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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Sim, nem podia ser de outro modo... Prometi a Gaspar não voltar a teus braços; confessar­lhe, frente a frente, que me faltou coragem para cumprir a promessa, seria impossível! Prefiro fugir.

— Então, sairemos do Brasil, não é verdade? Iremos por aí afora, numa peregrinação de boêmios felizes. Depois de percorrermos toda a Europa, armaremos em Paris a nossa tenda... Tu serás meu, exclusivamente meu! Tomaremos um modesto alojamento no Bairro Latino; tu te farás muito trabalhador e muito estudioso, e eu um modelo de economia e de simplicidade! Mas convém que o Gaspar não desconfie absolutamente desses nossos projetos e para isso, segredava Ambrosina, abaixando a voz; eu não voltarei à casa, e ele suporá que continuamos brigados... Entretanto, tu cuidarás o mais depressa possível do que pudermos precisar, e dentro de poucos dias, estaremos de viagem! Hem? que te parece?... E pensavas em morrer!

Gabriel olhava para ela com ar idiota. Sua consciência dizia­lhe de dentro que tudo aquilo era mau, era infame; afinal estava o ingrato a conspirar, de parceria com uma mulher sem dignidade, contra o único homem que até aí se mostrara deveras seu amigo e concentrara nele toda a sua família.

E tão seguramente reconheceu Gabriel a razão deste raciocínio, que não se animou desta vez a discutir com a ralhadora da consciência; e, para escapar à maldita voz que o acusava por dentro, pôs­se a pensar nas delícias que lhe oferecia o projeto de Ambrosina. As viagens e os prazeres em companhia dela passaram­lhe pelo espírito num turbilhão vertiginoso; e ele, sem idéia justa de tudo quanto tinha a gozar, via a projetada existência através de um nevoeiro espesso dentre o qual sobressaía sempre o vulto formoso da amante, esse perfeitamente nítido, a estender­lhe os braços nus. Paris, Londres, Madri, surgiam­lhe na mente, como vistas teatrais numa apoteose de seu amor.

— Então? perguntou Ambrosina, afagando­lhe os cabelos; pensas ainda em morer?

— Não! respondeu Gabriel, acordando. Daqui mesmo vou tratar da nossa viagem...

— Pois bem, vai. Mas lembra­te que toda a cautela é pouca! Entendo até que não precisamos fazer provisão de cousa alguma, a não ser de dinheiro... Isso, sim, é que é necessário levar bastante. Meu falecido pai dizia que o dinheiro é a guerra do homem civilizado.

Gabriel fazia cálculos silenciosamente.

É verdade! — sugeriu Ambrosina. E como embolsarás uma quantia maior sem a intervenção de teu padrasto?...

— Isso é o menos! é só encher um cheque contra o banco e terei o dinheiro que quiser! Quanto será necessário?...

— Sei cá! Em todo caso filho, antes de mais que de menos... Não por mim, mas por ti mesmo. Além disso, pelo fato de estar o dinheiro em teu poder, não quer dizer que o gastaremos todo...

— Creio que, se eu levar vinte contos de réis, não precisaremos recorrer tão cedo ao Brasil...

— Decerto. Isso nos dará para passar uma existência inteira!

— Bem! rematou Gabriel, tomando o chapéu e despedindo­se da amante com um beijo. Estamos combinados! Vou tratar da viagem!

Ambrosina, da janela, acompanhou­o com a vista por algum tempo; depois passou ao quarto imediato, onde encontrou Laura atirada sobre a cama, desfeita em pranto.

Apoderou­se dela

— Então! disse sorrindo. Que asneira é essa?... A menina escondeu o rosto, e chorou mais forte.

A outra insistiu nas suas carícias. Tinha a voz meiga e suplicante, e afetava infantis pieguices.

— Então meu benzinho? não queres responder à tua amiguinha? Vamos! fala!...

— Tu te vais embora! balbuciou Laura entre soluços.

Ambrosina beijava­lhe as lágrimas.

— Tolinha! Sabes lá o que estou fazendo! Já não te disse que só a ti amo neste mundo?...

— Mas vais­te embora!

— E tu te sentirás muito com a minha ida?...

A outra respondeu beijando­a repetidas vezes. Ambrosina pensou um instante, e disse depois com firmeza:

— És tu capaz de fugir comigo?

— Sou! respondeu Laura, olhando­a de frente.

— Pois então, fica na certeza de que iremos juntas! Mas... (E fez sinal de silêncio) se deres a alguém uma palavra sobre este assunto, está tudo perdido!...

Laura batia palmas de contente. Uma viagem misteriosa era todo o seu ideal. Não era aquele precisamente o rapto com que ela sonhava, mas em todo caso era um rapto.

— Bom, disse Ambrosina. Temos ainda o que fazer para levarmos a efeito o nosso belo projeto... Dáme papel e pena.

Laura obedeceu.

Ambrosina passou­se para uma mesinha ao canto do quarto. E aí sentada, na meditativa posição de quem se concentra numa complicada idéia, embebeu a pena na tinta, olhou atentamente para a brancura do papel e, afinal, escreveu o seguinte:

"Melo Rosa,

Já falei ao Gabriel, e ele está pela viagem; aparece­me para tratarmos do que tínhamos combinado. Se puderes vir hoje mesmo, será melhor. Eu estou na casa de Jorge, cocheiro do Gaspar. Já sabes onde é. Amo­te! Vem".

A assinatura era um rabisco.

— Mas o que queres fazer com essa carta?... perguntou Laura.

Aí é que a cousa tem dente de coelho! disse Ambrosina, piscando um olho.

Laura abriu muito os dela, e sacudiu os ombros.

(continua...)

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