Por Aluísio Azevedo (1884)
— Ao menos beba! replicou ela, vendo que o Borges não se resolvia a comer.
E encheu-lhe o copo.
O pobre homem teve acanhamento de confessar que nunca toda a sua vida, bebera o mais pequeno trago de vinho.
— Então... fez a mulher. — Vamos! E tocando o seu copo no dele: — Ao nosso casamento!
Borges emborcou o seu de um fôlego, com uma careta.
Filomena não se pôde conter, e soltou uma dessas risadas retumbantes, que chegam para encher toda uma casa. Aquele ar esquerdo do mestre de obras, engasgado, roxo de tosse, fazia-lhe cócegas pelo corpo inteiro. E ela ria, ria, ria, sem se dominar, cobrindo o rosto com as mãos,. torcendo-se como uma cobra, enquanto o Borges, muito enfiado, procurava posições na cadeira, ardendo por sair daquela situação que o torturava.
— Coma sempre alguma coisa! disse-lhe por fim a esposa, fazendo inúteis esforços para reprimir a hilaridade — olhe que não é cedo!... uma hora, creio eu.
— Obrigado! Não tenho apetite... respondeu ele, cada vez mais confuso, a limpar o suor que já lhe sobrevinha ao rosto.
Ela continuava a rir.
— Há de ser porque passei mal a noite... acrescentou o Borges. Não preguei olho!... Isto para quem nunca saiu de seus hábitos...
— Mas, meu amigo, acudiu Filomena, solicitamente, tornando-se séria — para que faz o senhor loucuras dessa ordem? Isso pode causar-lhe mal!... Lembrese de que já não tem vinte anos, e a sua saúde, na sua idade, é coisa muito preciosa!
O Borges desta vez perdeu de todo o bom humor. Ou fosse por efeito do vinho, que ele bebia pela primeira vez, ou fosse que as palavras da mulher o irritassem deveras, o caso é que fechou o rosto e respondeu quase com azedume:
— Eu não perdi a noite pelo gostinho de a passar em claro! Não foi minha a culpa!...
— De quem foi, nesse caso?... indagou Filomena, já com o riso a espiar pelos cantos da boca.
— Ora, minha senhora!...
— Quer dizer que foi minha?!
— A senhora bem o sabe...
— Perdão, meu amigo, convém que nos entendamos! O senhor terá bastante bom senso para compreender o que lhe digo: ouça...
— Tenho até para mais... apartou o Borges, encavacado.
— Tenho para compreender o papel ridículo que a senhora quer me fazer representar!...
— Ridículo? Por quê?!
— Por quê?! Porque eu não tinha a menor necessidade de passar a noite no sofá e ainda por cima servir de galhofa! Ora aí tem porque?
— Mas que queria o senhor que eu lhe fizesse?!...
— Ora, minha senhora! Por amor de Deus!
— Pois acha que devo ter plena confiança em um homem que mal conheço?! Um homem, que eu não sei se me ama, ou que, pelo menos, ainda não me deu provas disso?!...
— Não dei provas! exclamou Borges ofendendo-se. — Não dei provas!... Homessa!... Quer então uma prova superior ao casamento!... Então o fato de me fazer seu esposo, não vale nada?!
— Vale tanto como o de fazer-me eu sua esposa. Foi uma permuta, uma troca. E por ora é só o que há — estamos quites — nem o senhor por enquanto tem direitos adquiridos, nem eu! Salvo se entende que o noivo vale muito mais que a noiva!...
— Eu não entendo nada! respondeu ele, triste; — sei apenas que me casei com a senhora porque a estimo muito...
E baixando a voz, ainda com mais amargura: — A senhora, sim! é que nunca me teve afeição, e principio a duvidar que isso venha a suceder algum dia...
— Depende unicamente do senhor, meu amigo!... retrucou Filomena.
Agora parecia comovida. Estava muito séria; o olhar ferrado no prato.
Houve um silêncio. Ela, afinal, continuou a falar, imóvel, sem descravar os olhos donde estavam, e a bater compassos na mesa com a faca.
— O coração de uma mulher nas minhas condições, disse, medindo as palavras e recitando, como se tivesse os períodos decorados — não é coisa que se conquiste assim com um simples casamento: não haveria nada melhor! O senhor, se quer ter a minha confiança plena, a minha dedicação, a minha ternura, faça por merecê-las... Não será de certo com esses modos e com essa cara fechada, que conseguirá abrir-me o coração! Eu, até, se soubesse que o senhor havia de se portar desta forma, não o teria convidado para almoçar em minha companhia... O senhor fala de farto!... Em vez de agradecer à sua boa estrela a bela ocasião que lhe faculto para principiar a conquistar-me, põe-se nesse estado e parece disposto a incompatibilizar-se comigo por uma vez!
Borges ouviu tudo isso, vergado na cadeira, sem um movimento, os olhos corridos, o rosto anuviado por uma funda expressão de mágoa resignada. Quando a mulher terminou, ele estendeu-lhe um olhar de súplica e tentou agarrar-lhe as pontas dos dedos.
Filomena retirou a mão com um movimento rápido, e voltou-se para o outro lado, dando as costas ao marido. Este arrastou-se com a cadeira para junto da esposa, e, em segredo, a voz medrosa e submissa, perguntou-lhe o que então queria que lhe fizesse?...
— Tudo! respondeu Filomena na mesma posição, a sacudir uma perna, que havia dobrado sobre a outra.
— Mas tudo, como?... perguntou Borges, tentando acarinhá-la.
Ela ergueu-se, demovendo o corpo, e acrescentou, encarando-o:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.