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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

Mas o estado de Maria do Carmo não inspirava cuidados. O útero revigorava, funcionando com a regularidade precisa duma excelente máquina moderna, por sinal Maria, desde que se mudara para a Aldeota, nunca mais sentira pontadas.

O amanuense exultava, alegre e feliz. A princípio receara um aborto, mas agora tinha a certeza de que triunfavam as qualidades procriadoras da rapariga.

— É, pensava ele, roendo o canto das unhas. Um bom útero é tudo na mulher: equivale a um bom cérebro!

E esquecia-se a filosofar na vida intra-uterina, admirando-se muito de que uma simples gota de esperma pudesse gerar um homem!

CAPÍTULO XIV

A ausência de Maria do Carmo não passou despercebida às rodas de calçada e aos freqüentadores do Café Java, cujo tema quotidiano — a política — não lhe satisfazia o prurido de entrar pela vida alheia a esmiuçar escândalos como quem procura agulha em palheiro.

Nas portas de botica, nos cafés, nas repartições públicas, no mercado, em toda parte comentava-se o desaparecimento da normalista, em tom misterioso e com risadinhas sublinhadas a princípio, depois abertamente, sem rebuços, com uma ponta de perfídia traindo a sisudez convencional da burguesia aristocrata.

Que tinha ido tomar ares a Maracanaú, afirmavam uns acentuando a ironia; outros — que andava adoentada de uma pneumonia “proveniente de arranjos na madre”; outros — que estava proibida de sair à rua e de chegar à janela por desconfianças do amanuense. Alguns, porém, como o José Pereira, comunicavam secretamente, pedindo toda a cautela, que a rapariga tinha sido raptada por um paraense e que se achava depositada no Cocó, em casa de uma tal Joaquina Xenxem, por sinal o Manoel Pombinha, tipógrafo, “os vira passar uma noite embuçados numa capa preta”, caminho do Outeiro.

Na Escola Normal rebentavam suspeitas à flor das discussões que preenchiam o intervalo das aulas.

Quem, a Maria do Carmo? Aquela mesma não era mais moça, não, meu bem... Ela sempre fora muito metida a aristocrata, por isto mesmo caíra nas mãos de um Zuza. Era bem feito! Uma grandíssima orgulhosa com carinha de santa. Aí estava a santidade...

Vinham à baila casos análogos de filhas-famílias que tinham ido para fora da cidade tomar ares e, no fim de contas, iam mas era “desembuchar” onde ninguém pudesse ver...

— Então, já apareceu a rapariga? perguntava-se com interesse.

O Guedes ardia em desejos de saber a verdade nua e crua. Diabo de tantas histórias e ninguém descobria a incógnita do problema.

Aproveitou uma ocasião em que João da Mata jogava a bisca no Zé Gato. O amanuense estava já um pouco atordoado pela cachaça.

— É agora! pensou o redator da Matraca, e formalizou-se, carregando o chapéu para a nuca.

— Então é verdade o que se diz por aí, ó João?

— Sobre os amores secretos do falecido presidente?

— Não, homem, não é essa a ordem do dia. Isso passou. A questão é outra.

— Desembucha!

— Pergunto se é verdade o que corre sobre...

— ... Sobre a Maria do Carmo? Uma calúnia, seu Guedes, uma calúnia! Você bem conhece este povo.

— Eu já tinha dito isso mesmo a alguns amigos: que a D. Mariquinha era incapaz de semelhante procedimento.

— Idem, idem, atalhou o Perneta embaralhando as cartas. Essa é a minha opinião.

— E que fosse verdade, continuou João da Mata partindo o baralho, e que fosse verdade, não era da conta de ninguém!

— Que dúvida! confirmou o Guedes.

— Mando copas, rosnou a amanuense.

E o jogo continuou sem que o Guedes soubesse a verdade.

Mas, ao retirarem-se cerca de meia-noite, interpelou novamente o amanuense na esquina, à luz de um lampião. João da Mata cambaleava, equilibrando-se, a praguejar contra o calçamento das ruas e contra a Câmara Municipal. A rua do Trilho perdia-se na escuridão, silenciosa como um subterrâneo.

O Guedes tinha tomado pouco nessa noite e fumava o seu cigarro com um grande ar de superioridade, pisando forte, o gesto largo e o paletó aberto num abandono frouxo de boêmio.

— Cuidado, não vá cair, avisava com as mãos nos ombros do outro.

— Qual cair nada, homem! Pensas tu que estou bêbado, hein? Estás muito enganado! O diabo dos óculos escuros é que não me deixam ver bem...

— Por aqui, por aqui, guiava o Guedes, cauteloso. Espera, vais fumar um cigarrinho fino...

Pararam. Um polícia passou do outro lado da rua, sonolento e lúgubre.

Então o redator da Matraca abraçando o amigo pelo pescoço, depois de lhe ter dado o lume:

— Tu não me quiseste ser franco ainda agora na presença do Perneta, mas nós somos amigos... tu sabes... Aonde diabo meteste tu a rapariga?

João cuspinhou para o lado.

— Hein?

— A Maria do Carmo, onde anda ela?

— Ah! seu marreco, você quer saber onde está a rapariga, hein? Pois não lhe digo, não...

— Fala sério, homem. Dizem que está no Cocó, que teve um filho?... Juro-te como esta boca não se abrirá... Sentemo-nos aqui um pouquinho, que ainda não deu meia-noite.

Sentaram-se à beira da calçada, debaixo do gás, e o amanuense, encostando-se à coluna do lampião, o chapéu, o inseparável chile enterrado na cabeça, foi dizendo à meia voz.

(continua...)

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