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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Então, minha filha, não das sequer uma esperança?... — Pode ser...

E ela ergueu-se...

Bom. Assim é que te quero ver...

O negociante passou o braço em volta da cintura da rapariga, disposto a conversar ainda, mas foi interrompido por umas passadas no corredor.

— Dá licença? disse o cônego, já na porta da varanda. —Vá entrando, compadre!

O cônego entrou, devagar, com o seu sorriso discreto e amável.

Era um velho bonito; teria quando menos sessenta anos, porém estava ainda forte e bem conservado; o olhar vivo, o corpo teso, mas ungido de brandura santarrona. Calcava-se com esmero, de polimento; mandava buscar da Europa, para seu uso, meias e colarinhos especiais, e, quando ria, mostrava dentes limpos, todos chumbados a ouro. Tinha os movimentos distintos; mãos brancas e cabelos alvos que fazia gosto.

Diogo era o confidente e o conselheiro do bom e pesado Manuel; este não dava um passo sem consultar o compadre. Formara-se em Coimbra, donde contava maravilhas; um bocadinho rico, e não relaxava o seu passeio a Lisboa, de vez em quando, “para descarregar anos da costa...” explicava ele, a rir.

Logo que entrou, deu a beijar a Ana Rosa o seu grande e trabalhado anel de ametista, obra do Porto, feita de encomenda. E batendo-lhe na face com a mão fina e impregnada de sabonete inglês:

— Então, minha afilhada, como vai essa bizarria?

Ia bem, agradecida. Sorriu.

— Dindinho está bom?

— Como sempre. Que noticias de D. Babita?

Estava de passeio.

— Pois não vê a casa sossegada? interrogou Manuel. Foi à missa e naturalmente almoçou por ai com alguma amiga. Deus a conserve por lá! Mas que milagre o trouxe a estas horas cá por casa, seu compadre?

— Um negócio que lhe quero comunicar; particular, um bocado particular.

Ana Rosa fez logo menção de afastar-se.

— Deixa-te ficar, disse-lhe o pai. Nós vamos aqui para o escritório.

E os dois compadres, conversando em voz baixa, encaminharam-se para uma saleta que havia na frente da casa.

A saleta era pequenina com duas janelas para a Rua da Estrela. Chão esteirado paredes forradas de papel e o teto de travessinhas de paparaúba pintadas de branco. Havia uma carteira de escrita, muito alta, com o seu mocho inclinado, um cofre de feno, uma pilha de livros de escrituração mercantil, uma prensa, o copiador ao lado e mais um copo sujo de pó, em cujas bordas descansava um pincel chato de cabo largo; uma cadeira de palhinha, um caixão de papéis inúteis, um bico de gás e duas escarradeira.

Ah! ainda havia na parede, sobre a secretária, um calendário do ano e outro da semana, ambos com as algibeiras pejadas de notas e recibos.

Era isto que Manuel Pedro chamava pomposamente “o seu escritório” e onde fazia a correspondência comercia!. Ai, quando ele de corpo e alma se entregava aos interesses da sua vida, às suas especulações, ao seu trabalho enfim, podiam ia fora até morrer, que o bom homem não dava por isso. Amava deveras o trabalho e seria uma santa criatura se não fora certa maniazinha de querer especular com tudo, o que as vezes lhe desvirtuava as melhores intenções.

Quando os dois entraram, ele foi logo fechando a porta, discretamente, enquanto o outro se esparralhava na cadeira com um suspiro de cansaço, levantando até ao meio da canela a sua batina lustrosa e de bom talho. Manuel havia tomado um cigarro de papel amarelo de cima da carteira e acendia-o sofregamente; o cônego esperava por ele, com uma notícia suspensa dos lábios como espantado, a boca meio aberta o tronco inclinado para a frente, as mãos espalmadas nos joelhos, a cabeça erguida e um olhar de sobrancelhas arregaçadas através do cristal dos óculos.

— Sabe quem está a chegar por ai?... perguntou afinal, quando viu Manuel já instalado no mocho da secretaria.

— Quem?

— O Raimundo!

E o cônego sorveu uma pitada.

— Que Raimundo?

— O Mundico! o filho do José, homem! teu sobrinho! aquela criança, que teu mano teve da Domingas...

— Sim, sim, já sei, mas então?...

— Está a chegar por dias... Ora espera...

O padre tirou papéis da algibeira e rebuscou entre eles uma carta, que passou ao negociante.

— E do Peixoto, o Peixoto de Lisboa.

— De Lisboa, como?

— Sim, homem! Do Peixoto de Lisboa, que está há três anos no Rio.

— Ah!... isso sim, porque tinha idéia de que o pequeno deveria estar agora na Corte Ah! chegou o vapor do Sul... — Pois é. Lê!

(continua...)

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