Por Machado de Assis (1870)
— É esta, disse eu apontando para Augusta.
— Por ora, respondeu o capitão; mas eu medito coisas mais pasmosas; por exemplo, creio que descobri o meio de criar gênios.
— Como?
— Pego num homem de talento, notável ou medíocre, ou até num homem nulo, e faço dele um gênio.
— Isso é fácil...
— Fácil, não; é apenas possível. Aprendi isto... Aprendi? não, descobri isto, guiado por uma palavra que encontrei num livro árabe do século décimo-sexto. Quer vê-lo? Não tive tempo de responder; o capitão saiu e voltou daí a alguns segundos com um livro in-fólio na mão, grosseiramente impresso em caracteres árabes feitos com tinta vermelha. Explicou-me a sua idéia, mas por alto; eu não lhe prestei grande atenção; os meus olhos estavam embebidos nos de Augusta.
Quando sai era meia-noite. Augusta com voz suplicante e terna disse-me:
— Vem amanhã?
— Venho!
O velho estava de costas; eu levei a mão dela aos meus lábios e imprimi-lhe um longo e apaixonado beijo.
Depois saí correndo: tinha medo dela e de mim.
V
No dia seguinte recebi um bilhete do capitão Mendonça, logo de manhã. Grande notícia! Trata-se da nossa felicidade, da sua, da minha e da de Augusta. Venha à noite sem falta.
Não faltei.
Fui recebido por Augusta, que me apertou as mãos com fogo. Estávamos sós; ousei dar lhe um beijo na face. Ela corou muito, mas retribuiu-me imediatamente o beijo.
— Recebi hoje um bilhete misterioso de seu pai...
— Já sei, disse a moça; trata-se com efeito da nossa felicidade.
Passava-se isto no patamar da escada.
— Entre! entre! gritou o velho capitão.
Entramos.
O capitão estava na sala fumando um cigarro e passeando com as mãos nas costas, como na primeira noite em que o vira. Abraçou-me, e mandou que me sentasse.
— Meu caro doutor, disse-me ele depois que nos sentamos ambos, ficando Augusta de pé encostada à cadeira do pai; meu caro doutor, raras vezes a fortuna cai a ponto de fazer a completa felicidade de três pessoas. A felicidade é a mais rara coisa deste mundo.
— Mais rara que as pérolas, disse eu sentenciosamente.
— Muito mais, e de maior valia. Dizem que César comprou por seis milhões de sestércios uma pérola, para presentear Sevília. Quanto não daria ele por essa outra pérola, que recebeu de graça, e que lhe deu o poder do mundo?
— Qual?
— O gênio. A felicidade é o gênio.
Fiquei um pouco aborrecido com a conversa do capitão. Eu cuidava que a felicidade de que se tratava para mim e Augusta era o nosso casamento. Quando o homem me falou no gênio, olhei para a moça com olhos tão aflitos, que ela veio em meu auxilio dizendo ao pai:
— Mas, papai, comece pelo principio.
— Tens razão; desculpa se o sábio faz esquecer o pai. Trata-se, meu caro amigo — dou lhe este nome —, trata-se de um casamento.
— Ah!
— Minha filha confessou-me hoje de manhã que o ama loucamente e é igualmente amada. Daqui ao casamento é um passo.
— Tem razão; amo loucamente sua filha, e estou pronto a casar-me com ela, se o capitão consente.
— Consinto, aplaudo e agradeço.
Preciso acaso dizer que a resposta do capitão, ainda que prevista, encheu de felicidade o meu coração ambicioso? Levantei-me e apertei alegremente a mão do capitão. — Compreendo! compreendo! disse o velho; já passaram por mim essas coisas. O amor é quase tudo na vida; a vida tem duas grandes faces: o amor e a ciência. Quem não compreender isto não é digno de ser homem. O poder e a glória não impedem que a caveira de Alexandre seja igual à caveira de um truão. As grandezas da terra não valem uma flor nascida à beira dos rios. O amor é o coração, a ciência a cabeça; o poder é simplesmente a espada...
Interrompi esta enfadonha preleção acerca das grandezas humanas dizendo a Augusta que desejava fazer a sua felicidade e ajudar com ela a tornar tranqüila e alegre a velhice do pai.
— Lá por isso não se incomode, meu genro. Eu hei de ser feliz, quer queiram quer não. Um homem de minha têmpera nunca é infeliz. Tenho a felicidade nas mãos, não a faço depender de vãos preconceitos sociais.
Poucas palavras mais trocamos neste assunto, até que Augusta tomou a palavra dizendo:
— Mas, papai, ainda lhe não falou das nossas condições.
— Não te impacientes, pequena; a noite é grande.
— De que se trata? perguntei eu.
Mendonça respondeu:
— Trata-se de uma condição lembrada por minha filha; e que o doutor naturalmente aceita.
— Pois não!
— Minha filha, continuou o capitão, deseja uma aliança digna de si e de mim.
— Não lhe parece que eu possa?...
— É excelente para o caso, mas falta-lhe uma pequena coisa...
— Riqueza?
— Ora, riqueza! isso tenho eu de sobra... se quiser. O que lhe falta, meu rico, é justamente o que me sobra.
Fiz um gesto de compreender o que ele dizia, mas simplesmente por formalidade, porque eu não compreendia nada.
O capitão tirou-me do embaraço.
— Falta-lhe gênio, disse.
— Ah!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O capitão Mendonça. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1870.