchavam os pareceres, agitando idênticos desânimos. Ou então se harmonizavam de modo impressionador no firmarem a mesma decadência das gentes singulares. Em 1762 o Bispo do GrãoPará, aquele extraordinário Fr. João de S. José — seráfico voltaireano que tinha no estilo os lampejos da pena de Antônio Vieira — depois de resenhar os homens e as coisas, "assentando que a raiz dos vícios da terra é a preguiça", resumiu os traços característicos dos habitantes, deste modo desalentador: — "lascívia, bebedice e furto." Passam-se cem anos justos. Procura-se saber se tudo aquilo melhorou; abrem-se as páginas austeras de Russel Wallace, e vê-se que alguma vez elas parecem traduzir, ao pé da letra, os dizeres do arguto beneditino, porque a sociedade indisciplinada passa diante das vistas surpreendidas do sábio — drinking, gambling and lying — bebendo, dançando, zombando - na mesma dolorosíssima inconsciência da vida...

Assim, essa indiferença pecaminosa dos atributos superiores, esse sistemático renunciar de escrúpulos e esse coração leve para o erro, são seculares; e surgem de um doloroso tirocínio histórico, que vem da "Casa do Paricá" à "barraca" dos seringueiros. Compulsai os nossos velhos cronistas, com especialidade o imaginoso Padre João Daniel, e avaliareis o travamento de motivos físicos e morais que há muito, ali, entibiam os caracteres. E lede Tenreiro Aranha, José Veríssimo, dezenas de outros. Nestes livros se espalham, fracionadas, todas as cenas de um dos maiores dramas da impiedade na História.

Depois há o incoercível da fatalidade física. Aquela natureza soberana e brutal, em pleno expandir das suas energias, é uma adversária do homem. No perpétuo banho de vapor, de que nos fala Bates, compreende-se sem dúvida a vida vegetativa sem riscos e folgada, mas não a delicada vibração do espírito na dinâmica das idéias, nem a tensão superior da vontade nos atos que se alheiem dos impulsos meramente egoísticos. Não exagero. Um médico italiano — belíssimo talento — o Dr. Luigi Buscalione, que por ali andou há pouco tempo, caracterizou as duas primeiras fases da influência climatérica - sobre o forasteiro — a princípio sob a forma de uma superexcitação das funções psíquicas e sensuais, acompanhada, depois, de um lento enfraquecer-se de todas as faculdades, a começar pelas mais nobres...

Mas neste apelar para o clássico conceito da influência climática esqueceulhe, como a tantos outros, influxo porventura secundário, mas apreciável, da própria inconstância da base física onde se agita a sociedade.

A volubilidade do rio contagia o homem. No Amazonas, em geral, sucede isto: o observador errante que lhe percorre a bacia em busca de variados aspectos, sente, ao cabo de centenares de milhas, a impressão de circular num itinerário fechado, onde se lhe deparam as mesmas praias ou barreiras ou ilhas, e as mesmas florestas e igapós estirando-se a perder de vista pelos horizontes vazios; — o observador imóvel que lhe estacione às margens, sobressalteia-se,

intermitentemente, diante de transfigurações inopinadas. Os cenários, invariáveis no espaço, transmudam-se no tempo. Diante do homem errante, a natureza é estável; e aos olhos do homem sedentário que planeie submetê-la à estabilidade das culturas, aparece espantosamente revolta e volúvel, surpreendendo-o, assaltando-o por vezes, quase sempre afugentando-o e espavorindo-o.

A adaptação exercita-se pelo nomadismo.

Daí, em grande parte, a paralisia completa das gentes que ali vagam, há três séculos, numa agitação tumultuária e estéril.

Como quer que seja, para a Amazônia de agora devera restaurar-se integralmente, na definição da sua psicologia coletiva, o mesmo doloroso apotegma — ultra equinotialem non peccavi — que Barlaeus engenhou para os desmandos da época colonial.

(continua...)

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