Por Machado de Assis (1860)
Fernanda parecia até mais bonita do que antes; a razão era que a felicidade lhe dava à beleza um ar que a tristeza lhe tirou. Ernesto pela sua parte mostrava-se igualmente terno e solícito com a moça. Nenhum deles confessara o namoro; mas nenhum deles buscava escondê-lo dos olhos estranhos.
— Vê bem o que perdeste! dizia o desembargador ao filho um dia em que estava de mau humor. Como aquela, raras mulheres se encontram!
Luís abaixou a cabeça, sem proferir palavra, mas com um ar que, bem examinado, era antes de mortificação que de prazer. A vitória do amigo, tão de longe preparada, começava a picar-lhe o amor-próprio. Via os louvores e as invejas de que era objeto o amigo, e apesar de ter contribuído para isso mesmo, começava a irritar se contra o vencedor e contra todos.
Esta impressão foi crescendo com o tempo. A transformação da prima contribuía ainda mais para lhe arredar o espírito. Estava longe de ver nela a mosca morta, como lhe chamava antigamente. Intenção de casar não tinha decerto, ou ainda lhe não chegara; apesar disso magoava-o a atenção que ela prestava a outro. Enquanto Fernanda lhe queria unicamente a ele, não se dava por achado o bacharel; bastou que ela se voltasse a outro para que lhe nascesse o ciúme.
Ciúme é o termo; ciúme filho do amor-próprio, e mais tarde filho do amor sem apelido nenhum. Luís começou a sentir que o menor gesto da moça o perturbava, e que de cada vez que ela e Ernesto conversavam sozinhos era o mesmo que se lhe metessem um alfinete no coração.
Ao mesmo tempo começou ele próprio a fugir de Ernesto; e isto mesmo lhe deu azo a mortificação maior, porque entrou a reparar que também Ernesto o não procurava tão amiudadamente.
Dar-se-á caso que?... perguntou Luís Fonseca a si mesmo, sem ousar concluir a pergunta que naturalmente a leitora já completou.
Redobrou de atenção; tomou-se caseiro mais que nunca. Espiava por assim dizer as ações da prima; sempre que podia os ia interromper, e então observava no rosto de ambos a impressão que lhes causava. Mais de uma vez se convenceu de que a impressão não podia ser pior. Vingava-se não se desviando mais durante a noite inteira.
Luís não pôde enfim encobrir de si próprio que amava a prima, tanto quanto a desprezara outrora. Esta triste convicção foi um golpe ainda maior que o da entrevista com que esta narrativa começou. Eu afinal de contas sou um asno, dizia consigo Luís Fonseca. Teci a corda que me há de enforcar. Que diabo me mandou confiar as minhas penas a um estranho? Saiu-me um peralta, um pérfido. Enganou
me. Estou roubado. Mas se eu mesmo fui chamar o ladrão!
Luís Fonseca dizia isto entremeado de muitos repelões em si mesmo, até que caía em si, e se lembrava de que Ernesto pouca ou nenhuma culpa tivera naquilo, que era puramente obra dele.
Ia além o bacharel.
— Quem sabe se me não engano? Ernesto foi sempre bom amigo. Talvez aquilo ainda seja necessário para livrar-me do casamento. É o que há de ser.
Esta idéia o levou a ir ter com o amigo. Achou-o a ler uma cartinha, que escondeu logo. Luís franziu a testa.
— Carta dela? perguntou ele.
— Não, respondeu Ernesto depois de alguma hesitação.
— De outra?
— De ninguém.
Luís mordeu o bigode mas conteve-se.
Seguiram-se cinco minutos de silêncio.
— Ernesto, disse enfim o bacharel, venho pedir-te uma explicação e um conselho.
— Caso grave? perguntou Ernesto sorrindo.
— Talvez.
Ernesto ofereceu-lhe um charuto, que o outro não aceitou. Novo silêncio que o bacharel foi ainda o primeiro a interromper.
— Começo pelo conselho, disse ele. Sabes que o tempo deu os seus frutos. Aquele furor que me causou a resolução de meu pai passou completamente. Encaro hoje o casamento com outra cara. Acho-me disposto a aceitá-lo como uma doce necessidade do coração. Que te parece?
— Que me há de parecer? disse Ernesto levantando os ombros.
— É verdade que as tuas idéias são opostas a esta; assim me disseste quando eu aqui vim há cinco meses pedir-te conselho. Em todo o caso, apesar de seres o que eu fui, sempre te considerei com mais juízo do que eu. Desejava portanto saber se faço bem em obedecer a meu pai.
— Sem dúvida.
— Devo então aceitar o casamento com ambas as mãos?
— Uma vez que te não repugna, é um dever.
Luís teve um movimento de alegria, que logo reprimiu. Ernesto começou a brincar com a corrente do relógio, com o ar de um homem que se não acha em posição demasiado cômoda. Houve um pequeno silêncio. Luís continuou:
— Agora a explicação. Em que estado pára...
Hesitou.
— O quê? disse Ernesto.
— Poupa-me dizer mais; creio que me entendeste.
Ernesto levantou-se, deu alguns passos na sala, e parou enfim defronte de Luís Fonseca. Olhou-o a fito durante alguns rápidos segundos, e enfim lhe disse:
— Luís, fizemos um dia uma coisa feia e perigosa; feia porque não era bonito ir perturbar o espírito de uma moça, com o único fim de zombar dela e comprar com isso alguns dias de vida dissoluta...
— Perdão...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Quem boa cama faz... A Marmota, Rio de Janeiro, 1860.