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#Romances#Literatura Brasileira

O Cortiço

Por Aluísio Azevedo (1890)

E os níqueis do troco rolaram no chão, fugindo por entre os dedos do mulato, que os tinha duros na tensão muscular da sua embriaguez.

— Que horas são? perguntou Pataca, olhando quase de olhos fechados o relógio da parede. Oito e meia. Vamos a outra garrafa, mas agora pago eu!

Beberam de novo, e o coadjutor de Jerônimo observou depois:

— Você hoje ferrou-a deveras! Estás que te não podes lamber!

— Desgostos... resmungou o capoeira, sem conseguir lançar da boca a saliva que se lhe grudava à língua.

— Limpa o queixo que estás cuspido. Desgostos de quê? Negócios de mulher, aposto!

— A Rita não me apareceu hoje, sabes? Não foi e eu bem calculo por quê!

— Por quê?

— Porque a peste do Jerônimo voltou hoje à estalagem!

— Ahn! não sabia!... A Rita está então com ele?...

— Não está, nem nunca há de estar, que eu daqui mesmo vou à procura daquele galego ordinário e ferro-lhe a sardinha no pandulho! — Vieste armado?

Firmo sacou da camisa uma navalha.

— Esconde! não deves mostrar isso aqui! Aquela gente ali da outra mesa já não nos tira os olhos de cima!

— Estou-me ninando pra eles! E que não olhem muito, que lhes dou uma de amostra!

— Entrou um urbano! Passa-me a navalha!

O capadócio fitou o companheiro, estranhando o pedido.

— É que, explicou aquele, se te prenderem não te encontram ferro...

— Prender a quem? a mim? Ora, vai-te catar!

— E ela é boa? Deixa ver!

— Isto não é coisa que se deixe ver!

— Bem sabes que não me entendo com armas de barbeiro!

— Não sei! Esta é que não me sai das unhas, nem para meu pai, que a pedisse!

— E porque não tens confiança em mim!

— Confio nos meus dentes, e esses mesmo me mordem a língua!

— Sabes quem vi ainda há pouco? Não és capaz de adivinhar!...

— Quem?

— A Rita. — Onde?

— Ali na Praia da Saudade.

— Com quem?

— Com um tipo que não conheço...

Firmo levantou-se de improviso e cambaleou para o lado da saída.

— Espera! rosnou o outro, detendo-o. Se queres vou contigo; mas é preciso ir com jeito, porque, se ela nos bispa, foge!

O mulato não fez caso desta observação e saiu a esbarrar-se por todas as mesas. Pataca alcançou-o já na rua e passou-lhe o braço na cintura, amigavelmente.

— Vamos devagar... disse; se não o pássaro se arisca!

A praia estava deserta. Caia um chuvisco. Ventos frios sopravam do mar. O céu era um fundo negro, de uma só tinta; do lado oposto da bala os lampiões pareciam surgir d’água, como algas de fogo, mergulhando bem fundo as suas trêmulas raízes luminosas.

— Onde está ela? perguntou o Firmo, sem se agüentar nas pernas. — Ali mais adiante, perto da pedreira. Caminha, que hás de ver!

E continuaram a andar para as bandas do hospício. Mas dois vultos surdiram da treva; o Pataca reconheceu-os e abraçou-se de improviso ao mulato.

— Segurem-lhe as pernas! gritou para os outros.

Os dois vultos, pondo o cacete entre os dentes, apoderaram-se de Firmo, que bracejava seguro pelo tronco.

Deixara-se agarrar — estava perdido.

Quando o Pataca o viu preso pelos sovacos e pela dobra dos joelhos, sacou-lhe fora a navalha.

— Pronto! Está desarmado!

E tomou também o seu pau.

Soltaram-no então. O capoeira, mal tocou com os pés em terra, desferiu um golpe com a cabeça, ao mesmo tempo que a primeira cacetada lhe abria a nuca. Deu um grito e voltou-se cambaleando. Uma nova paulada cantou-lhe nos ombros, e outra em seguida nos rins, e outra nas coxas, outra mais violenta quebrou-lhe a clavícula, enquanto outra logo lhe rachava a testa e outra lhe apanhava a espinha, e outras, cada vez mais rápidas, batiam de novo nos pontos já espancados, até que se converteram numa carga continua de porretadas, a que o infeliz não resistiu, rolando no chão, a gotejar sangue de todo o corpo.

A chuva engrossava. Ele agora, assim debaixo daquele bate-bate sem tréguas, parecia muito menor, minguava como se estivesse ao fogo. Lembrava um rato morrendo a pau. Um ligeiro tremor convulsivo era apenas o que ainda lhe denunciava um resto de vida. Os outros três não diziam palavra, arfavam, a bater sempre, tomados de uma irresistível vertigem de pisar bem a cacete aquela trouxa de carne mole e ensangüentada, que grunhia frouxamente a seus pés. Afinal, quando de todo já não tinham forças para bater ainda, arrastaram a trouxa até a ribanceira da praia e lançaram-na ao mar. Depois, arquejantes, deitaram a fugir, à toa, para os lados da cidade.

Chovia agora muito forte. Só pararam no Catete, ao pé de um quiosque; estavam encharcados; pediram parati e beberam como quem bebe água. Passava já de onze horas. Desceram pela Praia da Lapa; ao chegarem debaixo de um lampião, Jerônimo parou suando apesar do aguaceiro que cala.

— Aqui têm vocês, disse, tirando do bolso as quatro notas de vinte mil-réis.

Duas para cada um! E agora vamos tomar qualquer coisa quente em lugar seco. — Ali há um botequim, indicou o Pataca, apontando a Rua da Glória.

Subiram por uma das escadinhas que ligam essa rua à praia, e daí a pouco instalavam-se em volta de uma mesa de ferro. Pediram de comer e de beber e puseram-se a conversar em voz soturna, muito cansados.

(continua...)

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