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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

A menina estava pensativa; doce melancolia desvanecia a vivacidade natural de seu semblante. 

— Tu estás agastada com Peri, senhora? 

— Não, respondeu a menina fitando nele os grandes olhos azuis. Não quiseste fazer o que eu pedi; tua senhora ficou triste. 

Ela dizia a verdade com a ingênua franqueza da inocência. Na véspera, quando se tinha recolhido enfadada pela recusa de Peri, ficara contrariada. 

Educada no fervor religioso de sua mãe, embora sem os prejuízos que a razão de D. Antônio corrigira no espírito de sua filha, Cecília tinha a fé cristã em toda a pureza e santidade. Por isso se afligia com a idéia de que Peri, a quem votava uma amizade profunda, não salvasse a sua alma, e não conhecesse o Deus bom e compassivo a quem ela dirigia suas preces. 

Conhecia que a razão, por que sua mãe e os outros desprezavam o índio, era o seu gentilismo; e a menina no seu reconhecimento queria elevar o amigo e torná-lo digno da estima de todos. 

Eis a razão por que ficara triste; era a gratidão por Peri, que defendera sua vida de tantos perigos, e a quem ela queria retribuir salvando a sua alma. 

Nesta disposição de espírito, seus olhos caíram sobre a guitarra espanhola que estava em cima da cômoda e veio-lhe vontade de cantar. É coisa singular como a melancolia inspira! Seja por uma necessidade de expansão, seja porque a música e a poesia suavizem a dor, toda a criatura triste acha no canto um supremo consolo. 

A menina tirou ligeiros prelúdios do instrumento enquanto repassava na memória as letras de alguns solaus e cantigas que sua mãe lhe havia ensinado. A que lhe acudiu mais naturalmente foi a xácara que ouvimos: havia nessa composição uns longes, um quer que seja que ela não sabia explicar, mas ia com seus pensamentos. 

Quando acabou de cantar levantou-se, apanhou a flor de Peri que tinha atirado ao chão, deitou-a nos cabelos, e fazendo a sua oração da noite, adormeceu tranqüilamente. O último pensamento que rogou a sua fronte alva foi um voto de gratidão pelo amigo que lhe salvara a vida naquela manhã. Depois um sorriso adejou sobre seu rosto gracioso, como se a alma durante o sono dos olhos viesse brincar nos lábios entreabertos. 

O índio, ouvindo as palavras que acabava de proferir Cecília, sentiu que pela primeira vez tinha causado uma mágoa real a sua senhora. 

— Tu não entendeste Peri, senhora; Peri te pediu que o deixasses na vida em que nasceu, porque precisa desta vida para servir-te. 

— Como?... Não te entendo! 

— Peri, selvagem, é o primeiro dos seus; só tem uma lei, uma religião, é sua senhora; Peri, cristão, será o último dos teus; será um escravo, e não poderá defender-te. 

— Um escravo!... Não! Serás um amigo. Eu te juro! exclamou a menina com vivacidade. 

O índio sorriu: 

— Se Peri fosse cristão, e um homem quisesse te ofender, ele não poderia matá-lo, porque o teu Deus manda que um homem não mate outro. Peri selvagem não respeita ninguém; quem ofende sua senhora é seu inimigo, e, morre! 

Cecília, pálida de emoção, olhou o índio, admirada não tanto da sublime dedicação, como do raciocínio; ela ignorava a conversa que o índio tivera na véspera com o cavalheiro. 

— Peri te desobedeceu por ti somente; quando já não correres perigo, ele virá ajoelhar a teus pés, e beijar a cruz que tu lhe deste. Não fica zangada! 

— Meu Deus!... murmurou Cecília pondo os olhos no céu. É possível que uma dedicação tamanha não seja inspirada por vossa santa religião!... 

A alegria serena e doce de sua alma irradiava na fisionomia encantadora: 

— Eu sabia que tu não me negarias o que te pedi; assim não exijo mais; espero. Lembra-te somente que no dia em que tu fores cristão, tua senhora te estimará ainda mais.

— Não ficas triste? 

— Não; agora estou satisfeita, contente, muito contente!  

— Peri quer pedir-te uma coisa. 

— Dize, o que é? 

— Peri quer que tu risques um papel para ele. 

— Riscar um papel?... 

— Como este que teu pai deu hoje a Peri. 

— Ah! queres que eu escreva? 

— Sim. 

— O quê? 

— Peri vai dizer.

— Espera. 

Ligeira e graciosa, a menina correu à banquinha, e tomando uma folha de papel e uma pena fez sinal a Peri que se aproximasse. 

Não devia ela satisfazer os desejos do índio, como este satisfazia às suas menores fantasias? 

— Vamos: fala que eu escrevo. 

— Peri a Álvaro, disse o índio. 

— É uma carta ao Sr. Álvaro? perguntou a menina corando. 

— Sim; é para ele. 

— Que vais tu dizer-lhe?

— Escreve. 

A menina traçou a primeira linha, e depois por pedido de Peri, o nome de Loredano e dos seus dois cúmplices. 

— Agora, disse o índio, fecha. 

Cecília selou a carta. 

— Entrega à tarde; antes não. 

— Mas que quer isto dizer? perguntou Cecília sem compreender. 

— Ele te dirá. 

— Não, que eu... 

A menina balbuciou, corando, estas palavras; ia dizer que não falaria ao cavalheiro e arrependeu-se; não queria revelar a Peri o que se tinha passado. Sabia que se o índio suspeitasse a cena da véspera, odiaria Isabel e Álvaro, só por lhe terem causado um pesar involuntário. 

(continua...)

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