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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

De alguns queridos pintos despojara,

Na defesa da prole irada avança,

Tal rugindo de cólera descreve

Em quatro passos a comprida alcova

O grande Almada. Súbito estacando

A vista crava no vazio espaço.

Ali (milagre só da roaz cólera!)

Vê a figura do atrevido Mustre;

E com olhos, com gestos, com palavras

O ameaça de morte e lhe anuncia

Que há de eterna vergonha os ossos dele

Insepulto levar de idade a idade.

“Tão incrível (diz ele), enorme audácia

De vir meter as mãos no que pertence

À minha eminentíssima pessoa

Um castigo há de ter, -exemplo raro,

Que servirá de público escarmento,

E de algum pasmo aos séculos futuros!”

IV

Disse, e tomado de furor estranho

Gesticulando sai; e enquanto a tarde

Pela morena espádua o véu devolve

Com que baixa a montanha e à várzea desce,

Concentrado vagou de sala em sala.

V

Longa a noite lhe foi; áspero catre

Os macios colchões lhe pareciam,

Ao pastor fluminense, que cem vezes

Que cem vezes fechara os tristes olhos,

Sem conseguir dormir a noite inteira.

No cérebro agitado lhe traçava

A mão da Ira mil diversos planos

Contra o fero ouvidor. Ora imagina

Em saco estreito atado na cintura,

Mandar deitá-lo aos peixes; longos anos

Encerrá-lo em medonho , escuro cárcere;

Ou já numa fogueira, concertava

Pelas discretas mãos do Santo Ofício,

Esmero d'arte e punição de hereges,

Como um simples judeu, torrá-lo aos poucos.

VI

Mas, de baldados sonhos fatigado,

O prelado da cama se levanta.

Enfia as cuecas, os pantufos calça,

E manda ali chamar o seu copeiro.

Corre Anselmo trazendo respeitoso

De alvo-grosso mingau ampla tigela

Com que o prelado consolar costuma,

Antes de se voltar para outro lado,

O laborioso estômago, e ao vê-lo

De pé, meio vestido e tão esperto,

Os olhos espantados arregala

E exclama: "Santo Deus! a estas horas!

Que milagre, senhor, ou que promessa

Fez Vossa Senhoria que o obrigue

A tão cedo deixar sua cama?"

- "Anselmo, nem milagre, nem promessa

(Responde o grande e valoroso Almada).

Se eu fiz hoje unia cousa nunca vista,

Se eu precedi o sol nesta cidade,

Causa única foi um grave assunto

Que o sono me tolheu a noite inteira.

Ao cozinheiro vai da minha parte,

Dize-lhe que uni jantar de dez talheres,

Sem olhar a despesas me prepare,

Que hoje quero brindar por certa causa

Alguns amigos meus. Do teu antigo

Zelo confio, como sempre, a mesa;

Deita os cristais abaixo; na de Holanda

Toalha que mais fina houver na casa,

Com arte me dispõe, com simetria,

A baixela melhor."

VII

lsto dizendo,

A matutina refeição despacha;

Murmurando de cólera se veste,

E roxo como a renascente aurora,

Chama um lacaio e um bilhetinho manda

Às colunas da igreja fluminense.

Tal o prudente capitão, se as armas,

Que até-li defendeu, vexadas foram,

A conselho convoca os demais cabos,

E do ousado inimigo prontamente

Decretam juntos a vergonha e morte.

VIII

Quando veio o jantar, sombrio e mudo,

Sentou-se o grande Almada, e mastigando,

Com distraído gesto, alguns bocados,

Nenhuma frase de seus lábios solta.

Debalde o Vilalobos, seu vigário,

Todo se remexia na cadeira;

Debalde o médio Lucas consultava

Os seus colegas, desejosos todos

De irem dormir a costumada sesta;

A misteriosa causa do silêncio

Em que o prelado jaz ninguém descobre.

Enfim, o grande Almada se levanta,

E para a ceia diferindo o caso

(Tanto nele inda a cólera rugia!)

Sem a bênção e as rezas de costume

Tornou da mesa extinta ao fofo leito;

Doce exemplo que os outros imitaram,

E em desconto de algum perdido tempo,

Dormiram muito além de ave-marias.

IX

Mas o Veloso, adulador e astuto,

Não conseguiu dormir. Em vão na cama

As posições mudava; o pensamento

Velava inteiro e afugentava o sono.

Maravilha era essa, e grande e rara,

Pois entre os dorminhocos desse tempo

Tinha lugar conspícuo; antes das nove,

Sem embargo da sesta, era defunto,

E nunca ouvira o despertar do galo.

X

Quando ao sinal da ceia, aparelhados

Correram todos à pejada mesa,

Antes de se sentar silêncio pede

O Veloso e, três vezes a cabeça

Curvando, fala: “Se partis conosco,

Magnânimo prelado, as alegrias,

Por que as mágoas furtais aos nossos olhos?

Ah! dizei que importuna, estranha causa

Melancólico véu no amado rosto

Desde o jantar vos pôs! Debalde busco

A razão descobrir de tal mudança.

Dar-se-á que, por descuido da cozinha,

Na sopa entrasse o fumo? Eu, se não erro,

Vestígios dele achei, posto que a pressa

Com que a sopa comi me disfarçasse

De algum modo o sabor. Ou, no trajeto

Daqui à Sé, algum clérigo novo

Vos faltou coa devida reverência?

Contai, senhor, contai a amigos velhos

Males que deles são!”

XI

A tais palavras,

Com o punho cerrado sobre a mesa, o prelado despede um

grande golpe

Que faz tremer terrinas e garrafas

E apaga a cor nos lábios do Veloso.

Logo mais sossegado, e perpassando

Pela douta assembléia um olhar grave,

Encara o pregador; e dando à fala

Menos rude expressão, assim responde:

“Não, amigo, a razão da minha cólera

Nenhuma dessas foi. A baixa inveja

Do presumido Mustre, a quem basbaques

Tecem descompassados elogios

E cujo nome nas tabernas brilha,

lsto só me acendeu dentro do peito

Desusado furor. Vós do meu cargo

Companheiros fiéis que com diurna,

Noturna mão versais minha alma inteira,

(continua...)

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