Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Era melhor não ler.
Um único de seus antigos costumes conservou intacto: ao romper da aurora ia sempre ao seu jardinzinho colher um botão de rosa... quem sabe se ele a observava oculto atrás da janela?
Era sempre uma esperança a de ser vista assim tão abatida e tão triste.
Até o velho Rodrigues perdera com as mudanças do viver da “Bela Órfã”; as sestas não se renovaram mais. E ele nem ouvia a doce voz de Celina, nem podia, acompanhado por ela, entoar suas baladas e antigos romances.
Foi indo assim a moça admirada de que ninguém, nem seu avô, nem sua tia, dissesse uma só palavra notando a ausência de Cândido, até que chegou a noite do segundo serão, depois da de seus anos.
O moço do “Purgatório-trigueiro” faltou a esse, como tinha faltado ao primeiro.
A aflição da “Bela Órfã” subiu de ponto. Ela conheceu que já tinha lágrimas que derramava em segredo, para esvaziá-lo; conheceu que lhe era absolutamente preciso, para ser consolada, falar a preço mesmo do que sofreria seu pudor de virgem.
Lembrou-se de uma sua amiga.
No fim do serão chamou Mariquinhas de parte, e disse-lhe:
– D. Mariquinhas, no último serão você me havia dito que teríamos tempo de conversar sobre alguma coisa, em qualquer dos dias que se seguissem...
– Ah! é verdade, respondeu a amiga.
– Então?
– Eu pedirei a meu pai que me deixe vir passar um dia contigo, d. Celina.
– Olha, depois de amanhã é domingo.
– Pois sim.
– Queres que eu peça a teu pai?...
– Não... ele me estima muito para me negar esse prazer.
– Então eu te espero...
– Depois de amanhã.
As duas amigas separaram-se.
No dia seguinte, e na hora em que a “Bela Órfã” tinha por costume ir cantar, e ouvir o velho Rodrigues, estava Celina encerrada em seu quarto e toda entregue a suas meditações.
– É-me preciso falar, pensava ela: não se pode viver assim em silêncio com a alma cheia de angústias, e condenada a não soltar um só gemido. Os homens têm o direito de chorar bem alto!... quando se diz o que se está padecendo, parece que o mal abranda um pouco...
Ela pensou alguns instantes, e prosseguiu:
– Seguramente aqueles que escrevem, os poetas em primeiro lugar, devem achar bastante consolação escrevendo. Esses sim, não têm necessidade de um seio onde depositem os seus pensamentos, seus segredos e suas dores; eles têm uma amiga fiel e mais condescendente que nenhuma outra na sua pena; quando sofrem, escrevem, dizem o que têm no coração; exaltam-se, eternizam suas penas, suas desgraças, e nessa mesma eternidade acham um grande lenitivo para sua dor. Um poeta!... se ele ama, ele o diz nos seus livros, faz do que se passa em sua alma um romance; está dizendo que ama e a quem ama à face do mundo inteiro, e ninguém compreende o belo segredo que está derramado em todas as páginas de seu livro senão a pessoa que ele quer que compreenda!... oh!... se eu fora poetisa!
E prosseguiu ainda:
– Um poeta! um homem excepcional... o gênio tem por força em si alguma coisa de divino; assim como o oceano é no universo o que poderia dar a idéia do infinito, se a idéia do infinito se pudesse dar; o poeta arremedaria o poder da divindade, se esse poder chegasse a ser arremedado. Porque o poeta cria também o seu mundo, o seu universo; levanta palácios e abre cavernas; desprende as tempestades e faz belas auroras... oh!... que riqueza há aí tão rica como a imaginação de um poeta!... oh! se eu fosse poetisa!...
Respirou alguns instantes, e continuou:
– Se eu fosse poetisa... não precisava tanto, se eu pudesse ao menos escrever algumas páginas, que eu mesma não me fatigasse, lendo-as, ao chegar ao fim da primeira... oh!... que felicidade!... eu havia de pintar o estado do meu coração... exalar meus tormentos e minhas saudades nas páginas do meu livro... escreveria com lágrimas; porém depois, que consolação!... eu beijaria minha alma nas minhas letras, beijaria meus olhos nas minhas lágrimas...
Celina hesitou um momento, e depois disse:
– Quem sabe?...
Ficou pensando ainda:
– Não... não eu não escreveria nada que merecesse ser lido... iria descorar o quadro que existe traçado no meu pensamento... mas em suma, ninguém havia de ler o que eu escrevesse... era um livro que depois de acabado eu lançaria no fogo...
oh!... se eu pudesse escrever...
Ela tornou a hesitar e depois disse como da primeira vez:
– Quem sabe?!...]
A moça pensou ainda... parecia lutar entre um grande, um nobre desejo, e um receio, que, apesar de pueril, podia muito no seu ânimo. Enfim o nobre desejo triunfou.
A “Bela Órfã” ergueu-se do leito onde estava recostada, foi primeiro observar se sua tia estava no quarto vizinho... Mariana dormia.
Tomou então todas as disposições para escrever, e sentando-se junto de uma mesa, começou a trabalhar.
O fruto das inspirações daquela virgem de dezesseis anos devia ser cheio de pensamentos inocentes e puros: era talvez como uma flor que derrama na solidão perfumes agradáveis e leves.
Ao terminar a primeira página, a “Bela Órfã” parou de repente ouvindo a voz do velho Rodrigues.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.