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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

Uma vez, estando ela a banhar-se, depois de cheio o grande pote, na cacimba aberta no leito de areia do rio, em sítio distante dos caminhos e aguadas mais freqüentadas, surpreendeu-a Teresinha, a rapariga branca e alourada, bemparecida de cara e bem-feita de corpo, que era flexível como um junco, de sóbrias carnações e contornos graciosos.

Estava ainda longe o dia. As barras apenas despontavam no levante em pálido clarão e alguns farrapos de nuvens rubescentes. Exposta à bafagem da madrugada, Luzia de pé, em plena nudez, entornava sobre a cabeça cuicas d'água que lhe escorria pelo corpo reluzente, um primor de linhas vigorosas, como pintava a superstição do povo o das mães-d'água lendárias, estremecendo em arrepios à líquida carícia, e abrigado em manto da espessa cabeleira anelada que lhe tocava os finos tornozelos. Ao perceber desenhar-se no lusco-fusco da neblina matinal, já perto, o vulto da moça a contemplá-la, soltou um grito de espanto e agachou-se, cruzando os braços sobre os seios.

— Não tenha receio, sra Luzia. Sou eu — disse Teresinha, atirando o pote sobre a areia – Vim também lavar-me com a fresca. É tão bom, neste tempo de calor, poder molhar o corpo...

— Dê-me a camisa por favor — suplicou Luzia, transida de pejo, apontando para a roupa amontoada.

Teresinha não despregava dela os olhos, em êxtase de admirativa curiosidade. Deu-lhe a roupa, e, despindo-se sem o menor resguarde, banhou-se rapidamente.

— Você tem vergonha de outra mulher, Luzia? Eu, não. Não sou torta, nem aleijada, graças a Deus ...

Vestida a camisa que se lhe amoldou ao corpo molhado, como leve túnica de estátua, Luzia não ousava erguer os olhos, tão confusa e perturbada estava.

— Agora sou sua defensora – continuou a outra torcendo os cabelos ensopados – Hei de punir por você em toda parte, porque vi com os meus olhos que é uma mulher como eu, e que mulherão! ... Sabe? Outro dia estava numa roda conversando sobre moças que não há nenhuma honrada para aquelas línguas danadas, Falou-se de você e o Crapiúna, que estava ouvindo, disse que, por bem ou por mal, lhe havia de tirar a teima.

— O Crapiúna? — exclamou Luzia com irrepreensível terror.

— Sim. Aquele infame soldado, muito metido e apresentado, que anda perseguindo a gente. É um gabola para quem não há mulher séria. Não se fie daquele malvado. Conheço muitas que ele desgraçou com partes de promessa de casamento; e não teve coragem de dar-lhe um pedaço de pano para fazer uma saia. A mim andou ele a afrontar com o anelão de ouro que traz no dedo, como isca para as tolas. Eu não sou mais moça, confesso a minha desgraça, mas não me sujo com semelhante desalmado.

Luzia ouvia calada, com os olhos fitos na cacimba, onde a água marejava lentamente.

— Dizem que é criminoso. Muito provocante e atrevido, outro dia quase teve uma pega com o Alexandre por causa de umas liberdades, que quis tomar com a Quinotinha.. Não foi por ciúme que o outro avançou em defesa da menina, uma criança inocente, coitadinha, que ainda não desceu o embainhado da saia. Só visto se acredita. Era preciso ter cabelos no coração para fazer o que ele fez e ter sangue de barata para suportar tamanho desaforo.

— Então o Alexandre?! ...

— Avançou para ele que nem uma fera, e o cabra ficou branco como um defunto. Todo o homem de más entranhas, à traição, é, cascavel, mas, peito a peito, é medroso. Alexandre já andava com ele de olho por sua causa ...

— Por mim?

— Ora, eu sei que ele gosta de você, mas não tem coragem de se declarar. Olhe, minha camarada, procurando com uma vela acesa, não encontrará homem de bem igual a ele. É pessoa de consideração e procedente de boa família. Dizem que deixou moradas de casa e uma fazenda nos Crateús; mas essa desgraça da seca acabou com tudo e o obrigou a andar trabalhando para arranjar um bocado para comer ... Ah! também eu já tive muito de meu e agora vivo nesta miséria. Quando saí de casa com o Cazuza, meus pais, graças a Deus, ainda possuíam muita farinha, muito milho e muito arroz, na despensa, não falando nas matalotagens. Depois, andamos vagando pelo sertão como casados, até que o perdi. Morreu de bexigas, o pobre ... Eu saíra de casa com a roupa do corpo. Vi-me sozinha no mundo, sem ter com que comprar uma tigela de feijão ... Fiz então, o que me mandou a minha ruim cabeça... E por aqui ando como um molambo, sem uma criatura que se doa de mim... Ainda hei de contar-lhe a minha vida.

Teresinha limpou os olhos com as costas da mão, e suspirou. Sentada, em desalinho, traçava na areia úmida, figuras cabalísticas, entremeados de letras que logo apagava, como se simbolizassem importunas e saudosas recordações da felicidade, para sempre perdida.

A cacimba transbordava. Os potes estavam cheios. Luzia torcia em rodilha um trapo de antiga toalha, para equilibrar o seu sobre a cabeça, esperando que Teresinha lhe restituísse a cuia com que se banhava.

(continua...)

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