Por Aluísio Azevedo (1882)
O ofício comera-lhe o pavor natural que todo o homem sente à vista da morte, e familiarizara-o com as degradações pavorosas da carne sem vida. Dava-se perfeitamente bem no meio de tudo aquilo: ali comia, ali dormia e ali amava. Quando pilhava algum dinheiro para comprar luz, corria à venda a bebe-lo de aguardente, e à noite deixava-se ficar no escuro com os inalteráveis companheiros de casa, que seguro não o incomodariam durante o sono.
O Ludgero disse-lhe alguma coisa; e o guarda, sem nada responder, conduziu-o para defronte da mesa em que estava o cadáver.
Então o chefe de polícia armou as suas lunetas de vidro graduado, e ficou a observar o morto por algum tempo.
Era um defunto comprido, magro, com barbas empastadas de sangue pelo lado inferior. Estava descalço e tinha o corpo nu, ligeiramente esverdeado. O assassino rasgara-lhe a garganta à faca e puxara o golpe até às regiões dérmicas do tórax.
O chefe mandou chamar o escrivão e o médico, procedeu ao corpo de delito, e, depois de apoderar-se de um farrapo de casimira cinzenta, encontrado na mão direita do morto, meteu-se de novo no carro, e tomou o caminho da Secretaria de Polícia, que nesse tempo era ainda na rua do Sabão.
Aí procurou logo o delegado, com quem conversou algum tempo,
terminando por entregar-lhe o farrapo de casimira e recomendar-lhe que procedesse às preliminares do inquérito no local do crime, e desse as providências para as competentes pesquisas.
Nessa ocasião acabava de chegar o Caixa da casa Paulo Cordeiro, sobre quem recaía o prejuízo causado pelo roubo que dera lugar ao crime. O delegado tomou-o de parte, e os dois ficaram a falar a meia voz.
O chefe entretanto passara à sala de audiência, onde, entre outras pessoas, foi introduzida uma senhora ainda moça, de boa aparência, que dizia querer soltar um escravo seu, preso na véspera.
O chefe ouviu-a com toda a atenção, chamou um empregado e mandou lavrar o alvará de soltura. A senhora levantou-se, e agradeceu, mas, na ocasião em que transpunha a porta para sair, foi detida por uma frase que ouvira destacada da conversa do delegado.
Parou, e protegida por um reposteiro, prestou toda a atenção.
— E o que lhe digo, Sr. delegado, repisava o queixoso. Nada podemos fazer sem primeiro ouvirmos o rapaz.
— Mas onde mora esse Gregório?
— Mora nas Laranjeiras.
— Em que se ocupa?
— E zangão da praça.
— O senhor viu-o hoje?
— Nem hoje, nem ontem.
— E ele então sabia que o senhor recebeu ontem à tarde os vinte contos de réis?
— Foi a única pessoa estranha ao negócio, que soube disso.
— Bem, disse o delegado; escreva o nome e a moradia desse rapaz, e deixe tudo mais por minha conta.
A mulher que os escutava, aproveitou o momento em que os dois se afastaram, para sair do seu esconderijo e descer precipitadamente a escada.
A rua tomou um carro e seguiu para a casa de Clorinda. Pelo sobressalto em que ia e pelo ar de dolorosa ansiedade espalhado em todo o seu rosto, pálido e simpático, conhecia-se facilmente que a pobre mulher estava sob a influência de uma grande emoção.
Antes porém de voltarmos com ela à casa da noiva, que em tão triste situação deixamos no primeiro capítulo, cumpre dizermos alguma coisa a respeito deste novo personagem.
Imagine o leitor uma mulher cheia de corpo, um tanto baixa, porém esbelta e garrida; dê-lhe um par de olhos castanhos, vivos e graciosos, uma boca risonha, um narizinho arrebitado, uns cabelos da cor dos olhos, um pescoço carnudo e bom torneado; e terá o leitor, pouco mais ou menos, a figura simpática que se dirigia para a casa de Clorinda.
Chamava-se Júlia Guterres; fora atriz por muito tempo e afinal, a instâncias do homem com quem casara, teve de abandonar por sua vez o palco.
O marido faleceu cinco anos depois do casamento, deixando à viúva um legado que lhe assegurava o resto da vida.
Júlia Guterres reuniu o que possuía, vendeu alguns bens que lhe não convinham, alugou o prédio em que morara com o marido, dispôs de alguns escravos, comprou um belo chalézinho na Tijuca, e meteu-se aí, com a intenção de envelhecer tranqüilamente.
Foi nessa casa que ela travou relações de amizade com Gregório. Viram-se os dois à primeira vez por ocasião do batizado da filha de uma amiga. Gregório teria então vinte anos, gozava de alguma fama de estroina e figurava na vida romântica de uma tal Olímpia, a quem o leitor mais tarde virá a conhecer perfeitamente.
Um dia, sentia-se ela aborrecida e nervosa, sem saber o que tinha, nem o que queria; tudo nessa ocasião parecia enfastiá-la profundamente. Vestiu-se, mas não teve a coragem de sair; abriu um livro e não leu uma página sequer; acendeu um cigarro e arremessou-o logo pela janela.
Nisto entrou o criado no seu quarto e disse-lhe que o Sr. Gregório a procurava.
— Não estou em casa! respondeu a senhora, de mau humor.
Mas, quando o criado ia a sair, acrescentou consigo:
— Que idéia!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.