Por Machado de Assis (1866)
Algumas velhas, vendo o aparato do largo da matriz tiveram a indiscrição de perguntar se havia nesse dia teatro de bonecos. Responderam-lhes que era uma sessão preparatória de eleição.
Chegou o dia aprazado; os vereadores e algumas outras autoridades assistiram ao meeting; os curiosos eram em grande número.
Alfredo foi o único orador.
— Meus senhores, disse ele do alto da tribuna; dentro de poucos dias tem de haver a eleição de deputado; eu apresento-me candidato a um dos lugares da lista. Bem sei que o voto agora restringe-se aos eleitores, e que vós, povo, não tendes mais o direito de votar: mas o que eu peço, é que a alta consciência dos eleitores seja um tanto influenciada pela voz da opinião pública que é a senhora do universo. É a ti, opinião pública, que eu me dirijo, é aos teus pés que eu deponho os meus poucos méritos, é de ti que eu desejo o batismo.
— O batismo! rosnou o barbeiro da vila; parece que o sr. Teles esqueceu-se de mandar o filho à pia...
O orador desceu, entretanto, os degraus da tribuna, no meio de alguns vivas, soltados por dois ou três capangas, anteriormente pagos.
O povo ficou ainda algum tempo a esperar por mais, até que veio a noite, e cada um foi para casa, com a cara à banda.
Alfredo também se retirava, quando um moleque se chegou a ele, e entregou-lhe o seguinte bilhete:
Alfredo, se me amas, vem buscar-me, fujamos hoje mesmo; apesar de doente, irei contigo; se não vieres, mato-me.
O bilhete era da filha de Tobias. Alfredo franziu a testa, e releu o bilhete. Embora não tivesse já os primeiros ardores pela moça, todavia ainda gostava dela, e a idéia de uma catástrofe devia impressioná-lo.
No meio das suas glórias eleitorais, vinha o amor aguar-lhe o prazer
— Que idiota!
— Quantos há que por um amor sincero, ardente, puro, dariam eleições, câmaras, ministérios, e tudo!
Alfredo foi para casa, e gastou a noite em meditar no que devia fazer. Depois de muito tempo mandou à namorada o seguinte bilhete:
Tente bem, se o mamão...
A moça leu espantada este bilhete; não compreendia o que era; mas de repente uma triste idéia a assaltou.
— Se Alfredo estivesse louco!...
Nisto teve um desmaio. Quando deu acordo de si, estava nos braços do pai, a quem confessou tudo, para poder contar os seus tristes receios. Tobias ralhou com a filha, mas lá se alegrou no interior por ver doido o candidato, tanto que no dia seguinte lia-se a seguinte notícia no Farol: Afirmam-nos que se acha atacado de alienação mental o sr. Alfredo Teles. Este jovem merecia as simpatias das pessoas sensatas da vila, apesar do pai. Nessa manhã venderam-se mais vinte exemplares do Farol, e a notícia chegou até o lugar onde se achava Chico Teles, que amarrotou o jornal, e veio para a vila disposto a deitar tudo abaixo.
Pobre Alfredo! O que ele queria dizer era entretanto simples. O hábito do anagrama foi a causa daquilo. Ele queria dizer:
Não te mates meu bem.
E escreveu:
Tente bem, se o mamão...
Até onde vai um mau costume!
CAPÍTULO IX
Antes da chegada de Chico Teles à vila, já Alfredo tinha feito das suas. O artigo do Farol pô-lo tonto. Amarrotou o jornal e jurou vingar-se do indigno redator; mas de todos os meios que lhe ocorreram, nenhum lhe quadrou. Estava nessa indecisão quando Chico Teles chegou.
O subdelegado entrou em casa furioso.
— É indigno! é infame! exclamou ele.
— É infame! é indigno! respondia Alfredo, como um eco.
Acalmados os primeiros furores, entraram ambos na apreciação do artigo de Manoel Tobias. Ignorando a causa do artigo, o pai e o filho julgaram logicamente que Manoel Tobias aludia ao meeting.
Depois de muitas horas de reflexão e discussão, assentaram em não dizer palavra na Atalaia, a respeito do artigo do Farol, e guardar a vingança para a eleição que estava próxima.
— Sim, dizia Chico Teles, fia-te em mim: demos àquele miserável a melhor resposta possível, que é a de uma derrota para sempre; havemos de mostrar-lhe que o seu partido nada vale. Envidemos os nossos esforços e matemos o bicho...
— Sim, matemos o bicho, disse Alfredo pondo aguardente em dois copos e oferecendo um ao pai.
Chico Teles olhou admirado para o filho, e esvaziou um trago.
Entretanto a filha de Tobias continuava inconsolável. A idéia de que o seu amante estava doido era coisa que a não consolava; a rapariga tinha um fraco pelo rapaz, e contava vencer as dificuldades para unir-se a ele. Tudo porém, quanto imaginara caiu diante daquele desastre.
Manoel Tobias contava com uma resposta da parte da Atalaia, e ficou admirado de não ver nada no dia seguinte.
Respondeu-lhe porém, o Azorrague. Disse esta folha:
O Farol disse ontem que o sr. Alfredo Teles estava doido, fazendo assim crer que ele teve juízo algum dia...
Tobias leu até aqui com um sorriso nos lábios; mas caiu-lhe o queixo quando leu o resto, que dizia assim:
... Sim, tanto ele como o sr. Chico Teles e o sr. Manoel Tobias são três famosos malucos!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O Teles e o Tobias. Semana Ilustrada. Rio de Janeiro, 1866.