Por Aluísio Azevedo (1882)
O pai de Olímpia ainda então se achava no comércio ativo, de sociedade com um tal João Figueiredo, tão comendador como ele, porém muito menos fino e menos traquejado nas salas. O nosso Portela era caixeiro da casa. Nesse tempo, como deve saber o leitor, os empregados do comércio não gozavam em geral de certas regalias, que só mais tarde lhes foram conferidas pelos patrões. O bigode, a gravata, o fraque, por exemplo, eram fruto proibido para os caixeiros.
Entrar em um café, fumar um charuto, saber dançar uma quadrilha francesa, tudo isto, para os infelizes moços, eram verdadeiros crimes de lesa-moralidade comercial. Mas o comendador Ferreira não se deixava levar por tão mesquinhos preconceitos e dava aos seus empregados plena liberdade de deixar crescer o bigode, vestir um fraque, penetrar nos raros cafés dessa época e fumar os charutos que quisessem.
O Figueiredo opunha-se amargamente contra semelhante liberdade do sócio.
— Você me quer estragar os rapazes!... dizia ele, penetrado de um grande desgosto. Pois você não vê, seu Ferreira, como tudo por aí anda lá tão desmoralizado!... Não vê como hoje só há pelintras?! Não vê que hoje em dia os rapazes, em vez de aproveitarem o domingo para ir à missa, querem ir fumar charutos ao Passeio Público e meter-se à tarde na patifaria do teatro?!...
E o Figueiredo, possuído cada vez mais da sua indignação, revoltava-se contra o sócio; mas o comendador Ferreira não se deixava catequizar e continuava a dar folga aos rapazes.
É porém seguro que, entre os caixeiros da casa, só um se aproveitava verdadeiramente dessas regalias, e esse era o Portela. Aos domingos, em vez de ir para o canto da rua, como faziam seus companheiros, assentar-se a um banco de pau e ver quem passava, o pretensioso caixeiro ataviava-se com roupas de casimira francesa, metia um charuto entre os dentes, e punha-se de passeio pelas ruas. Estas especialidades davam-lhe aos olhos das moças suas conhecidas certa distinção simpática: Portela era citado por ela como a flor dos rapazes do comércio.
E o fato é que ficava um rapagão, quando envergava o fraque de pano fino, vestia um par de calças novas, armava o seu chapéu alto e ganhava a rua, rangendo as botinas e picando a calçada com a biqueira da bengala. Dos empregados do nosso comendador foi ele o único que compareceu ao casamento do patrão. O Figueiredo teve uma vertigem quando o viu chegar de carro e casaca.
— Ora com efeito!... resmungou o caturra, a sacudir a cabeça. E afastou-se para não disparatar ali mesmo com o sócio.
Portela dirigiu-se mais de uma vez à noiva? felicitou-a, disse-lhe palavras muito bonitas e pediu-lhe que lhe reservasse um dos seus alfinetes dourados. À mesa ergueu-se com desembaraço para brindar o patrão, e seu discurso foi muito bem recebido. Desde esse dia o comendador o convidou para jantar aos domingos, e Portela não faltou a nenhum deles. Às vezes havia dança e ele dançava; se havia jogos de prenda, brincava; e, se havia meninas solteiras, namorava.
D. Teresinha, como tratava ele a mulher do patrão, não lhe votava entretanto mais do que uma pequena estima, mais generosa que outra coisa, e perfeitamente compreendida no círculo dos seus deveres conjugais.
Por essa época já ela estava grávida das duas gêmeas a que nos referimos. O tempo passou; nasceram as meninas, e Portela sempre a freqüentar a casa do comendador, cada vez mais considerado e mais querido.
Quando a peste, que nessa época assolava o Rio de Janeiro, entrou em casa do bom negociante e lhe arrebatou dos braços os adoráveis frutos do seu segundo matrimonio, o pobre homem recebeu o golpe em cheio no coração e caiu desanimado e sem forças. Portela foi o único que teve o segredo de distraí-lo da desgraça, chamando-o de novo à vida.
Foi então que uma forte ralada dos ventos da velhice se atirou de súbito contra a tal janela e abriu-a de par em par. O comendador envelheceu da noite para o dia.
A transição da virilidade para a decrepitude é tão sobressaltada como a passagem da meninice para a puberdade. O desgraçado sentiu faltar-lhe a coragem para tudo; não queria festas, não queria distrações; o próprio trabalho já não tinha para ele nenhum dos atrativos de outrora. E, enquanto os fatos assim se sucediam, o Portela empregava todos os esforços para alcançar a mão de Olímpia, cujos encantos principiavam a vestir as galas da mulher, resplandecendo dentro da auréola de seus quinze anos. Distinta, rica, inteligente e formosa, a filha do comendador representava, para o caixeiro, o melhor partido que este poderia ambicionar.
O comendador estava por tudo; só faltava que a menina se resolvesse. Ela recusou. O pai tentou ainda defender a pretensão do amigo; Olímpia voltou-lhe as costas.
Foi por esse tempo que o comendador, sentindo-se esgotado e precisando descansar, resolveu sair do comércio ativo. João Figueiredo, logo que liquidou as contas do sócio e ficou só, declarou ao Portela que não o suportaria nem mais uma semana em sua casa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.