Por Inglês de Sousa (1891)
— O Sr. Aníbal Americano Selvagem Brasileiro, professor régio, inteligente e sério.
Era um mulato, de óculos de tartaruga.
— O Sr. Joaquim da Costa e Silva, que tem uma boa loja à rua do Porto, e faz o comércio de regatão, mais por divertimento do que por necessidade. É bom católico e fornece noticias ao Diário do Grão-Pará.
— O Sr. Antônio Regalado, o Sr. Francisco Ferreira, uma chusma, de que se destacava um sujeito de cara redonda. Dele Macário dissera em voz alta: — O Sr. Pedro Guimarães, eleitor.
E depois acrescentara com voz baixa, curvando-se para o padre, familiarmente:
— Chamam-lhe o Mapa-Múndi, mas é boa pessoa.
Tivera de sorrir a toda aquela gente, de apertar-lhe a mão oferecendo os nenhuns préstimos dum humilde criado. Os silvenses diziam:
— Não há de quê...
E sérios, empertigados, mal a cômodo na sobrecasaca, atrapalhados com o chapéu, balbuciavam palavras de respeito, num acanhamento roceiro, cumprindo um dever penoso, olhando desconfiados para todos os lados, vexados das vistas curiosas e zombeteiras dos passageiros do vapor.
Felizmente o desembarque se fizera sem demora, e apenas em terra, o primeiro cuidado de padre Antônio fora dirigir-se à Matriz, a fazer oração. O povo, em grande concurso, desertando o porto, o acompanhara por entre o tanger dos sinos e o estourar dos rojões. Macário, o capitão Fonseca, o Neves Barriga e outras pessoas gradas, ajoelhando as calças de ganga amarela sobre os tijolos da igreja, oraram com ele, pedindo a Misericórdia divina para o bom desempenho da sua missão nesta terra desconhecida.
Quando se erguera, confortado e sereno, as pessoas principais o acompanharam na visita à igreja, cercando-o, admirando-o, pasmando de o ver tão novo, e seguindo-lhe curiosamente todos os movimentos. Macário, parecendo muito contente, guiava, explicava, dava pormenores, com o boliviano na mão e a sobrecasaca direita, caindo-lhe sobre as curvas dos joelhos em grandes dobras duras. E mostrava as imagens, uma a uma, os quadros parietais, representando cenas da vida dos santos, os pequenos retábulos toscos e feios, o velho confessionário atirado a um canto, o coro, os sinos, tudo. Padre Antônio examinara a igreja com atenção, manifestando o seu parecer em voz baixa e comedida, para não chocar melindres.
Era um templo muito modesto, de telha vã todo construído de pau-a-pique, barrado de tabatinga. O teto carcomido abrigava inúmeras cabas e morcegos, e os cupins daninhos iam devorando lentamente o madeiramento da cobertura, mais gasto pelo abandono da que pelo decurso do tempo. As paredes estavam cobertas de parasitas, e pelas falhas da verdura apareciam, como grandes chagas, os buracos feitos pela queda do reboco, mostrando a argamassa ordinária. Uma escada de pau, carcomida e trêmula, levava ao campanário, onde se escondiam envergonhados os pequenos sinos, denunciados ao povo pela voz de bronze bem fundido.
Visto de perto, não tinha a edifício a ar nobre e protetor que lhe achara padre Antônio, mirando-o da amurada do vapor. Tinha, pelo contrário, um aspecto miserável de ruína, como se a fé que o levantara do chão houvesse ali esgotado o seu último esforço.
Indignado, não podendo vencer uma ligeira alteração na voz, denunciando o desapontamento que semelhante miséria lhe causara, dissera, para o Macário que era uma vergonha uma igreja assim, e que, se Deus Nosso Senhor lhe desse vida e saúde, melhoraria aquela falta de decência, incompatível com o fim sublime a que se destinava aquela casa.
O coletor, respeitosamente, defendeu os habitantes de Silves da censura, à primeira vista justa, que as palavras de S. Rev.ma envolviam.
Ninguém era culpado dessa lástima senão o defunto vigário, um padre muito boa coisa, mas que nenhum caso fazia da igreja, nem do culto divino. O tempo não lhe chegava para dançar e tocar violão à beira dos lagos, onde passava a maior parte do ano, deixando a freguesia sem missa e sem socorros espirituais. Aí estava o Sr. Macário, sabedor de bem boas passagens! Padre José fora uma espécie padre João da Mata, o famoso vigário de Maués, que acabava de morrer nos sertões de Guaranatuba, à beira do furo da Sapucaia, onde passara a maior parte da vida a pescar tucunarés na companhia duma soberba mameluca, que os regatões diziam um portento de formosura.
Ao menos padre João da Mata contentava-se com uma, embora por ela esquecesse os deveres do seu cargo e o mundo inteiro, mas padre José! isso era um sultão! Em matéria de dinheiro, era um deus-nos-acuda! Já uma vez a Assembléia Provincial, a pedido dele capitão Fonseca, votara uma verba para os consertos da Matriz, uma boa quantia, um conto e quinhentos mil-réis, mas que acontecera? Padre José fora nomeado presidente da comissão de obras, recebera o cobre num passeio que dera a Manaus, e o comera com as caboclas da outra banda!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.