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#Romances#Literatura Brasileira

Uma Lágrima de Mulher

Por Aluísio Azevedo (1880)

A rapariga estremeceu empalidecendo, sentia-se já arrependida do que houvera arriscado e com dificuldade conseguiu dizer vacilante.

— Não senhor! não tenho!

— Com que, tens um namorado?! repisava entre-dentes o pescador, ruminando a frase.

Rosalina conservava o olhar baixo e, perturbada, alisava com a unha do polegar da mão direita a costura do corpinho.

— Com que, tens um namorado?!... repetia o velho.

— Porém — disse trêmula e sem levantar os olhos Rosalina — ele me quer tanto! E eu estou afeita a vê-lo... e abaixando mais a voz, quase a falar consigo, continuava — que era um bom moço, trabalhador, e que tudo era para bem, ele queria esposá-la, que...

— Quem é? interrompeu asperamente Maffei. — É... é... Miguel Rizio...

Um raio não produziria o efeito desta revelação. A fisionomia do velho alterou-se apopleticamente; firmado nas plantas, levantou-se como impelido pelas molas da cólera e descarregou com bruta excitação na mesa, o punho cerrado e nervoso.

Foi um avermelhar de olhos, um crispar de lábios, um contorcer de nervos, mais rápidos que o relâmpago. Estava transformado.

— Miguel Rizio! um miserável!...

E ria-se ironicamente.

Rosalina, toda trêmula, tinha a cabeça baixa e o olhar arrependido; apertava-se-lhe naquele momento o coração, como se tivesse cometido um crime; dos lábios semi-abertos, fugia-lhe um rosear frouxo e trêmulo, como um cardume de mariposas.

O vulto sombrio e preocupado do velho começou a passear automaticamente de um para outro lado da casa.

Tinha na fisionomia o sobressalto do marinheiro em perigo, nos movimentos umas ligeiras crispações, que lembravam o balanço do navio.

Era uma capitão no seu tombadilho; as sombras do passado e do futuro, as vagas do grande oceano que o embalava; a confissão da filha, o vendaval.

E assim passeava sem se dirigir a ninguém; falava sem se voltar para Rosalina, parecia conversar com Deus, ou com o demônio! Saíam-lhe da boca as palavras escandecidas e ásperas como as pedras de um vulcão.

— E necessariamente ele vinha cá!... E eu ignorava que a minha casa era freqüentada por um Miguel Rizio!...

E voltando-se depois para afilha, como se falasse a um marinheiro, exclama em tom de ordem:

— Não quero casar-te com um maltrapilho daquela laia! Entendes?! Ele bem o sabe, que me evita, o miserável!... Tenho-te reservado — nome e posição! — Somente de ti depende a minha e a tua felicidade, pelo menos enquanto fores bela! Nada tenho a recear daquele mendigo, porque partimos depois de amanhã para Nápoles! Veremos se o maldito lazarone vai lá perseguir-nos! E quanto a ti - bradou ele com mais força, apresentando a cara defronte da de Rosalina - quero que não o tornes a ver!... Entendes?!...

— Sim, senhor - fez timidamente Rosalina.

CAPÍTULO X

Ir para Nápoles!

Viver na grande capital, com opulência, beleza, mocidade, saúde, alegria, admiradores; isto é, realizar o mais dourado dos sonhos, a mais sonhada das esperanças, o desejo mais querido e a mais brilhante expectativa do coração de uma mulher bela e vaidosa.

Tal era o quadro que Maffei descortinara aos olhos fascinadores da filha, tal era a cornucópia abundante, cuja fortuna sufocava de alegria o coração, ainda terno de Rosalina.

Do fundo da sua obscuridade, sentia a formosa filha do pescador as convulsões da pérola nas profundezas do oceano.

Era a sede formidável de luz e de brilho, de admiração e de inveja! A febre de aparecer e ofuscar! O direito da beleza e a impaciência do ouro!

Vaidade! Vaidade grosseira da matéria! Que supõe desperdício esquecer na ostra singela e honesta a jóia digna de se corromper na cabeça de um rei!

Vai, criança sonhadora! E que te hajas tão ditosa que para ti Nápoles seja somente o que o diadema de uma princesa é para uma pérola.

Porém Miguel?! O querido namorado de Rosalina!?...

Oh! Que imprudência... lembrar uma lágrima, quando se trata de todo um futuro de prazeres e galas!

Quem se importa da pétala da rosa, que o trem faustoso do rico, ao passar altivo, esmagou no caminho?!

Todavia, Miguel era um ponto sensível e doloroso no coração da moça ambiciosa. A despeito de tudo, ela ainda o amava, e, no meio dos sonhos de grandeza, tinha para o pobre artista um suspiro de amor e saudade, ainda o via, no fundo brilhante do seu quadro de irradiações e alegrias, sombrio, triste, meio espectro, meio homem, a chorar talvez, com certeza a sofrer. Via-o ela esbelto e delicado, contra a luz das suas esperanças, e sentia-se projetar-se no disco irado de seu coração a sombra negra desse vulto querido.

Não há felicidade, por mais completa, que não ressinta de uma mancha ao menos!

Todo e qualquer obstáculo, por mais mesquinho e miserável que seja, produz uma sombra relativa.

Subtraiam todos os mundos, todos! Que o firmamento fique um nada infinito. Então deixem brilhar unicamente o sol, isolado e egoísta. Só ele! e a sua luz a perder-se pelo nada.

(continua...)

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