Por Aluísio Azevedo (1895)
Todavia, ridículos monstros que somos nós! no tempo em que vivíamos juntos, quantas vezes, deitados no mesmo leito, me senti apesar da sinceridade do meu empenho em respeitar o voto nupcial, perturbado pela lembrança de outras mulheres, que sem dúvida não valiam a sombra daquela que eu tinha ao lado? Quantas vezes, com a consciência ressentida, não conjecturava eu a hipótese traiçoeira de ter nos braços, naquele momento, certa provocadora mulher com quem estivera conversando essa noite, durante o baile? E isto dava-se estando eu deitado junto de minha esposa! Revoltava-me contra tão hipócrita deslealdade; repelia indignado semelhantes pensamentos inconfessáveis; mas a mulher, que não era a minha e que não valia tanto quanto ela, mas que eu só avaliava por conjecturas, e cujo perfume de cabelo ou cheiro de corpo nunca me tinham sido revelados na intimidade da posse, impunha-se despoticamente aos meus culposos sentidos, acordando-me amores fogosos e enérgicos, como os já não acordava a minha bonita companheira.
Oh! que me perdoes, Olímpia, as vezes que em ti matei desejos que vinham de outras mulheres!
E, em consciência, não será isto já o adultério? A idéia do toque amoroso com outra que não seja a própria esposa, não será uma traição conjugal? Castus est Qui amorem amore, ignemque igne excludit, diz Santo Agostinho. Se assim é, há de ser difícil descobrir um casal que se não adultere de parte a parte, pois estou bem convencido de que com minha mulher, por excelência virtuosa, devia suceder outro tanto; assim como estou amplamente convencido de que tudo, tudo que em mim observei, se verificou também com ela.”
Aí termina o trecho das notas de meu marido. Ele tinha razão: Amei-o e desejei-o também na sua ausência e, justamente quando pensava em tentar uma reconciliação, o que hoje compreendo que seria loucura, recebi a triste notícia de sua morte. Então a saudade e o amor que ele de longe me inspirava transformaramse em verdadeiro culto. Idolatrei a sua memória; mas, só depois dos estudos que determinaram este manuscrito, pude compreender de todo quanto esse pobre homem era bom, digno e reto, e quão nos cabia, a ele e a mim, da responsabilidade de nossa desgraça.
Demais, o seu lugar no meu coração, quando por mais nada, estava garantido como pai que era da minha Palmira, da minha filha idolatrada, laço único que me ligava à vida e ao mundo. E se fui boa mãe; se consegui, à força de desvelos e de extremos de amor, aplanar-lhe a existência das misérias que a minha corromperam, di-lo-ão estas páginas, para ela escritas.
CAPÍTULO IV
Sim, minha filha era a minha vida, porque era o meu verdadeiro amor. Se eu não tivesse outras razões para conservar-me honesta e digna, depois da ausência e da morte de meu marido, tê-lo-ia feito só pelo muito que a amava.
À proporção que Palmira se desenvolvia, fortificava-se o meu caráter, apurava-se a minha inteligência, e o meu coração fazia-se melhor. Meu pensamento pertencia-lhe quase que exclusivamente, mesmo já nos melhores tempos de minha vida de casada. Se então meu marido ganhava terreno na minha estima e eu na dele, era só porque ele era seu pai e eu sua mãe; e o desenvolvimento dessa afetuosa solidariedade estava na razão inversa do nosso amor físico.
Ah! eram inevitáveis as tristes conseqüências desse deslocamento de amor. Foi talvez dessa época que se decidiu a nossa incompatibilidade, e que se originou a nossa separação; entretanto ainda então sabíamos conter-nos um defronte do outro. Em uma nota, muito anterior àquela que ficou atrás, meu marido revela-se claramente a esse respeito. Vou transcrevê-la e será esta a última; insisto em fazêlo, porque todo o estudo que forma cabedal deste meu querido livro foi inspirado nessas notas de Virgílio, e também porque elas dizem o que eu talvez nunca tivesse a coragem de confessar a meu respeito.
Eis o que ele escreveu. Nesse tempo, note-se, ainda se não tinha quebrado a aparente harmonia da nossa vida íntima; ainda não tinha estalado a caldeira, onde ferviam já os humores da reação:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.