Por Machado de Assis (1994)
D. FRA. Vou, vou. Pensava comigo uma cousa. (D. MANUEL vai a ela) Pensava que é preciso querer muito àqueles dois, para nos esquecermos assim de nós.
D. MAN. É verdade. E não há mais nobre motivo da nossa mútua indiferença. Indiferença, não; não o é, nem o podia ser nunca. No meio de toda essa angústia que nos cerca, poderia eu esquecer a minha doce Aragão? Podereis vós esquecer-me? Ide agora; nós que somos felizes, temos o dever de consolar os desgraçados.
(D. FRANCISCA sai pela esquerda).
CENA XIV
D. MANUEL DE PORTUGAL, logo D. ANTÔNIO DE LIMA
D. MAN. Se perco o confidente dos meus amores, da minha mocidade, o meu companheiro de longas horas... Não é impossível.— El-rei concederá o que lhe pedir D.
Antônio. A culpa, — força é confessá-lo — a culpa é dele, do meu Camões, do meu impetuoso poeta; um coração sem freio... (Abre-se o reposteiro, aparece D. ANTÔNIO.) D. Antônio!
D. ANT. (da porta, jubiloso). Interrogastes-me há pouco; agora hei tempo de vos responder.
D. MAN. Talvez não seja preciso.
D. ANT. (adianta-se). Adivinhais então?
D. MAN. Pode ser que sim.
D. ANT. Creio que adivinhais.
D. MAN. Sua Alteza concedeu-vos o desterro de Camões.
D. ANT Esse é o nome da pena; a realidade é que Sua Alteza restituiu a honra a um vassalo, e a paz a um ancião.
D. MAN. Senhor D. Antônio...
D. ANT. Nem mais uma palavra, Senhor D. Manuel de Portugal, nem mais uma palavra. — Mancebo sois; é natural que vos ponhais do lado do amor; eu sou velho, e a velhice ama o respeito. Até à vista, Senhor D. Manuel, e não turveis o meu contentamento. (Dá um passo para sair).
D MAN. Se matais vossa filha?
D ANT. Não a matarei. Amores fáceis de curar são esses que aí brotam no meio de galanteios e versos. Versos curam tudo. Só não curam a honra os versos; mas para a honra dá Deus um rei austero, e um pai inflexível... Até à vista, Senhor D. Manuel. (Sai pela esquerda ) .
CENA XV
D. MANUEI DE PORTUGAL, CAMÕES
D. MAN. Perdido... está tudo perdido. (CAMÕES entra pelo fundo) Meu pobre Luís! Se soubesses...
CAMÕES Que há?
D. MAN. El-rei... El-rei atendeu às súplicas do Senhor D. Antônio. Está tudo perdido.
CAMÕES E que pena me cabe?
D. MAN. Desterra-vos da corte.
CAMÕES Desterrado! Mas eu vou ter com Sua Alteza, eu direi...
D. MAN. (aquietando-o). Não direis nada; não tendes mais que cumprir a real ordem, deixai que os vossos amigos façam alguma cousa; talvez logrem abrandar o rigor da pena. Vós não fareis mais do que agravá-la.
CAMÕES Desterrado! E para onde?
D. MAN. Não sei. Desterrado da corte é o que é certo. Vede... não há mais demorar no paço. Saiamos.
CAMÕES Aí me vou eu, pois, caminho do desterro, e não sei se da miséria! Venceu então o Caminha? Talvez os versos dele fiquem assim melhores. Se nos vai dar uma nova Eneida o Caminha? Pode ser, tudo pode ser... Desterrado da corte? Cá me ficam os melhores dias, e as mais fundas saudades. Crede, Senhor D. Manuel, podeis crer que as mais fundas saudades cá me ficam.
D. MAN. Tornareis, tornareis...
CAMÕES E ela? Já o saberá ela?
D. MAN Cuido que o Senhor D. Antônio foi dizer-lho em pessoa. Deus! Aí vêm eles.
CENA XVI
OS MESMOS, D. ANTÔNIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATAIDE
(D. ANTÔNIO aparece à porta da esquerda, trazendo
D. CATARINA pela mão. D. CATARINA (vem profundamete abatida).
. CAT. (à parte vendo CAMÕES). Ele! Dai-me forças, meu Deus!
(D. ANTÔNIO corteja os dois esegue na direção do fundo.
CAMÕES dá um passo para falhar-lhe mas
D. MANUEL contém-no,
D. CATARINA, prestes a sair, volve a cabeça para trás).
CENA XVII
D. MANUEL DE PORTUGAL, CAMÕES
CAMÕES Ela aí vai... talvez para sempre... Credes que para sempre?
D. MAN. Não. Saiamos!
CAMÕES Vamos lá; deixemos estas salas que tão funestas me foram. (Indo ao fundo e olhando para dentro) Ela aí vai, a minha estrela, aí vai a resvalar no abismo, donde não sei se a levantarei mais... Nem eu... (voltando-se para D. MANUEL) nem vós, meu amigo, nem vós que me quereis tanto, ninguém.
D. MAN. Desanimais depressa, Luís. Por que ninguém?
CAMOES Não saberia dizer-vos; mas sinto-o aqui no coração. Essa clara luz, essa doce madrugada da minha vida, apagou-se agora mesmo e de uma vez.
D. MAN. Confiai em mim, nos meus amigos, nos vossos amigos. Irei ter com eles; induzi los-ei a...
CAMÕES A quê? A mortificarem um camareiro-mor, a fim de servir um triste escudeiro,
que já estará caminho de África?
D. MAN. Ides à África?
CAMÕÉS Pode ser; sinto umas tonteiras africanas. Pois que me fecham a porta dos amores, abrirei eu mesmo as da guerra. Irei lá pelejar, ou não sei se morrer... África, disse eu? Pode ser que Ásia também, ou Ásia só; o que me der na imaginação.
D. MAN. Saiamos.
CAMÕES E agora, adeus, infiéis paredes; sede ao menos compassivas; guardai-ma, guardai-ma bem, a minha formosa D. Catarina! (A D. Manuel) Credes que tenho vontade de chorar?
D. MAN. Saiamos, Luís!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Tu só, tu, puro amor. In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 2.