Por Aluísio Azevedo (1887)
— Mais tarde verás que digo a verdade; o que desde já posso afirmar é que o pobre rapaz não tem absolutamente a menor culpa em tudo isto. Não o deves ver com maus lhos, nem lhe deves retirar a tua confiança e a tua estima...
— Mas fale por uma vez! Não vê que as suas meias palavras me põem doida?...
— Não posso; é bastante que acredites em mim; eu juro-te que Fernando, negando-se a casar contigo, cumpre o seu dever. Vou chamá-lo e quero que...
— Não, não! atalhou a filha, segurando-lhe os braços. — Ele que não me apareça! Que não me fale! Detesto-o!
— Não acreditas em teu pai!...
— Não sei; acredito é que entre o senhor e ele há uma conspiração contra mim! Querem engodar-me com mistérios que não existem, como se eu fosse alguma criança! Ah! mas eu mostrarei que não sou o que pensam!
— Então, minha filha, então!
— Creio que já disse bem claro qual é a minha resolução a respeito de casamento, e agora só me convém saber se meu pai está ou não disposto a tratar disso!
— Não digo que não, mas para que fazer as coisas tão precipitadamente?...
O velho sentia o suor gelar-lhe o corpo.
— Custe o que custar, eu me casarei antes da partida daquele miserável! Se meu pai não fizer o que eu disse, o escândalo será maior! Ao menos falo com esta franqueza — Não tenho
"mistérios"!
Ela havia-se desprendido das mãos do Conselheiro e passeava agora pelo quarto, muito agitada, com as faces em fogo, os lábios secos e os olhos ainda úmidos das últimas lágrimas. E em todos os seus movimentos nervosos, em todos os seus gestos, sentia-se uma resolução enérgica, altiva e orgulhosa.
— Não há outro remédio! Pensou o velho, limpando a fronte orvalhada e fria da neve, não há outro remédio!
E aproximou-se da filha, para lhe dizer quase em segredo, com a voz estrangulada pela vergonha:
— Fernando não se casa contigo, porque é teu irmão...
Magdá retraiu-se toda, como se lhe tivesse passado por diante dos olhos uma faísca elétrica, e fitou-os sobre o pai, que abaixou a cabeça num angustioso resfolegar de delinqüente.
— Ora aí tens... balbuciou ele, depois de uma pausa, durante a qual só se ouviam os soluços de Magdá que se lhe havia atirado nos braços. — Já vês que aqui o único culpado sou eu; nunca devia ter consentido que vocês se criassem juntos, sem lhes ter exposto a verdade. Tua mãe ignorou sempre que Fernando fosse meu filho...
— Vá ter com ele... pediu Magdá chorando. — Que me perdoe! Que me perdoe! Diga-lhe que eu não sabia de nada, e que sou muito desgraçada!
Quando o Conselheiro saiu do quarto, ela tornou à cama, e daí a pouco delirava com febre.
Transferiu-se a festa; mandou-se chamar logo o Dr. Lobão, que receitou; e, só à tarde do dia seguinte, a enferma deu acordo de si, depois de um sono profundo que durou muitas horas.
Despertou tranqüila, um pouco abstrata. — Tinha sonhado tanto!...
Levou um bom espaço a cismar, por fim soltou um profundo suspiro resignado e pediu que conduzissem o irmão à sua presença. Ele foi logo, acompanhado pelo Conselheiro, e assentouse, sem dizer palavra, numa cadeira ao lado da cabeceira da cama. Magdá tomou-lhe as mãos em silêncio, beijou-las repetidas vezes, e em seguida levou uma delas ao rosto e ficou assim por algum tempo, a descansar a cabeça contra a palma da mão de Fernando. Como por encanto, a sua meiguice havia se transformado da noite para o dia: já não eram de noiva os seus carinhos, mas perfeitamente de irmã. Não por isso menos expansivos, antes parecia agora muito mais em liberdade com ele; pelo menos nunca lhe havia tomado as mãos daquele modo. Ainda fez mais depois: pousou a face contra o seu colo e cingiu-lhe o braço em volta da cintura.
— E eu que cheguei a supor que eras um homem mau!... balbuciou, com uma voz tão arrependida, tão humilde e tão meiga, que o rapaz a apertou contra o seio e deu-lhe um beijo no alto da cabeça.
Magdá estremeceu todo, teve um novo suspiro, e deixou-se cair sobre os travesseiros, com os olhos fechados e a boca entreaberta. Chorava.
— Então, agora estão feitas as pazes?... perguntou o Conselheiro, alisando com os dedos o cabelo da filha.
Esta ergueu as pálpebras vagarosamente e deu em resposta um sorriso sofredor e triste.
E ainda pensas no Martinho de Azevedo?... interrogou o velho, afetando bom humor.
Ela voltou seu sorriso para Fernando, como lhe pedindo perdão daquela vingança tão tola e tão imerecida.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O homem. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7408 . Acesso em: 18 mar. 2026.