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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Macário, ajudando o senhor vigário naquela fastidiosa e longa tarefa, que durara até à hora do jantar, estava tranqüilo. Não se podia tratar de outra coisa senão dum passatempo, e posto que notasse o olhar de satisfação e de amorpróprio que o padre lançara ao trabalho ao despedir-se dele, comera com muito apetite e contentamento.

Ao cair da tarde, antes de se recolherem à casa, para fugir à perseguição dos carapanas e à insipidez duma noite sem lua, foram ainda ao porto correr a superfície do lago com a vista ansiosa.

Nada ainda. A noite caía, ensombrando o lago e mergulhando nas trevas a floresta de tucumas e muritis que circundava a cabana.

O sacristão de Silves tocava o primeiro sinal da missa conventual nos pequenos sinos da Matriz, num domingo de festa. A população, de volta dos castanhais, corria pressurosa ao templo, enchendo o adro de sobrecasacas de lustrina compridas e respeitáveis, de jaquetas de ganga, de saias de chita verde e de cabeções bordados à moda da Madeira, deixando entrever a pele morena e acetinada das mulatinhas faceiras e das caboclinhas sérias, de pisar duro que lhes faz tremer os seios. O capitão Manuel Mendes da Fonseca, de largas calças brancas engomadas, sobrecasaca aberta, chapéu de Manilha rico e raro -última lembrança do Elias - cavaqueava à porta da igreja com o tenente Valadão, que lhe contava como apanhara o João e o Pedro com a boca na botija, pretendendo vender ao Mapa-Múndi um chicote de tabaco de Irituia e dois ternos de riscadinho, novos em folha. O Dr. Natividade dizia numa roda, em que estava o professor Aníbal, que o Bernardino Santana conseguiria dele tudo quanto quisesse em castigo do Totônio, pois não esquecera a noite do casamento do Cazuza, e, graças a Deus, não estava acostumado a receber desfeitas. O Regalado dizia ao Costa e Silva muito mal do Felício boticário, que, magro, seco, parecendo filho do Valadão, receitava uns emplastros ao Neves Barriga para a cura completa de tumores. D. Prudência chegava, conversando com D. Dinildes sobre uma receita nova para fabricar cocada amarela. Estavam ambas vestidas com muito luxo, assim como todas as senhoras que aquele domingo concorriam à Matriz de Silves, enquanto o sacristão, olhado com inveja pelo José do Lago e pelo afilhado do Valadão, tocava alegremente os pequenos sinos musicais. Mas entre todas as mulheres sobressaía a rainha das formosas, a esplêndida Luísa, de vestido de lá, refolhado e rico, de botinas de duraque cor de canário, chapelinho à Garibaldi, vistoso e novo, lançando ao Macário um olhar de fogo que o obrigava a repicar os sinos, com entusiasmo dobrado, como se só para a Luísa repicasse, e quando mais enlevado estava, sentindo-se atordoado pelo ruído argentino dos sinos, e excitado pela presença da formosa criatura que lhe ocupava os pensamentos, ouviu a voz sonora e grave de padre Antônio de Morais, cortando subitamente o ar, como se o chicoteasse em pleno rosto:

— Sabe que mais, Macário? Vamos continuar a viagem, esta madrugada.

Macário despertou esfregando os olhos. A Luísa, os sinos, o adro, o capitão Fonseca, o Dr. Natividade, o povo todo sumiu-se na penumbra. Macário pulou da rede, ainda entontecido pelo sonho em que se deleitava. Sonhara mesmo, ou estava sonhando agora, ouvindo falar em viagem aquela madrugada? Fora um pesadelo que lhe dera pela muita banana que comera ao jantar? Ai, não! À beira da rede estava o padre, de olhos febris e fisionomia dura, a repetir-lhe:

— Vamos continuar a viagem esta madrugada.

Macário não acreditava. O ardor do sol que o senhor vigário suportara durante o dia, na faina de obsequiar a hospedeira, calafetando-lhe a montaria, ter-lhe-ia transtornado a bola? Continuar a viagem, como, se não tinham embarcação, nem camaradas, nem víveres? Chegara o Guilherme, aparecera algum regatão, o tenente Valadão por acaso surpreendera a igarité furtada e a mandara ao padre por homens de confiança? Esta hipótese era inadmissível porque o tempo não permitiria tão rápida diligência.

(continua...)

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