Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Um ambicioso

Por Machado de Assis (1877)

Os homens honestos, amigos do talento e reconhecidos aos verdadeiros serviços, têm um candidato certo, que sairá eleito, porque felizmente goza da mais vasta popularidade na paróquia: o sr. José Cândido. Às urnas! às urnas!

Um que não falta

VI

Chegou o dia; José Cândido não dormiu a noite antecedente; deixou a cama com a aurora. Preparou-se; atou ao pescoço a gravata mais amarela de sua coleção e foi animar as fileiras. Pelos seus cálculos tinha quinhentos votos certos; a estes deviam acrescer uns duzentos votos de simpatia, ou pessoal ou produzida pelas mofinas dos jornais. Vários amigos ainda lhe filaram alguns mil-réis, que ele entregou em dobro, para fortalecer as opiniões. As horas corriam, ele esperava ansioso o momento fatal.

E, coisa curiosa! não esperavam com menos ânsia o pai e a namorada. A idéia de o ver triunfante, sem que eles dessem por isso, já lhes fazia cócegas no coração. O sr. Mateus amaldiçoara o filho, mas não se lhe daria de abençoar o eleitor. Quanto a Emília, havia um pouco de vaidade e um pouco de interesse; o interesse era a reconciliação possível da família.

José Cândido foi ao barbeiro, que o recebeu um pouco melancólico. O capitão arranjara no bairro um rival de José Cândido, e mandara-o contraminar o trabalho deste, não por medo de que a candidatura vencesse, mas para não perder alguns votos, que dariam mais forças à vitória da chapa. Ora, esse agente secreto estivera nessa manhã na loja do barbeiro, e abrira-lhe os olhos de tal modo, que o barbeiro estava aterrado, não com a idéia da derrota, mas com a do ridículo. Não foi difícil a José Cândido restabelecer o fervor do barbeiro cujo espírito viera a este mundo, destinado a mover-se a todos os ventos do horizonte.

— Tem razão, disse ele; você tem razão. São tricas!

— Ora, você ainda vai com cantigas! O que eles querem é justamente assustar e desanimar a gente. Nada de fugir de caretas.

— Apoiado!

— Vamos à igreja!

— Vamos!

Fechou-se a loja; os dois oficiais tiveram sueto para ir votar. Alguns fregueses, dando com a porta fechada, praguejaram contra a indolência do Fígaro eleitoral; mas não lucraram nada com isto. A porta não se abriu.

A luta foi longa, renhida, desesperada. José Cândido pôs em ação todas as molas de seu gênio cabalista; ia, vinha, andava, parava, chapéu na mão ou na cabeça, bolso cheio de cédulas, dando-as a um, trocando a de outro, enchendo as algibeiras dos votantes. A cada instante dava o sinal dos rolos; apoiava um e outro partido, quando se tratava de denunciar um fósforo e impedi-lo de votar. Nem nesse dia nem no seguinte comeu coisa que pudesse razoavelmente alimentá-lo. Todo ele era agitação, esperança, ambição, sonho. As vinte pessoas que o rodeavam freqüentemente, por uma dessas ilusões do desejo, afiguravam-se-lhe todo o corpo dos votantes; e dizendo-lhe elas que ele tinha uma maioria formidável, ele cria e sorria.

Nas primeiras horas o barbeiro esteve mole e pacato; mas o ardor de José Cândido comunicou-se-lhe; a esperança fez o resto.

— Que tal irá a coisa? perguntava-lhe às vezes José Cândido.

— Soberba! dizia invariavelmente o barbeiro. Vai como se quer!

Enfim, a agitação cessou; começou a apuração dos votos.

— Vamos ver quem tem garrafas vazias, dizia José Cândido na véspera da apuração. Não obstante essa convicção do triunfo, José Cândido tremia às vezes; olhava um pouco desconfiado para a urna, em cujo ventre estava a glória ou a ignomínia. Se em vez de triunfo... Essa idéia negra era felizmente breve; a esperança cobria-o de suas folhas verdes; ele repousava tranqüilo sobre os futuros louros.

Não menos satisfeito andava o barbeiro; e José Cândido nutria esse fogo mais inocente que sagrado. Contudo, ele não contava com a vitória do barbeiro, em outras razões, porque lhe cortara muitos votos. Alguns aceitavam o nome de José Cândido, cabalista conhecido, mas duvidavam das opiniões do outro ou das suas aptidões eleitorais. José Cândido insistia frouxamente; e quando via o seu nome em perigo lançava ao mar o nome do aliado. Ora, o aliado, que nada disso viu nem suspeitou, nadava em júbilo e sentia em si um coro de gratidão pela notoriedade que José Cândido ia dar-lhe. Não cessava de lhe apertar as mãos, de dizer que ele era um homem superior.

— Não é verdade? acudia José Cândido ouvindo nas palavras do outro o eco de seus próprios pensamentos.

A aurora, com seus dedos de rosa, abriu as portas do céu ao sol do grande dia; mas parece que o sol, adivinhando alguma coisa do que se ia passar, não quis alumiar os sucessos desse dia e velou nobremente o rosto. Velou o rosto, enquanto o juiz de paz e mesários iam tomar seus lugares no templo, à roda da mesa, onde estava a urna que continha em seu bojo os destinos de uma existência.

(continua...)

12345678
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →