Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
E madame gorda sempre a engordar cada vez mais fisicamente, sentindo-se, por justa punição de pecado, emagrecer economicamente, trancou as portas de sua loja de modas, e foi longe do Brasil maldizer da vil condescendência com que se prestara a servir ao impudor das alcazarinas. É caso de dizer - bem-feito.
A outra loja, também célebre, menos moderna, porém, ocupou a casa quase fronteira da de madame gorda, e que hoje é muito conhecida pela sua denominação de Dois Oceanos, como se não fosse bastante um oceano só para afogar os fregueses.
Desde perto de quarenta anos floresceu nessa casa a loja das judias; a denominação escrita na tabuleta não era essa; o público, porém, não conhecia nem admitia outra.
A loja era de modas, nela, além de se fazerem vestidos, vendiam-se chapéus e diversidade de enfeites para senhoras.
O chefe e dono do estabelecimento era um francês (alsaciano) judeu, cujo nome não sei, mas notabilíssimo por ser pai de três bonitas filhas, três judias jovens, solteiras e espertas, que eram as principais recomendações da loja.
Declaro que vi muitas vezes e sem o menor perigo para a minha virtude madame gorda e sua irmã quase magra, mas não tenho idéia, ou não conservo lembrança, das três judias, que representavam o contraste daquelas duas irmãs.
Informam-me que a loja das judias foi muito afreguesada, teve fama e crédito e que as três jovens bonitas, faceiras e de afabilíssimo trato, judias que eram, judiaram o mais que é possível com dezenas de elegantes mancebos, e com alguns ridículos velhos, que se enamoraram delas.
As judias deixavam-se namorar, sorriam-se aos namorados, faziam vestidos e vendiam chapéus e enfeites às esposas, às filhas e às irmãs dos seus apaixonados, judiavam com estes, e se conservavam honestas.
Dizem-me que das três irmãs a segunda na conta dos anos, e eram vinte neste tempo, a segunda que, apesar do - in medio posita do virtus, foi a menos contida, ou a mais ousada, muito urgida por um seu ardente apaixonado, que era então membro da Câmara dos Deputados, dera-lhe, o mil vezes pedido, longo anel de seus cabelos louros a troco de um colar de finas pérolas.
O ilustre parlamentar, que foi realmente ilustre e depois senador, etc., pensou que podia tecer com os cabelos do áureo anel lisonjeira corda para prender a judia, mas que havia de acontecer?... a Câmara foi dissolvida, e o deputado dissoluto, voltando à loja das judias, e ali fazendo à namorada proposições terníssimas, recebeu em resposta a mais cruel judiação:
- Ah, doutor!... palavra de honra, depois da dissolução da Câmara o seu amor não pode mais entrar na ordem do dia.
O ex-deputado teve o bom-gosto de rir-se, mas saiu da loja desapontado; mais tarde, quando era senador, e foi mais alguma coisa, já as judias tinham-se retirado da cidade do Rio de Janeiro e recolhido à França.
Uma delas casou-se aqui, creio que com um judeu a quem. amava; das outras não sei; deixaram fama de judiação namoradeira, mas sem descrédito aviltador.
Ganharam bom dinheiro na loja e zombaram dos namorados intencionais-sedutores.
Direito perfeito: eram judias, e como tais judiaram.
Madame gorda e madame quase magra, sua irmã, multiplicadas por si mesmas, não valiam o próprio colar de pérolas que a troco do anel de seus cabelos louros recebeu menos dignamente de seu apaixonado a segunda das três judias.
Acabam aqui os anexos; segue porém como apêndice a historieta que prometi, e que vai sem declaração da loja e do ano em que se passou para que não me acusem de leviandade.
Mr. Tal estava de mau humor e com alguma razão, tendo encontrado entre outras sedas e fazendas em remessa chegada de Paris dez cortes de seda para vestidos, todos de padrão igual e horrivelmente espantador com extravagante mistura de cores vivíssimas, e de ramagens grandes e pequenas amarelas, vermelhas, negras, etc.
Mr. Tal não quis expor semelhante espanta-freguesas. Mr. Qual, porém, que era desde algum tempo sócio em parte dos lucros da loja, jurou que venderia todos os dez cortes, e pôs um deles suficientemente desenrolado na vidraça.
Mr. Tal disse ao sócio:
- Venda-os a todo preço, a quarenta mil réis ou menos cada um, se aparecerem gostos estragados a comprá-los.
No primeiro dia não houve homem ou senhora que, passando por defronte da loja, não indicasse como que admiração e repugnância, vendo tão espantadora e medonha seda.
Mas no dia seguinte a uma hora da tarde parou de repente à porta da loja bonito faetonte tirado por cavalos negros, trazendo dentro (não dos cavalos, mas dele faetonte) recostada em entorso Mlle Bibi (nome que lhe dou) com os cabelos à Madalena, et coetera.
Mademoiselle saltou do faetonte, entrou na loja e pediu para examinar a seda, que Mr. Qual, acudindo logo, apresentou-lhe dizendo:
- Última e delirante moda de Paris! recebemos vinte cortes desta seda, e só nos resta este que éo último: vestido a - je ne veux pas qu'on m'aime! - Mme Mac Mahon há pouco mais de um mês fez com um destes vestidos verdadeiro furor no baile do Eliseu.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.