Por Aluísio Azevedo (1884)
O amigo empurrou a porta e eu soltei um grito de surpresa e de indignação.
Imagine V. Sª. quem havia eu de encontrar ali, em vez de minha mulher, como esperava? Imagine quem, Sr. Redator: - minha sogra. Sou de V.Sª.
Atº. Crº. e ven.or
Novas Revelações
Quinta Carta
Sr. Redator.
Antes de mais nada, antes de lhe dar conta dos fatos extraordinários que se vão seguir, seja-me permitido dizer duas palavras a respeito de minha sogra, dessa megera, a quem o acaso, por desgraça, fez mãe da mulher com quem casei.
Dona Leonarda dos Prazeres é uma velhusca de quarenta e tantos anos que não parece ter mais de trinta e poucos. Forte, bem conservada e lépida, diz até muita gente que ela mete mais vista do que a filha, com quem aliás se parece muito.
Dona Leonarda é viúva e foi casada quatro vezes. (Margarida nasceu do seu primeiro matrimônio.) Teve por maridos os seguintes homens: um ferrador, um açougueiro, um jornalista e um farmacêutico.
Consta que todos eles acabaram meio idiotas notando-se que dous deram cabo da vida, um suicidando-se a tiro e o outro a veneno.
Dona Leonarda herdou do último de seus maridos, o farmacêutico, uma casinha de porta e janela, cinco apólices da dívida pública e a farmácia. Comeu tudo isso dentro de um ano e passou a viver à minha custa, Eu que não estava disposto a aturá-la em casa, arranjeilhe uma pensão com os parentes ricos do defunto farmacêutico e tratei de nunca mais saber notícias dela.
Isto foi, haverá coisa de quatro anos, e, depois de todo esse tempo, é que a fui encontrar pela primeira vez ali, na Casa de Correção e presa como ladra, segundo a informação do meu amigo.
Entrei na célula e, sem mais comentários, exigi de minha sogra a explicação de tudo aquilo. Ela fechou os olhos e meneou a cabeça negativamente.
- Não quer falar? — perguntei eu.
Ela tornou a dizer que não, com a cabeça.
- É a sua última resposta?
Ela sacudiu a cabeça afirmativamente.
- Mas a senhora não sabe o que me trouxe aqui?
Ela levantou os ombros, com indiferença.
- Não sabe que se trata de sua filha?
Ela repetiu o movimento dos ombros.
- Saberá ao menos dizer-me o que foi feito dela?
A velha esticou o beiço inferior com um jeito expressivo, que dizia – “Não sei”.
Cada vez mais furioso, pedi ao amigo que me levasse à presença de Castro Matta.
- Não posso - respondeu ele. - Tenho ordem para não o mostrar a ninguém.
Ao sair da Casa de Detenção, um dos outros amigos, aquele justamente que me havia afiançado que o Matta estava recolhido à Misericórdia, segredou-me já na rua.
- Vou agora à Misericórdia, a serviço; se quiseres ver o homem, vem comigo.
Aceitei o convite e, imagine-se qual foi a minha nova surpresa, quando, penetrando o meu amigo na enfermaria, tornou ao meu lado e disse-me ao ouvido:
- Já não encontras um homem, encontras um cadáver.
E, avançando alguns passos, foi ter a uma cama, onde se via um grande vulto humano coberto por um lençol velho.
O meu amigo levantou a coberta por uma das pontas e acrescentou.
- Vê!
Eu puxei do bolso a fotografia que me dera a Jeannite e confrontei-a com o cadáver.
Não podia haver dúvida.
Era o mesmo, sem tirar nem pôr.
E a graça é que a fotografia estava perfeitamente de acordo com as primeiras informações que no ponto das Barcas me dera o carregador, “magro, cabelo preto, barba à inglesa”, e [pela] elegância é de supor que usasse polainas e chapéu alto.
Detive-me defronte daquele cadáver, a fazer algumas considerações a respeito dele.
“Ali estava para sempre inanimado o homem que minha mulher preferiu a mim e por quem trocou a sua tranqüilidade, o seu futuro e a sua honra! E fossem lá compreender as mulheres! Por que razão aquele tipo de barbas inglesas, aquele desordeiro vulgar e de más entranhas sem dúvida, havia de merecer mais do que eu?... Por quê? Por ser bruto? Não! Por ter mais talento? Não creio... Ele não seria capaz de escrever estas cartas... Por ser mais honesto? Impossível! Por que seria então? Ainda se fosse rico, mas qual, segundo informações que me deram mais tarde, só lhe encontraram nas algibeiras dous níqueis de tostão, uma caixa de fósforos, algumas cartas de namoro, algumas contas, um pente e três cigarros. Por que pois teria minha mulher o preferido a mim?
“Ah! Quem poderá explicar esses mistérios e essas aberrações do coração feminino! Quantas vezes essas insensatas não largam de mão o ouro verdadeiro para se lançarem sobre o mais ordinário dos metais!...”
Fazia eu tais considerações, quando o meu bom amigo tocou-me no ombro.
- Então! - disse ele - queres agora ficar aí, defronte desse corpo?
- A que horas é o enterro? — perguntei.
- Deve ser daqui a uma hora. Às quatro.
- Pois eu espero. Quero acompanhá-lo até ao cemitério, quero vê-lo descer à sepultura, cair-lhe sobre o peito a terra e a cal, e só depois disso respirarei com franqueza.
- Então, adeus — disse-me o amigo. Deixo-te, que ainda tenho que fazer.
- Adeus. Obrigado.
O amigo saiu e eu fiquei ao lado do defunto. Esta disposto a não abandoná-lo um só instante.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Mattos, Malta ou Matta? Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1725 . Acesso em: 15 mar. 2026.