Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
O guarda-portão do “Céu cor-de-rosa” cantava, sem dúvida no fundo do alpendre, um romance já conhecido de Celina.
“Era um dia um mancebo que ardente “Pobre vida esquecido vivia,
“E uma virgem formosa, inocente,
“Que outra igual não se viu, não se via.
“Quem separa o ardor da beleza?...
“Um abismo fatal: – a pobreza.”
O velho Rodrigues parou no fim da primeira estrofe do romance.
Celina, que havia interrompido o seu belo trabalho para ouvir a voz do guarda-portão esperou debalde que ele prosseguisse, durante algum tempo.
Supondo, enfim, que o velho Rodrigues não prosseguiria em seu canto, tomou outra vez a pena, quando a voz de novo se fez ouvir:
“O mancebo a donzela adorava ....
“Quem o sabe!... ninguém dele ouviu.
“Em seu peito esse amor sepultava, “Se o amor em seu peito nutriu,
“E se amava, era triste esse amar;
“Era um mudo e terrível penar.”
O canto, como antes sucedera, parou no fim da estrofe.
– Que quererá isto dizer? perguntou a si mesma a “Bela Órfã”, por que é que o velho Rodrigues canta e se suspende no fim de cada estrofe?... esta é a hora em que mutuamente nos fazíamos ouvir. Quererá ele assim lembrar-me o que tenho esquecido?... mas por que escolheu, para chamar-me, o romance que exprime um segredo do meu coração?...
A voz fez-se ouvir pela terceira vez. Celina ergueu-se meio agitada.
O guarda-portão do “Céu cor-de-rosa” prosseguindo no seu canto, saltou pela terceira estrofe do romance, e cantava a quarta:
“O que é feito da virgem, do pobre?... “Quando o dia voltar to direi; “Negro manto da noite nos cobre.
“Ela dorme... mas ele... não sei.
“E’ na terra das trevas o véu;
“Vagam sonhos... mistérios do céu.”
A voz parou como até então fizera, e a “Bela Órfã”, guardando apressadamente os seus papéis, saiu do quarto, desceu a escada, e entrou na sala.
Não havia ninguém aí.
Celina sentou-se ao piano, e começou a tocar uma música terna e melancólica. O velho Rodrigues apareceu à porta da sala, e aproximou-se com seu andar vagaroso.
– Tinha-se esquecido de mim, senhora, disse ele.
A moça abaixou a cabeça, e respondeu:
– Tenho passado mal.
– Está doente?...
– Não estou boa.
– Acha-se hoje melhor?
– Não.
– Talvez que nesse caso possa a música incomodá-la.
– Ao contrário.
– Quer cantar?...
– Não; quero ouvir.
– Escolha o que quiser, senhora.
A moça hesitou; mas enfim respondeu com a cabeça baixa:
– O mesmo romance que estava cantando há pouco.
O velho Rodrigues começou de novo a cantar o “Sonho da Virgem”.
Quando o canto terminou, a “Bela Órfã” deixou cair a cabeça, e ficou pensativa.
Depois de algum tempo de silêncio, o velho perguntou:
– Por que está triste assim?
– Não sei; respondeu a moça.
– Faz-lhe mal ouvir este romance?
– Não; faz-me bem.
– Mas essa tristeza deve ter forçosamente uma causa... qual é ela?...
– Eu não sei, tornou a moça enxugando uma lágrima.
O velho fingiu não ver essa lágrima, e prosseguiu dizendo:
– Parece que a melancolia é a moléstia reinante da quadra atual.
– Por quê?...
– Tenho um bom amigo padecendo do mesmo mal.
A moça não disse nada.
– Um bom amigo, que a senhora também conhece.
– Quem é ele?
– O sr. Cândido.
Celina olhou espantada para o guarda-portão, mas para logo abaixou os olhos rubra de pejo.
O velho deixou que a “Bela Órfã” serenasse, e depois continuou:
– É um bom moço aquele sr. Cândido.
A moça não respondeu.
– Não pensa como eu? perguntou o velho.
– Penso, murmurou Celina.
– Pois o infeliz moço anda agora bem triste; e desgraçadamente com razão.
A “Bela Órfã” fez um leve movimento.
– Incomodo-a, senhora?
– Não.
– Dizia pois que o sr. Cândido tinha bastante razão para andar triste...
ofenderam-no gravemente...
– Sinto isso, balbuciou a moça.
– E há de sentir mais quando souber que se serviram do seu nome para ofendê-lo...
– Do meu nome?... disse a moça estremecendo, e levantando ao mesmo tempo a cabeça.
– Do seu nome, repetiu o velho.
– E como? e por quê? eu não sei, eu não suspeito coisa alguma...
– Estou certo disso, senhora; mas o fato é grave, e eu não sei se cometo uma imprudência falando-lhe desse assunto.
– Não, não, fale; eu lhe peço que fale.
– Pois bem, eis aqui o que se passou: o sr. Cândido foi política, mas formalmente despedido desta casa.
– Quando?... exclamou com traidora comoção a “Bela Órfã”.
– Na noite de seus anos.
– E por quê?
– Por sua causa.
– Por minha causa?... meu Deus!... disse a moça com lágrimas nos olhos.
– Sim, minha senhora: sua tia teve com o sr. Cândido uma entrevista no jardim; quer saber o que ela disse? que nesta sala zombava-se da senhora, dizendose que a senhora e o pobre mancebo se amavam...
– É falso!.. isso não é verdade.
– E que em conseqüência dessas zombarias fora a senhora queixar-se a ela de que seu nome estava exposto às calúnias e à maledicência por causa do sr. Cândido.
– Meu Deus! Meu Deus!...
– Que a senhora fizera notar que esse mancebo, apesar de suas boas qualidades, não estava pelo estado de pobreza em que se acha, na posição de pretendê-la.
– Oh! mas eu não disse nada.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.