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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Quanto a jornalistas e poetas, conhecia-os quase todos; um por um, desde o redator-chefe do Comércio do Rio ("O Times brasileiro", na opinião de Furtado), até o Valdevino Manhães, diretor da Revista Literária e autor de muitos livros, de muitíssimas obras, entre as quais o poema herói-cômico Juca Pirão, paródia ao "I-

Juca-Pirama", de Gonçalves Dias.

Evaristo já os conhecia também — de longe uns, outros mais familiarmente. O Valdevino Manhães, ou o "Dr. Condicional", estava no número destes; fora-lhe apresentado uma noite, no jardim do Teatro Sant'Ana. Baixo, pequenino, metidinho a critico, um bigodinho quase imperceptível, sempre de lunetas — era conhecido por Dr. Condicional, porque nunca dizia as coisas em tom afirmativo: tinha sempre um mas..., um talvez..., um se..., quando criticava obras alheias. Ninguém para ele era escritor feito, nem mesmo os consagrados: todos haviam de ser grandes poetas, grandes romancistas, grandes homens..., se continuassem a estudar. Outra mania de Valdevino Manhães era falar na sua viagem à Europa. — Oh, em Lisboa merecera os maiores elogios, as mais belas referências de quanto jornalista sabe terçar a pena (terçar a pena era uma de suas frases prediletas). O poeta João de

Deus...

E ninguém o interrompia, ninguém dizia palavra enquanto ele comentava João de Deus e o Chiado.

O novo escriturário do Banco Industrial não confiava muito no Valdevino. — "Se todos os literatos do Rio de Janeiro fossem como o autor do Juca Pirão, a literatura brasileira tinha de pedir licença à Câmara para andar de quatro pés" — dizia ele a Furtado.

E Furtado, surpreendido:

— Pois olha: é o critico da moda hoje, no Rio de Janeiro.

— Prefiro o visconde de Santa Quitéria ou mesmo o comendador Pinto, que ao menos têm juízo para ganhar dinheiro...

Foram andando.

Uma tarde conversavam os dois sobre a vida na Corte, sentados à janela, quando o hóspede do secretário lembrou-lhe que era tempo de procurar casa e de instalar-se definitivamente com Adelaide: — uma casinha barata, um cômodo, qualquer aposento, inda que fosse nos "subterrâneos da Cidade Nova".

— Qual instalar-te! Daqui não sairás enquanto formos amigos — respondeu Furtado. — Minha mulher gostou muito de D. Adelaide — vivem muito bem, dão-se perfeitamente... Podemos chegar a um acordo nas despesas...

— Não, isso não! Vocês têm sido muito incomodados... isso não!

— História, homem! Incomodados têm sido vocês naquele quartinho... Mas a Branca falou-me que os do segundo andar estão procurando casa... Uma bela aquisição para vocês o segundo andar.

Evaristo levou o dedo à boca, refletindo, e apertando os lábios:

— É... assim bem...

— Pois então? Esperem um pouco mais... não há vexame... D. Branca aproximou-se, com o braço na cintura de Adelaide.

— Ó Branca - disse Furtado —, não é exato que os estrangeiros de cima vão se mudar?

— É sim. Andam em procura de casa. Por quê?

— O Evaristo, que lembrou-se agora de bater a linda plumagem, inda que fosse, diz ele — para os subterrâneos da Cidade Nova!

— Qual, Sr. Evaristo, qual! Adelaide está muito bem. A Cidade Nova é um lugar infecto, um horror! Esperem pelo segundo andar.

— E o aluguel? — perguntou, interessado, o rapaz.

— Oitenta mil-réis, filho! oitenta mil-réis... não é dinheiro.

— Não é dinheiro, para os capitalistas...

— Oitenta mil-réis, nunca foi dinheiro.

— Eu, por mim, não me mudava... — ousou discretamente Adelaide.

Evaristo arregalou os olhos:

— Oh! então já vais gostando do Rio!

— Não desgosto...

— O Sr. Evaristo quer conversar — disse, rindo, a esposa de Furtado. — Vamos a tocar um pouquinho de piano...

A tarde estava calma. Crianças brincavam na rua, enchendo-a de alvoroço, em toilettes de verão. O desembargador Lousada passeava no jardim, com o seu indefectível gorro de seda bordado a retrós, enquanto a mulher e a filha, sentadas à porta, abanavam-se de leque. Dezembro morria numa explosão de sol. A família imperial estava toda em Petrópolis, gozando as delícias de um clima pregoadamente aristocrático, os que não podiam sustentar o luxo de Petrópolis, a vida fidalga de Petrópolis, os hotéis de Petrópolis, corriam para o ar livre da rua, em trajos brancos, ou para a janela das casas, num alvoroço de formigueiro incendiado.

À parte o clima, na estação outonal, a vida em Botafogo tinha qualquer coisa da vida em Petrópolis, era como um prolongamento do high-life, cuja sede firmara-se na antiga colônia alemã. Falar na Cidade Nova a um morador de Botafogo, era o mesmo que cair no ridículo e no desprezo de uma sociedade que não admitia plebeismos sentimentais, nem alusões de mau gosto... Cidade Nova, isto é Saco do Alferes, Gamboa, preto-mina, lenço no pescoço, violão, maxixe... e outras belezas de igual jaez. Tudo isso era contra as boas normas de um povo civilizado e muito principalmente contra os brios de um homem que vive na mesma atmosfera de Sua Majestade o Imperador! Botafogo odiava a Cidade Nova como quem repugna um meio asqueroso.

(continua...)

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