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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Não foi preciso muito para que Zefinha compreendesse que os sonhos de Coelho, seus pensamentos, suas ambições afetivas tinham por objeto outra mulher. Mas, por infelicidade, já sentia ela por ele todos os estremecimentos que revelam a existência da paixão. Herpe, corrosivo, o amor infeliz alastrava suas vesículas peçonhentas pelo coração virgem da rapariga, envolvendo-o em camada de fogo que o abrasava. Ela sentia o rapaz nos olhos, na fantasia, na luz, na sombra, entre a costura e a agulha, entre o sorriso e as lagrimas, entre a esperança vã e o desengano previsto ou adivinhado. ‘Ele não quer saber de mim’ dizia Zefinha em seu entendimento. E chorava tristemente. Mas se Coelho aparecia, já ela sorria de novo, não porque volvesse a acreditar, como nos primeiros tempos que o português retribuía o seu afeto, mas porque sua doce imagem lhe trazia o prazer que fugia quando ele se ausentava. A poder do esforço, Zefinha mostrou-se aparentemente senhora de sua paixão. Sem indiferenças despeitosas, sem contentamentos exagerados, ela conseguiu levar ao espirito de seu pai e ao do próprio Coelho a convicção de que, se não era feliz, também não era desgraçada; que sobre o lago azul dos seus afetos pairava a calma da inocência; que por ai não sopravam os vulcões que revolvem o céu de anil da mocidade, e são antes lavas abrasadas do que sopros de tormenta.

Para chegar a tamanho resultado a moça pôs em contribuição toda sua energia, que nunca fora tão grande nem tão bem sucedida. Aquela natureza, a modo de morna e indolente, acendeu-se para a luta, e com suas próprias forças pode triunfar de se mesma. O espirito dominou tiranamente o coração. O bom senso impôs silencio ao desprezado afeto. Poucas lutas interiores já foram maiores em uma mulher ignorante e de vulgar condição do que a sustentá-la nesse asfixiar de um amor imenso que morria às mãos de quem o devia ameigar e chegar bem ao seio, como fazia às rolinhas gentis de casa. Pelo proceder da filha veio Jeronimo a conhecer que seus desejos e esperanças estavam longe de ser preenchidos. O descontentamento, o pesar trouxe a frieza, não a quebra das relações de amizade que o prendiam ao negociante. Esta frieza durou pouco, porque de certo dia em diante Coelho, fazendo-se mais assíduo em casa do marchante, reanimou, por seu modo de tratar Zefinha, no espirito do pai dela a quase de todo extinta esperança. Se para Ter explicação desta rápida e inesperada mudança o marchante houvesse podido penetrar no espirito de Coelho, teria achado aí a seguinte ordem de idéias: Despeitado com João da Cunha, voltava-se para Jeronimo, fazia-o entrever a possibilidade de vir ele Coelho a casar com Zefinha, e por este meio chamava para seu lado o primeiro elemento de hostilidade aos nobres de Goiana, o dito Jeronimo, que por seus sentimentos francamente populares, era o homem mais próprio para levantar as massas e encaminhá-las ao fim que lhe aprouvesse.

Fosse que, desconhecendo a política tortuosa e dissimulada que certos homens, práticos em explorar as paixões alheias, usam no seu próprio interesse, se prestava de boa fé ao calculo do jovem europeu; fosse que obedecia simplesmente a impulsos do seu coração, votado ao povo por quem era capaz de derramar a ultima gota do seu sangue; fosse que só tinha em mente, concorrendo com todos os auxílios possíveis a Coelho, penhorá-lo pela gratidão, a fim de tornar fácil a retribuição dos seus serviços com o desejado consorcio, o certo é que Jeronimo se identificou com a causa dos mascates fervorosamente, arrastando após de se seus filhos, amigos, afeiçoados, o próprio povo, segundo se vê pela história.

O que se pode considerar fora de duvida é que Antonio Coelho não tinha grande empenho no aniquilamento da nobreza, mas no de um nobre, João da Cunha, nem pensava verdadeiramente em outra mulher que não fosse d. Damiana. Completemos com algumas palavras mais o esboço desse caracter, que vem na historia da guerra a par com o de Jeronimo Paes.

Tendo chegado ao Brasil de pequena idade, cedo revelou Coelho particulares propensões para a vida comercial, pelos progressos que fez. Quando João da Cunha o conheceu, era ele caixeiro em um dos armazéns do Recife. Ou por suas feições e maneiras atrativas, ou por seu talento que talvez fosse ainda mais atrativo do que as feições, o certo que o senhor-de-engenho, simpatizando vivamente com ele, convidou-o para recebedor de seus açucares em Goiana, convite que o jovem Antonio aceitou, atentas as vantagens prometidas pelo sargento-mór. Ali os seus serviços cedo atraíram-lhe tantos créditos que em poucos anos Coelho foi geralmente estimado na vila, e conhecido no Recife; teve entrada nas principais casas comerciais destes dois centros; enfim tratou de estabelecer-se por sua conta. Revelando suas intenções a João da Cunha, em vez de se opor a elas, o senhor-de-engenho fez que ele as realizasse logo, e a este efeito lhe prestou os necessários auxílios.

(continua...)

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