Por Adolfo Caminha (1893)
Decididamente era tempo de arrumar também “os seus cacos” e — adeus Campo Alegre, adeus carnaubais rumorejantes, adeus igrejinha branca! Ir-se-ia fazer pela vida em qualquer parte, em Fortaleza, onde felizmente contava amigos políticos, correligionários dedicados que certamente lhe não recusariam uma acha de lenha, um pouco de água fresca, um punhado de farinha... Demais era homem, graças a Deus, forte como novilho, tinha sangue nas veias — trabalharia!
Ao mesmo tempo lembrava-se da “sua velha”, da Eulália, que andava adoentada, com umas pontadas no coração, muito fraca e cuja natureza talvez não resistisse às fadigas duma viagem longa; pensava em Maria do Carmo, sua filha querida, a menina de seus olhos, tão nova ainda, e punha-se a meditar nos horrores da seca, nas febres de mau caráter, na quase absoluta falta de água, com um desalento a aniquilar-lhe as forças, a dobrar-lhe a altivez de forte. Depois tornava ao mesmo rio de idéias: não, aquele inferno do sertão, com um raio de tempo medonho seria talvez pior, seria a sua desgraça. De si para si media, calculava, meticulosamente, toda a gravidade da situação a que chegara. Não havia outro recurso, outro jeito senão marchar para a capital, para onde quer que fosse, como tantos outros infelizes empolgados pela miséria. Iria, que remédio? bater à porta de um amigo, de um correligionário, de um cristão. Lembrou-se então do “compadre João da Mata”, padrinho de Maria.
Muito bem: iria ao compadre.
Arribaram de manhã, muito cedo, ao romper da alva. Os cavalos, magros e ruins, romperam num trote miúdo. Ao passarem defronte da igrejinha do povoado, um pobre nicho todo fechado, com as suas janelinhas por pintar, solitário como uma coisa inútil, D. Eulália ciciou uma oração, e os outros, Mendonça e Casimiro, descobriram-se com respeito.
Havia oito anos que isto fora...
Enfiaram por uma estrada de areia que se prolongava indefinidamente, torcendo e retorcendo-se em ziguezagues, ocultando-se aqui para brilhar lá adiante, por cima da floresta imóvel, como uma enorme serpente amarela dormindo ao sol... As pisadas dos animais abafavam-se na areia, e a pequena caravana sumia-se na distância...
Ao cabo de doze longos dias em que paravam para repousar à sombra de alguma árvore que ainda verdejava ou nalguma palhoça abandonada, avistaram o campanário branco e alegre do Coração de Jesus, direito e esguio como o minarete de um templo muçulmano, destacando-se na meia sombra crepuscular, esbatido pela irradiação do sol que tombava glorioso ao fundo da tarde pardacenta.
Morria no ar calmo o dobre melancólico de um sino...
Flutuava um cheiro vago de coisas podres. Para as bandas do Pajeú ardiam restos de fogueiras a extinguirem-se.
Uma tarde infinitamente calma, essa...
Havia oito anos que isto fora, mas nos seus momentos de desânimo, Maria do Carmo punha-se a relembrar toda essa tragédia de sua infância. Olhava para o passado com a alma cheia de saudade, recordando, tintim por tintim, como se estivesse lendo num livro, ninharias, minudências de sua vida naqueles tempos em que ela, pobre e matutinha, via tudo cor-de-rosa através do prisma límpido e imaculado de sua meninice. Transportava-se, num vôo da imaginação, a Campo Alegre, e via-se, como por um óculos de ver ao longe, ao lado da mamãe, costurando quieta ou soletrando a Cartilha, ou na novena do Senhor do Bonfim, muito limpa, com o seu vestidinho de chita que lhe dera o Sr. vigário. Lembrava-se do papai quando voltava do roçado, de camisa e ceroula, chapéu de palha de carnaúba, tostado, trigueiro do sol, contando histórias de onças e maracajás...
Recapitulava, mentalmente, com uma precisão cronológica, toda a sua vida e ficava horas e horas em cisma, a pensar, a pensar como se tivesse perdido o juízo...
Nas Irmãs de Caridade é que lhe sobrava tempo para isso. Vinham-lhe à mente os episódios da viagem: uma grande cobra cascavel que o papai matara ao pé duma árvore, à faca; as dificuldades que encontraram no caminho; um ceguinho que cantava na estrada sem ter o que comer...
Nunca mais lhe saíra da cabeça um retirante que ela vira estendido no meio do caminho, sobre o areal quente, ao meio-dia em ponto, morto, e completamente nu, com os olhos já comidos pelos urubus, os intestinos fora, devorados pelas varejeiras... Que feio aquilo!
Não era má, de resto, a sua vida agora, em casa dos padrinhos, não era, mas se fosse possível tornar a ser criança, renascer e viver outra vez em Campo Alegre... No dia seguinte ao da chegada à capital, D. Eulália morrera duma síncope cardíaca.
Maria lembrava-se muito bem; a mamãe fora para o cemitério na padiola da Santa Casa de Misericórdia, toda de preto... Parecia vê-la ainda, com os olhos fundos, entreabertos, mãos cruzadas sobre o peito, dentro do esquife...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.