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#Romances#Literatura Brasileira

Helena

Por Machado de Assis (1876)

Ao sentir o braço de Estácio, Helena estremeceu e fez um movimento para arredá-lo de si; mas a fraqueza traiu-lhe o pudor. Ela fitou no moço uns olhos de corça moribunda; as pernas fraquearam, e o corpo esmorecido iria a terra, se lho não sustivessem as mãos de Estácio.

Deixe-me morrer! murmurou ela.

Não! bradou o mancebo.

Com um gesto rápido, tomou nos braços, estendido, o corpo exausto de Helena, e caminhou na direção da casa. O vento flagelava-os; a chuva, que subitamente caía a jorros, alagava-os sem misericórdia; ele ia andando, o mais depressa que lhe permitia o peso de Helena, cuja cabeça pendia para a terra, e de cujos lábios brotavam trechos soltos de frases sem sentido.

D. Úrsula viu entrar aquele doloroso espetáculo; correu a receber Helena, que Estácio depositou em um sofá, donde foi transferida ao leito. A febre, já começada antes dela sair, tomara conta enfim da pobre moça. Um médico foi chamado à pressa; o Padre Melchior correu por baixo d’água até à casa de Estácio. As primeiras horas foram de ansiedade e susto; o estado da doente era grave; assim o disse o médico; assim o tinham já sentido os corações amigos.

D. Úrsula pagou naquela ocasião os serviços que, em caso análogo, lhe prestara Helena, mau grado o peso dos anos, que lhe não permitiam longas vigílias nem aturado trabalho. Velou a boa senhora à cabeceira da enferma durante essa primeira noite de incerteza e terror. Mendonça, que ali fora sem suspeitar nada, porque a doença que lhe disseram ter padecido Helena, supunha ele ser passageira, e em todo caso, estar quase extinta, Mendonça recebeu essa triste notícia com a morte no coração.

Durante sete dias o estado de Helena apresentou alternativas que lançavam na alma dos seus a confiança e a desesperação. Algumas horas houve de delírio, durante o qual dois nomes volviam freqüentemente aos lábios da enferma, — o de Estácio e o do pai. Nas horas da razão, falava pouco, não proferia nenhum nome, salvo o de Melchior que ela queria ver junto de si. O capelão obedecia docilmente. Ao pé dela, via-a com pena, mas sem desesperação; primeiramente, porque ele aceitava sem murmúrio os decretos da vontade divina; depois, porque não sabia ao certo se, em tal situação, era a vida melhor do que a morte. Em todo caso, consolava-a.

No quarto dia chegou a família de Camargo, e, sabendo da doença de Helena, apressou-se a ir a Andaraí. Ao ver Eugênia, a moça sorriu tristemente, lampejo de inveja que para logo se apagou e morreu no coração.

Estácio mal ousava entrar na alcova da doente e não podia viver fora dela. Sua aflição era patente. Ele prometia a si mesmo todos os sacrifícios em troca da vida de Helena, espreitava uma esperança no rosto do médico, e interrogava o coração da tia e do padre. Na noite do sétimo dia da cena do jardim, D. Úrsula, que ficara ao pé de Helena, mandou chamar à pressa o sobrinho e o Padre Melchior, que estavam na sala contígua. Acorreram os dois. Helena tivera uma síncope, que D. Úrsula cuidara ser a morte. Voltando a si, leu a moça a sua sentença no rosto de todos três.

Ainda não, murmurou ela; ainda não é a morte.

D. Úrsula chegou-se-lhe mais perto, beijou-a, disse-lhe algumas palavras de conforto.

Deixe estar, respondeu ela, deixe que eu não morro; estou só muito doente.

Estácio buscou animá-la, mas a voz morreu-lhe às primeiras expressões, e ele saiu.

Melchior acompanhou-o.

Uma coisa poderia talvez salvá-la, disse aflito o moço; era a presença do pai. Vou mandá-lo procurar por toda a parte. Havemos de achá-lo; é preciso que o achemos.

Melchior aprovou a idéia do mancebo; e não lhe disse que o remédio viria talvez tarde, se viesse. Estácio ordenou as coisas para a seguinte manhã. Voltaram à alcova da enferma. Esta fechara os olhos, como se dormisse. Houve então entre aquelas quatro paredes meia hora de silêncio, interrompido apenas, de quando em quando, pelos movimentos que a doente fazia, como a querer mudar de posição. No fim desse tempo, abriu os olhos e murmurou algumas palavras. Chegou o médico, viu-a e desenganou a família.

Enquanto Melchior dava as ordens precisas para que Helena tivesse os socorros espirituais, Estácio saiu dali, para ir, longe, desabafar o desespero; desceu à chácara, vagou por ela delirante, a soluçar como uma criança, ora abraçado a uma árvore, ora ajoelhado e pedindo a Deus a vida de Helena. O coração do moço não conhecia o fervor religioso; mas a imagem da morte deu-lhe o que a vida lhe levara, e ele rezou, rezou sozinho, sem hipocrisia nem dúvida. Mendonça veio achá-lo nessa luta derradeira entre a realidade e a esperança. Não o consolou; não tinha consolações que distribuir, porque também a dor lhe devastara o cora- ção. Nos braços um do outro, choraram o mesmo bem que se lhes ia embora.

(continua...)

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